toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

O Tarantino quer bater um papo

Você chegou atrasado, bem no meio de uma conversa. Falam sobre Big Mac, massagens nos pés, gorjetas, jogos e sobre o Superman. Você até tenta entender e ponderar o que está sendo conversado, mas ainda se sente perdido no meio de tanta conversa. Acredite, te deixar assim será a melhor coisa que o Tarantino fará por você.


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Logo de cara você percebe que chegou atrasado.

Tudo que é mostrado na primeira cena indica que muita coisa aconteceu antes mesmo de você chegar e, como pegou o bonde andando, sente dificuldade em entender o que se passa naquele momento.

Observa que uns caras numa lanchonete discutem sobre a política de dar gorjeta para garçonetes, enquanto outros discutem questões filosóficas, como o preço do Big Mac em vários lugares do mundo e, também, aplicação de massagens em pés alheios.

Você presta a atenção em tudo que é falado naquele momento. Analisa os pontos de vista e, assim como qualquer um daqueles caras que dividem a mesa, concorda ou discorda com o assunto em pauta.

Mesmo assim, se sente perdido.

Sinto em lhe dizer, mas a última preocupação do Tarantino será te entregar a ficha corrida de cada personagem de mão beijada ou fazer com que eles conversem com você e não com o outro personagem em cena.

E vai por mim, essa é a melhor coisa que ele fará por você.

oscar_duel_is_quentin_tarantino_a_great_director.jpg"Senta aí que o filme começou bem antes dessa primeira cena"

Pegamos o bonde andando, com uma história acontecendo, e nos perguntamos como o Tarantino faz para nos contextualizar sobre seus personagens, uma vez que nenhum protagonista precisou escalar uma montanha, sem qualquer proteção, no começo do filme, para entendermos que ele é forte, corajoso e destemido?

O segredo dessa fórmula é muito mais simples do que a gente imagina.

Ele aposta nos diálogos.

Sim, é verdade. Esses papos de bar são responsáveis por, não só apresentar os personagens, como indicar suas características e modus operandi.

Temos em Pulp Fiction um bom exemplo.

Logo na primeira cena, nos encontramos com um casal conversando, como quem não quer nada, sobre seguros de bancos contra assaltos e como isso torna qualquer intenção de roubo por lá pouco lucrativo. A moça, sempre interessada, observa atentamente o rapaz discursar e a convencer de que, devido a essas circunstâncias, roubar um restaurante seria algo mais lucrativo, pois nenhum restaurante faria um seguro contra roubo.

O casal troca juras de amor, se beijam e anunciam o assalto.

pulp-fiction-diner-seen.jpg"Tá, eu sei que será mais prático falar para o espectador que vamos assaltar esse lugar, mas daí eles perderiam toda a surpresa"

Ninguém daquele restaurante, inclusive a gente, esperava por essa. E isso acontece devido a como o diretor encaminhou a cena.

O casal conversava sobre assaltos e não sobre assaltar. E essa percepção faz toda a diferença. Em momento algum eles soltaram aqueles jargões “vamos assaltar”, “você trouxe as armas?” ou o clássico “esse será o nosso último serviço”, como se tivesse falando com a gente e não com quem divide a cena. Por isso, mesmo acompanhando o desenvolvimento do papo sobre assalto, a gente se surpreende com o anúncio do mesmo.

O Tarantino entende que não precisa te pegar pela mão e explicar tudo que planeja. Ele sabe que você pode fazer isso por si só.

É aí que você entende a diferença entre diretores.

Enquanto uns tentam te convencer que a história é boa, outros simplesmente as contam, cabendo a você julga-la.

Corta a cena para os Bastardos Inglórios.

Os bastardos estão num bar com sua agente dupla, dividindo o mesmo ambiente com soldados alemães.

A tensão proposta na cena é a descoberta de suas identidades e, para isso, são provocados a todo o momento, desde o jovem alemão bêbado até o capitão, que está em um ambiente diferente desse mesmo bar.

Tenho certeza que outro diretor, para que a cena se concretizasse e correspondesse a nossa expectativa, apostaria num deslize de um dos bastardos com o vazamento da sua identidade ou apelaria para uma percepção acima da média do capitão com uma abordagem mais direta, apontando a arma para a cabeça de alguém.

inglouriousbasterds13.jpg"Tudo bem com vocês? Eu estava lá no canto ouvindo a conversa e acabei descobrindo que são farsantes. Poderiam me dar a licença para dar um tiro na cabeça de cada um de vocês?"

Tendo isso em mãos, o Tarantino caminha por uma terceira via.

Nós sabemos que o capitão está desconfiado do grupo e também sabemos que os bastardos estão tensos naquele ambiente. Por isso, o Tarantino resolve testar o limite de todos através de um jogo de adivinhação.

Percebemos a postura passiva agressiva do capitão, a impulsividade de um bastardo e a leveza no comportamento que toda a agente dupla deveria ter, através de um simples jogo, o que torna o tiroteio que se segue bem mais convincente do que se fosse antecipado por um monólogo do tipo “desconfiei de vocês desde o momento que entraram aqui”. Isso acarretaria, novamente, com a sensação do personagem estar se justificando para o espectador e não para o outro personagem em cena.

Bora para um último exemplo?

Em Cães de Aluguel, um grupo de homens se encontra numa lanchonete conversando sobre diversos assuntos, desde o verdadeiro significado de Like a Virgin, da Madonna, até a política de pagamento de gorjeta.

Vamos focar nesse segundo assunto, o pagamento da gorjeta.

Ao longo do filme notamos a tensão entre dois personagens da trama: Mr. Pink e o Mr. White. O primeiro é o mais questionador e desconfiado do grupo quanto ao traidor que os entregou para a polícia. Já o segundo, é mais compassível, preferindo não se arriscar antes de ter certeza de algo.

steve-buscemi,-quentin-tarantino,-michael-madsen,-edward-bunker,-and-lawrence-tierney-in-de-hänsynslösa-(1992).jpg"Eu poderia falar que não me darei bem com o Mr. Pink, mas a graça acabaria mais rápido do que o café do Mr. Brown"

Quando Mr. Pink discursa, de maneira prepotente, o quanto é contra a política de gorjeta, reparamos que o Mr. White discorda prontamente do fato, o repudiando a todo instante. Esse entrevero dá indícios de como seria a relação de ambos com o decorrer do filme, sem a necessidade do Mr. White dizer algo como "sabe cara, não gosto de você",

Novamente, o Tarantino opta por nos jogar todas essas informações logo de cara, através de seus diálogos, ao invés de pegar na nossa mão e explicar passo a passo quem é quem, com direito a todos os “comos” e “porquês”. Dessa maneira, ele nos obriga a participar mesmo do filme, a prestar atenção em cada cena e em tudo que é dito, para que possamos entender aonde ele quer chegar e, aí sim, acompanhar a história.

_74411444_tarantino.jpgA felicidade no olhar de quem não vai te entregar nada mastigado

Dito isso, a que ponto chegamos? O Tarantino é um grande diretor por nos apresentar essa ótica? Também, mas, o mais importante nisso tudo, é entendermos a diferença entre filmes que tentam nos convencer sobre aquilo que se conta e filmes que se preocupam em contar uma boa história.

Afinal de contas, um filme se torna muito mais divertido de se assistir quando nos convida a participar da história, deixando toda a parte de descoberta, discussão e julgamento com a gente.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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