toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

A vida nem tão secreta da sua criatividade

Você sabia que uma hora isso iria acontecer. Mas nunca chegou a imaginar que seria justamente com você. E olha, não adianta ficar encarando seu post, artigo, excel do trabalho ou o powerpoint do seminário da faculdade valendo dois pontos na média. Não vai sair nada daí. A solução para esse problema? Não tenho a mínima ideia, mas continuar brigando com seu bloqueio criativo talvez não seja a coisa mais inteligente a se fazer.


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Eu não faço a mínima ideia do que falar a seguir e não estou te enrolando por causa disso. Juro. Mesmo. De verdade.

Pra te explicar melhor, se fosse lá pelos anos oitenta, noventa, haveria Pedaços de um caderno manchado de vinho recheando a lata de lixo que se encontraria ao lado da minha máquina de escrever. E, como eu me conheço muito bem, não demoraria mais do que doze minutos e trinta e sete segundos para que eu a revirasse toda, com a esperança de salvar um daqueles rascunhos amassados.

_WM31766.jpg"Duvido que vou demorar, apenas, doze minutos e trinta e sete segundos para achar pedaços de um caderno manchado de vinho."

E olha, ideias não me faltam. E é aí que o bicho pega.

Imagina que você queira falar de algo relacionado a música, como, por exemplo, o Lin-Manuel Miranda transformou uma possível aula monótona de história americana em um musical fantástico, cheio de rap e diversidade no elenco? É sério, ouçam as músicas do seu concerto Hamilton, é muito bom, Lin-Manuel Miranda manda muito.

Como disse há pouco, não estou enrolando vocês. Juro. Mesmo, de verdade.

Talvez o excesso de informações que temos hoje em dia acaba gerando, de uma forma irônica, uma desinformação generalizada. Passamos a ser conhecedores rasos de todos os assuntos do momento e, tirando filmes e séries, não somos doutores em nenhum desses assuntos, se analisados individualmente e com a devida profundidade.

Cinemascope-A-Vida-Secreta-de-Walter-Mitty.jpg"Tá lá você na sua e as suas ideias te encarando, vendo quando, de fato, irão sair para o papel."

Mas não é esse o motivo desse texto. Ele pode ser um também. Talvez, mas bem talvez, a culpa seja daquela velha mania de procrastinar as coisas. Uma palavra tão bonita para o ato de deixar tudo para depois. Penso, logo desisto, ou, para que fazer amanhã, o que podemos fazer depois de amanhã?

Excesso de informação, desinformação, procrastinação e uma sequência de palavras que parecem formar uma rima forçada que eu, pessoalmente, odeio quando acontece. Se elas não estiverem presentes num poema, sempre vou achar que falta um pouco mais de professor Pasquale no meu vocabulário.

Não estou enrolando vocês. Juro. Mesmo, de verdade.

secret-life-of-walter-mitty-ben-stiller.jpg"Pode demorar um dia, uma semana ou um mês, mas, quando você menos perceber, estará mais ou menos assim, atônito sem ter o que fazer."

E a última coisa que pretendo é sair daqui dando um conselho fantástico que, convenientemente, acaba casando com a notícia do momento ou com o seu estado de espírito. Sou péssimo nisso. Aliás, não tenho nem sequer sabedoria para tanto.

O fato é que, cá estamos, com um leve bloqueio de criatividade. Travou. Deu aquela tela azul no Windows. Tô sem ideia para formar uma sequência de palavras simples nesse meu espaço a respeito de filmes, séries, músicas, livros.

E, meu, como isso é horrível.

thesecretlifeofwaltermitty14.jpg"E nem adianta olhar mais de perto, você não vai ver, de maneira alguma, sua ideia sair de lá."

Você tem tudo esquematizado na sua cabeça. O rapper Lin-Manuel Miranda, sua participação na série House, o musical Hamilton, está tudo ali, mas, de alguma maneira, você não consegue colocar no papel.

Tenho quase certeza que isso não acontece somente comigo, que acha que faz às vezes de um escritor.

