toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Bora fazer melhor?

E lá se foram oito temporadas até a gente conhece-la. A nona temporada tinha potencial, ela poderia ser muito mais do que foi. Uma temporada focada em Ted e Tracy, assim, sem segredo nenhum. Talvez a maior ousadia de todas, as vezes, é ter a humildade e consciência de seguir pelo caminho simples, pois muitas das vezes, é o caminho mais sincero e bonito que temos para trilhar.


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Ok, antes de começar, vamos combinar uma coisa: o final de How I Met Your Mother é ruim. E, veja bem, eu não achei ruim logo de primeira, até levei em consideração o final corajoso e "programado desde o início" da série. O problema é que a nona temporada, ou seu desfecho, contradiz praticamente tudo que foi construído ao longo da história.

Para ela fazer sentido, assista aos três minutos finais da nona e, logo em seguida, reveja a primeira e segunda temporada. Daí sim teremos algum sentido, mesmo que mínimo, para as tomadas de decisões dos personagens.

Não é à toa que foi produzido o final alternativo (e mais coeso) para o box de dvd. Mas essa parte a gente deixa um pouco mais pra frente. Vamos elencar os pontos complicados da série e em como poderíamos melhora-la, seja com o final original ou com o alternativo.

himym916-00235.jpg"Vira e mexe temos que nos sentar numa carteira na sala de aula e aprendermos a diferença de se fazer o simples e o complexo."

Nenhuma série nasce para ter nove temporadas. Talvez seja o caso mais clássico de construção de história. Como nos Estados Unidos a produção de série é massiva, para uma dar certo, é necessário passar por algumas peneiras: primeiro se produz o episódio piloto. Se os produtores verificarem que a história vai vingar, a emissora que a compra concede um pacote de sete episódios. Dando ibope, ela estende para uma temporada. Se no final dela o resultado ainda for positivo, daí é renovado para duas, três temporadas.

Com HIMYM (mais fácil do que por extenso né?) não foi diferente e, por isso, o final original para esse curto espaço de tempo (sem a necessidade de aprofundamento de história e personagens) foi a do "pedido de permissão" do Ted, aos seus filhos, para ficar com a Robin. E isso funcionaria bem se a série fosse curta, com duas, três temporadas, no máximo.

Mas sabemos que a série voou, emplacou bordões e deu espaço para outros protagonismos, como do Barney Stinson.

960.jpg"Ted, acorda! Nem tudo precisa ser tão complicado assim."

E graças a esse cara, temos o segundo "problema".

A reação do público. O público das séries não se diferem muito do público da novela. Os dois veículos de entretenimento reagem de acordo com seus telespectadores, e eles disseram que daria mais liga o Barney com a Robin do que o Ted com a Robin.

E sabemos que esse não foi exatamente o plano construído pelos autores. Mas e então, o que fazer? Voltar aos rumos originais ou embarcar nessa nova abertura de roteiro?

A resposta: os dois. E com isso, temos a teimosia dos produtores.

Lá na terceira pra quarta temporada, somos comprados com um possível relacionamento entre o Barney e a Robin, cujo mesmo tem seu mérito numa nova faceta do Stinson. E isso permeia até o final da série, com direito a todas as idas e vindas que todo casal de série pode ter.

Themotherandbarney.png"Realmente, cada um combina mais com seu respectivo par."

E o Ted...ahhhh o Ted...sofria com o amadurecimento e o retrocesso dos sentimentos que nutria pela Robin, ou melhor, se entendimento sobre o que é amar era posto à prova todo momento. Terminaram a relação, ele a superou e, de uma maneira ou outra, era colocado que ainda a amava. O pior fica para a oitava e nona temporada.

No primeiro caso, é reservado alguns episódios em que ele leva um "não" bonito da Robin, depois amadurece com seus sentimentos quanto a ela para, no fim, tentar furar o olho do amigo. Fora que a motivação que foi encontrada na nona temporada para sua saída de Nova York, foi justamente essa.

Ok, depois de tudo isso que falamos, como poderíamos melhorar a nona temporada?

