toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

A Fórmula Marvel

A gente conhece seus filmes, Marvel, e nos divertimos muito com eles. Mas, vem cá, a gente meio que tá sacando essa fórmula na ponta da língua para escrever uma boa história. A questão, minha cara Marvel, é: continuar no básico ou partir para algo novo? Vamos dar uma destrinchada nos pró e contras dessa "Fórmula Marvel de se fazer história de heróis" que se estabeleceu nos cinemas.


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A Marvel tem como grande mérito em sua franquia o conceito de Universo Expandido, onde a mesma interliga todos os seus filmes por um objetivo em comum, no seu caso, as Joias do Infinito, o grande plot desse primeiro “grande arco cinematográfico”.

Como em toda franquia de sucesso, é necessário estabelecer alguns padrões a serem seguidos durante seus filmes. Dessa forma, a criação do roteiro é facilitada e a expansão das suas ideias a cerca do que promete é trabalhada de maneira mais leve, sem ter que quebrar tanto a cabeça para encaixar um filme no outro.

E nisso a Marvel tem acertado. Em cheio. Os dois Vingadores somaram dois bilhões de dólares! Sim, estamos falando de dois blockbusters que ultrapassaram a casa do bilhão. Isso sem contar os demais filmes da franquia que atuam de modo solo, normalmente chegando à casa do meio bilhão.

tony-stark-robert-downey-jr-jericho-missile-iron-man-1-1.jpg"E pensar que tudo começou em 2008, com esse cara aí, no melhor filme da Marvel".

Mas sabemos que a quantidade nem sempre significa qualidade, não é?

E esmiuçando os filmes dessa franquia (vejam bem, são mais de dez!), conseguimos identificar alguns pontos característicos que fazem com que a Marvel estabeleça uma fórmula para criação de roteiros, como se fosse pré-requisitos na construção de um novo personagem.

Como dito anteriormente, como ela trabalha com o plot de “universo expandido”, esse conceito de fórmula os livra de um início árduo.

A grande questão é o “a seguir”. Aquilo que vem depois, ou, simplesmente, o comodismo em se firmar numa fórmula que vem dando lucro (dessa vez falo de maneira quantitativa e não qualitativa), o que faz seus filmes se tornar preguiçosos e previsíveis.

51-4.jpg"Sejamos francos vai, a gente nem se lembra direito dos filmes do Thor."

É claro que sei que falamos de filmes de super-heróis e que isso não exige nenhum esforço de complexidade. Não é essa a questão. O grande “X” é quando a mesma se propõe a tentar algo diferente, mas, por estar presa a esses conceitos, acabam destoando toda uma série de novas ideias e profundidades para seguir no caminho confortável.

E esse “X” é grande. Novamente, a gente fica com preguiça, o filme se torna previsível e com apenas um trailer a gente é capaz de entender toda a história.

Por isso, vamos analisar alguns pontos dessa Fórmula Marvel, indicando o porquê ela se faz necessária, como funcionar e qual é a parte negativa de se prender tanto a mesma.

2560x1440.jpg"Ahhhhh se o Edgar Wrigth tivesse ficado na direção desse filme, e não só no roteiro..."

Bora lá?

O Tom: o tom é sempre pautado no otimismo. E não poderia ser diferente, estamos falando de filmes sobre super-heróis! Porém, o maior problema em se prender a esse tom é justamente se tornar refém do mesmo.

Durante os filmes, somos apresentados a um clima aparentemente hostil e que é suavizado pela presença do herói, seja pelas piadas ou ocasiões engraçadas, até aí tudo bem. O que pega é quando a insistência, a necessidade em de deixar o clima sem bom faz com que os personagens não consigam ser quebrados e aprofundados.

Marvel_One-shot_All-Hail-the-King_001.jpg"Esse é o Mandarim, do Homem de Ferro 3, explicando que os roteiristas perdem os amigos, mas não perdem a piada."

Temos exemplos como Homem de Ferro 3, que possuía uma premissa bacana sobre Homem x Máquina e a crise de pânico e ansiedade do Tony Stark, originada pelos enventos ocorridos em Vingadores. Como a temática em si já é pesada, o excesso de piadas causou o efeito contrário: ao invés de suavizar as cenas, acabou deixando a temática boba, rasa.

