toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

És tu, rei ou zé?

O golpe já era acusado lá pela década de noventa. A música nunca foi algo fácil. Na verdade, a maioria das coisas que almejamos, não costumam ser fáceis. Você pede um tempo para pensar se vai parar, seguir em frente e o que, de fato, quer para si. Viver pouco como rei ou então muito como zé?


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Mano Brown já acusava o golpe lá pela década de noventa e ele nunca disse que seria fácil. E não foi.

Normalmente nunca é.

E sobre isso ele pede um tempo para pensar se vai parar, seguir em frente e o que, de fato, quer para si.

Viver pouco como Rei ou então muito como Zé?

São dois caminhos interessantes, sendo o segundo o mais sedutor deles, talvez pela sua longevidade e facilidade em conviver consigo. O que não significa que, conviver bem consigo mesmo seja conviver verdadeiramente bem. Isso torna o primeiro caminho mais obscuro e incerto. Sair da caverna para conquistar não é algo que se possa fazer do dia para a noite.

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Não há garantias e nunca haverá. O máximo de certeza que você pode ter diz respeito a sua postura.

Rei ou Zé.

Talvez seja isso que o Mano Brown cantou lá pelos anos noventa. E talvez seja isso que o professor Terrence Fletcher, lá em seu conservatório, colocou a prova.

Terrence Fletcher almeja músicos convictos de si mesmos e confiantes do próprio talento. Aqueles que não cumprem esses pré-requisitos, mesmo com talento e afinação, são rapidamente tirados de cena.

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Para ele, bastam os fortes. Diferentes perfis, além desse, não fazem o seu tipo. O que torna sua corrida contra o tempo e contra a própria frustração em acreditar que, um dia, será apontado como o responsável por talhar um rei, cada vez mais distante.

Quem sabe um novo Charlie “Bird” Parker ou um Jo Jones?

Caso queira ser um rei, estaria mesmo disposto a sangrar por isso?

Andrew respondeu que sim. E por isso sangrou.

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Você senta no trono, coloca a coroa e maneja o cetro. Qualquer passo menor do que isso seria um retrocesso.

O próximo passo é a história.

Pois para Andrew, em seu ideal, ser um rei e morrer bêbado e drogado aos vinte sete anos, com seus feitos eternizados, era um preço que esteve disposto a pagar.

Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Amy Winehouse, Kurt Cobain e tantos outros do Clube dos Vinte e Sete se recusaram a voltar para o ponto de partida e optaram pela história. Foram Reis em meio a tantos Zés.

Então, quando um moleque prepotente pestaneja em dizer se ele está em um ritmo adiantado ou atrasado ao tocar Caravan, seu professor se permite explodir em fúria.

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Não há outra escolha. Gritos, ofensas, provocações e cadeiras sendo jogadas em sua direção. Esse é o preço que ele escolheu pagar ao colocar suas convicções a prova.

Treine, treine bastante e até sangre se assim for necessário. Um dos recortes da parede de Andrew já dizia isso. Quem não tem talento acaba tocando em uma banda de rock.

Aos olhos de terceiros, os dedos cheios de calos, a pressão em ser o melhor para si e para os outros, todo esse esforço não parecia fazer sentido se não houvesse um retorno financeiro. Por isso que, em uma mesa de jantar, Andrew não aceitava a existência de supostos reis contentes e orgulhosos apenas com pequenas conquistas.

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Orador de classe e artilheiro da terceira divisão da escola. Tudo isso era pouco, muito pouco, para quem almeja ter seu nome lembrado. Mas se tornou suficiente para aqueles dois.

Ambos se contentavam com os tapinhas nas costas, o sorriso amarelo e a frase, dita com a melhor entonação possível. “Bom trabalho”.

Fletcher abomina esses dizeres. Numa mesa de bar, com, até então, seu mais expoente fracasso, ele profere que um “bom trabalho”, seguido de um forte abraço, delimitava o potencial de qualquer um. Você nunca será bom o bastante até conhecer seu limite. E você nunca saberá se poderá ser mais do que bom o bastante se não tentar ultrapassar o limite recém-descoberto.

A zona de conforto é a maior das armadilhas e uma chuva de elogios costuma te atrair para ela.

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Julgue seus métodos, suas escolhas e suas ações e ele encarará de maneira indiferente. O que pode significar que ele não está interessado em você. Seu interesse está em descobrir e talhar novos reis, mesmo que nunca tenha se dado o respeito para isso.

Respeito ao qual Andrew demorou a cunhar.

E essa é a segunda mensagem do filme, das partituras, da bateria, baquetas e dos intermináveis ensaios.

Não se ganha o respeito fazendo aquilo que as pessoas esperam de você.

Andrew nunca foi respeitado por ser um baterista, mesmo tendo o talento incomum. Aos olhos de todos, e durante todo o filme, aos olhos do seu professor, ele não tinha nada de especial. Era apenas um garoto que sabia tocar bateria almejando entrar na escola de música mais importante dos Estados Unidos.

Assim como os vestibulandos são apenas mais uns que disputam algumas vagas.

A questão não é chegar lá. A questão é o que fazer depois de se conseguir chegar.

Devido a isso que a última cena se faz emblemática.

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Fletcher não lecionava mais no conservatório e tirou de Andrew a oportunidade que o mesmo tinha ao se apresentar no show de abertura para uma plateia especializada, cuja mesma poderia, desde a indicar qualquer músico para as melhores academias,, até mesmo, sepultar a carreira de qualquer um.

Por isso que Andrew voltou ao palco. Ele sabia, e o próprio Fletcher confidenciou que, dentre os três bateristas dos intermináveis ensaios, ele era o melhor.

Mas, lembre-se, a questão nunca foi em chegar lá, e sim o que fazer a seguir.

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A troca de olhares, logo após o solo na bateria, indicava que ambos sabiam onde estavam.

Finalmente Fletcher se deu conta que, naquele momento, estava talhando um rei, no mesmo momento que Andrew mostrou que o trono não estava tão longe assim de ser alcançado.

E quanto a você?

És tu, rei ou zé?

E, se for para ser um rei, estaria disposto a sangrar por isso?


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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