Em qualquer ponto do seu dia, semana, mês, não importa, quando você menos espera, a ideia não flui. Você sabe que ela está ali, passeando insistentemente pela sua cabeça, mas não consegue, de maneira alguma, coloca-la em prática. Seja num artigo, post, na planilha de excel do trabalho ou no powerpoint do seminário da faculdade.

E ficar encarando o artigo, post, excel ou powerpoint do seminário da faculdade é a pior coisa que existe.

Não sei quanto a vocês, mas eu acho que, quando a ideia resolve fazer isso com a gente, ela faz um papel de uma tremenda filha da putice.

I-Sogni-Segreti-di-Walter-Mitty-13.jpg"Essa seria a história incrível, fantástica, sensacional, que eu escreveria se não tivesse o bloqueio criativo."

A ideia que permeia a sua cabeça, mas teima em não se expressar, se equivale a quando você está numa roda de bar e tem algo fantástico para dizer ou argumentar, mas as palavras fogem. Daí, no caminho de volta para a casa, ela aparece. Lembro que vi essa citação em um dos contos do Chuck Palahniuk. Nele, era dito que os franceses dão o nome para essa sensação de Espírito da Escada.

Não sei quanto a vocês, mas eu costumo ficar inquieto com isso. Um pouco agitado, pensativo e achando que, de uma hora para outra, terei aquele desbloqueio de criatividade, como se eu estivesse trabalhando em uma das áreas de lazer do Google.

Isso porque me encontro sem a mínima ideia do que falar a seguir e não estou te enrolando por causa disso. Juro. Mesmo. De verdade.

Walter_Mitty_1_640x360.jpg"Foi mais ou menos assim que fiz quando vi que estava passando o filme dos Simpsons."

Até uma vez que, passeando nos canais, tipo quando passear nos cento e dezoito canais da sua televisão é mais interessante do que assistir a um programa de fato, vi que passava o filme dos Simpsons na Fox. Calma, eles não estão me pagando pela promoção, você vai entender.

Numa das cenas desse filme que já perdi as contas de quantas vezes assisti, o Homer encontra uma gravação da Marge, dizendo que ela e seus filhos saíram do Alasca para retornar a Springfield, onde, apesar de se tornarem odiados por todos seus habitantes, ainda tinham amor pelos mesmos.

Porém, nesse monólogo da Marge, ela me diz algo interessante. “Há vezes em que temos que nos afastar para contemplar uma obra de arte”. Ou um quadro, é algo mais ou menos assim.

1393863621-AR14010960-o.jpg“Há vezes em que temos que nos afastar para contemplar uma obra de arte”

E é o que fiz, ou estou fazendo. E olha, contradizendo um pouco o que eu disse lá em cima sobre dicas convenientes sobre determinadas situações de vida e, utilizando como argumento para isso a música Metamorfose Ambulante do Raul Seixas, posso dizer a você que funcionou, ou melhor, vai funcionar.

Já que não vai funcionar para nenhum de nós ficar encarando nosso post, texto, excel do trabalho ou powerpoint da faculdade, e como não trabalhamos em nenhuma sala temática com vista para uma quadra de tênis lá no Google, a gente pode tentar deixar tudo isso um pouco de lado.

maxresdefault.jpg"Sinta-se livre para aproveitar todas as sugestões que dei ao longo do nosso papo."

Sei lá, ler um pouco Pedaços de um caderno manchado de vinho, do velho safado do Bukowski ou uns contos do Chuck Palahniuk. Dar a chance de escutar o musical Hamilton do Lin-Manuel Miranda, relembrar a discografia do maluco beleza do Raul Seixas, a começar por Metamorfose Ambulantee, até mesmo, rever o filme dos Simpsons.

Dê oportunidade para essas imagens e veja, também, A Vida Secreta de Walter Mitty.

Seja lá o que for fazer, se ainda não deu certo, não precisa forçar a barra. Uma hora ou outra ela vai acontecer.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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