Em Capitão América: Guerra Civil, temos o mesmo problema: uma temática que, em tese, desconstruiria seus personagens, separando-os por ideologias diferentes, que é amplamente negada no final do filme com uma mensagem do Steve Rogers para o Tony Stark, dizendo que, apesar de todas as diferenças, ainda serão amigos.

Captain_America_Civil_War-2015-trailer_screenshot.jpg"Qual é Capitão, depois de toda essa briga, não tem problema nenhum em ficar de mal do seu amigo."

O otimismo não é o problema, mas se prender a ele faz com que os personagens não evoluam quando o roteiro os propõe a isso.

O Herói: um dos grandes méritos da Marvel é a capacidade de criar heróis carismáticos. Você compra suas motivações, confia logo de cara, joga no mesmo time que ele, fácil, fácil.

E o grande pecado da Marvel com eles é justamente não mexer em suas motivações. Prende-se tanto à atuação no momento que é apresentado que a profundidade se perde ao longo de suas continuações. Nova história, novos acontecimentos, onde até os coadjuvantes evoluem, enquanto os protagonistas continuam sólidos.

avengers-movie-image-chris-evans.jpg"Segura a pose heroica em meio ao ataque alienígena em massa!"

Talvez tenhamos essa mudança em Soldado Invernal, onde Steve Rogers questiona seu conceito de moralidade, sobre o que é certo e errado nos dias de hoje. Porém, temos um Capitão irritantemente certo e “cuspindo regras” em Guerra Civil, o que nos faz questionar se houve, ou não, maturação do personagem, que parecia ter acontecido na sequencia anterior.

O Vilão: talvez esse seja a maior base de crítica quanto à fórmula da Marvel. A qualidade na construção do vilão.

Como dito anteriormente, os protagonistas da Marvel são única e exclusivamente os heróis, tendo em vista a quantidade de vezes que lutaram entre si.

Os vilões, nesse caso, possuem exatamente os mesmos poderes que os heróis, funcionado apenas como um contraponto, com a função de nos mostrar que os poderes e os dons que possuímos devem ser usados para o bem (com grandes poderes vêm grandes responsabilidades?).

Tom-Hiddleston-Loki-Weather-Report.jpg"E o que falar desse Loki que eu mal conheço e já curto pacas?"

E qual é o problema? O problema, meus caros, é que se foca tanto no carisma do herói que o papel do antagonista nada mais é do que esse contraponto. Uma história em que o antagonista tem a mesma importância que um coadjuvante.

E não precisamos ir longe, de cabeça temos os seguintes heróis e vilões idênticos, apenas para salientar a importância de se fazer o bem. Vejam só a lista: Homem de Ferro x Monge de Ferro (o careca, Obadiah Stane), Capitão América x Caveira Vermelha, Thor x Loki, Hulk x Hulk Cinza, Capitão América x Soldado Invernal, Tony Stark x Justin Hammer, Homem de Ferro x Chicote, Homem Formiga x Jaqueta Amarela, e por aí vai.

A ausência de um antagonista forte, profundo e, até certo ponto, complexo, faz com que o filme inteiro gire em torno do protagonista, dando a impressão de que nada acontece e que os perigos, em seu íntimo, não são reais.

maxresdefault.jpg"É covardia com qualquer vilão disputar com uma cena dessas."

O conceito: a ideia do universo expandido através de filmes interligados fez da Marvel uma franquia bilionária, acertando em cheio todos os fãs de heróis que sonhavam em ver todos atuando juntos, tornando o primeiro Vingadores um marco dessa série. A questão aqui é justamente a necessidade de interligar todos os filmes, promovendo alguns apenas como “barriga” para um filme maior, como a nítida diferença entre o primeiro e o segundo Capitão América. De novo, a quantidade pela qualidade.

guardians-prisoners.jpg"Vocês fizeram um puta filme com um guaxinim de trabuco e uma árvore, é claro que vocês tem potencial para mais."

Com essas linhas apresentadas, o que podemos concluir sobre isso?

Acredito que a Marvel não chegou ao patamar que se encontra a toa e, graças a sua fórmula, acabou tomando a si o “selo Marvel de qualidade”. O que é um grande mérito, por sinal.

O único cuidado que a mesma deve ter se dá na zona de conforto que sua “fórmula de sucesso” proporciona, afinal de contas, temos mais de dez filmes da franquia, mas pouco deles realmente memoráveis, mesmo sendo lucrativos.

Qualidade sempre a frente da quantidade.

Essa é a ideia, e nunca o contrário.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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