Bem, pra tentar manter a coerência nas motivações do Ted Mosby, começaria por esse ponto: a sua partida de Nova York. Ao invés do eterno superei/não superei o que sinto pela Robin, no melhor estilo Ross e Rachel, trocaria por um gancho interessante que foi dado na temporada anterior.

himym_cristin.jpg"Esse meu amigo é irritantemente teimoso. E dirigi com luvas"

Aquele episódio da oitava temporada, em que encontra as versões futurísticas do Barney e dele, nos mostra uma percepção um tanto negativa do atual momento do Ted, onde ele se enxerga sozinho, no sentido de “construção de um rumo na vida”, uma vez que o Marshall e a Lilly constituíram uma família e o Barney e a Robin estão planejando o casamento.

Com essa percepção em mãos, sabendo que lhe resta alguns “dias extras” para se encontrar com sua futura mulher, poderíamos tomar essa necessidade de reinvenção, mesmo que para isso, fosse necessário respirar novos ares, como sua motivação para sair de Nova York logo após o casamento dos seus amigos.

Agora nossa motivação ficou um pouco mais complexa e profunda, sem aquele viés emocional tão batido, e debatido, por quase toda a série.

Então aqui estamos na nona temporada, com o casamento sendo o pano de fundo para o grande momento. Acredito que a metáfora não poderia ter sido melhor, afinal de contas, é uma feliz ironia um rapaz sonhador conhecer a mulher da sua vida, justamente em um casamento.

ent_himym_clip_012314_640x360.jpg"Não precisa procurar os mais complexos caminhos e significados. Até mesmo em robôs praticando esportes."

E também há o grande mérito na inserção da Tracy (sim, a mãe tem um nome!) em momentos da vida de cada um dos personagens, algo do tipo “como conheci os amigos do seu pai”. Outro acerto é a relação entre ela e o Ted, tão aguardada pelos fãs, acontecendo em pequenas cenas e de forma retroativa.

Talvez isso tenha dado aquele gosto de “quero mais”, devidamente atendido com um episódio inteiro dedicado somente a ela.

A grande questão nessa temporada se dá em como ela é apresentada. Veja bem, até entendo a ousadia dos produtores em comprimir vinte e dois episódios numa linha cronológica de uma semana, mas isso acaba exigindo um esforço tamanho do espectador em aguentar alguns episódios sem função alguma na história (não preciso comentar nada sobre o episódio do tapa, certo?).

1291c8dc0d084897c8ba96b70b18b6dc.png"Nada tão complexo e inventivo, basta um "oi" para se abrir as portas, ou melhor, o guarda-chuva."

Uma coisa genial, e que se perdeu ao longo da série, era a presença invisível da mãe (ops, Tracy), norteando as ações do Ted. Citações como “nada de bom acontece depois das duas da manhã”, ou aqueles momentos em que o Ted está no mesmo ambiente que a Tracy, sem mesmo imaginar (como o festival de São Patrício ou a casa da colega dele), fazia com que nos identificássemos com ela, sem mesmo ter a conhecido.

Devido a isso, a nona temporada poderia servir como uma “recompensa” para os espectadores que tanto esperavam pelo desfecho, um verdadeiro fan service.

109669-HIMYM-Vesuvias-Ted-and-mother-9tiA.jpeg"A sutileza e a simplicidade tendem a tornas as coisas mais belas."

Talvez HIMYM errou na mão no quesito expectativa. Guardaram tanto, mas tanto, o casal responsável pela série, que mal sabiam o que fazer com eles numa temporada que, em tese, eram justamente sobre os dois. Entendo que o casamento é importante, mas focaram na dose errada. Não andava. Ou melhor, a história só andava com o Ted e a Tracy, o que seria óbvio não é mesmo?

Uma temporada focada em Ted e Tracy, assim, sem segredo nenhum.

Com tudo isso, talvez a gente tenha aprendido que a maior ousadia de todas, as vezes, é ter a humildade e consciência de seguir pelo caminho simples, pois muitas das vezes, é o caminho mais sincero e bonito que temos para trilhar.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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