toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Os maneirismos do Jim Carrey

A primeira coisa que vem a cabeça ao se lembrar do Jim Carrey são suas caretas e trejeitos espalhafatosos. Ele sabe fazer isso, e pra falar a verdade, faz brincando. E o pior de tudo é que num primeiro momento você acha tudo aquilo um exagero em cena mas, ao revê-la, não imaginaria de outra maneira. E, vamos concordar, não haveria como ser diferente.


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Acho que todos devem saber que existem atores e atrizes que nasceram para interpretar a si mesmo. Tô falando sério, é verdade. Veja bem, você está dirigindo um filme e se depara com algum protagonista, tipo o Al Pacino, Samuel L. Jackson, Meryl Streep, Viola Davis ou Denzel Washington.

E o que você faria? Nada. É isso mesmo. Você faria exatamente nada porque é a melhor decisão a se tomar.

A coisa mais fácil de fazer é entregar o roteiro do seu filme de noventa e seis minutos pra o Al Pacino e dizer “Al Pacino, aqui está o roteiro, faz aquilo que você faz de melhor”, então o Al Pacino se interpretará como um gangster, um cego ou o filho de um poderoso chefão da máfia italiana. Sem esforço algum.

Scent-of-a-woman-al-pacino-movies-19176710-639-343.jpg"Se estou usando nomes de diversos atores e atrizes para reforçar meu argumento? Sim."

E não só ele. Entregue qualquer papel para a Meryl Streep, Viola Davis, Samuel L Jackson ou o Denzel Washington e se limite a dizer para eles fazerem o que quiserem ou, na melhor das hipóteses, serem eles mesmos.

Claro, existem outros casos. Também existem atores que nasceram para interpretar a si mesmos, mas isso não significa que eles se sairiam bem, pensem em quem cof cof Adam Sandler cof cof quiser. Significa que seus trabalhos são ruins? Não necessariamente. Mas significa a grande diferença de atuação e segura e isso sim conta, e muito.

Yes_6ac571_1327942.jpg"Daí o diretor pensou que ele não deveria se preocupar com o fato de ter esquecido o durex na mesa."

Bem, depois dessa pequena análise é que a gente volta lá para o título, Os maneirismos do Jim Carrey e, pela minha sorte por ser um grande fã do trabalho dele, Jim Carrey se encontra no primeiro grupo.

Ainda no título, bora dar uma focada na primeira parte, Os maneirismos.

Existe uma técnica difundida por alguns atores denominada overactor, que se dá quando o ator, ou atriz, extrapola na interpretação, seja com atuações gestuais ou sonoras. A extrapolação, ao contrário do que se imagina, na linha overactor de atuação, normalmente é algo benéfico, que acrescenta a cena.

Jim-Carrey-Crying-With-Written-Face-Funny-Picture.jpg"Hmmmmmm qual seria a melhor maneira de tentar mentir pra mim mesmo e dizer que a caneta é vermelha?"

Claro, que essa escola constrói uma linha tênue de boas e más atuações. Existem atores cof cof Shia LaBeouf cof cof que não são bons e, talvez para mascarar a pouca capacidade técnica de interpretação, apelam para o esdrúxulo. O intuito pode até parecer o mesmo, mas não é legal. Nem de longe.

Tirando alguns filmes do seu catálogo de atuações que não estão relacionados com a comédia, como O Pentelho (não me pergunte o porquê dessa tradução), O mundo de Andy, O Show de Truman, O brilho eterno de uma mente sem Lembranças, todos bons, por sinal, Jim Carrey sempre tem a acrescentar seu overactor em suas atuações.

582x0_1410382510.jpg"Não se deixe enganar pelas aparências. Vai por mim, esse cara é bom."

Ele sabe que isso o fez chegar aonde chegou. E ele sabe que é essa sua vertente excêntrica que esperamos dele a cada nova comédia anunciada.

E tudo isso porque ele é bom. Muito bom no que se propõe a fazer.

Tome O Mentiroso como um dos melhores exemplos e uso da tal técnica.

A sinopse é simples. Um advogado pai de família, divorciado e que tenta, a todo custo, ganhar a confiança do filho que ainda o idolatra. O único porém é que, por força da profissão, ele mente, e mente bem. Até que no aniversário do seu filho, o mesmo deseja que ele parasse de mentir por um dia, justamente o dia do julgamento mais importante da vida dele.

Liar-Liar-Jim-Carrey.jpg"Admita, aquele julgamento não seria a mesma coisa sem seus trejeitos."

Nesse cenário entendemos toda a força que ele faz para retomar o seu vício de mentir, mesmo sendo impossibilitado de fazê-lo, graças ao pedido mágico do seu filho. Veja como seus maneirismos, por mais extrapolados que pareçam ser, e é, torna o sofrimento do personagem mais real e cômico, do que simplesmente se ele passasse o filme inteiro nervoso e resmungando por não conseguir mais mentir.

Podemos continuar nesse embalo e citar o Máscara, que o filme por si só já explica, e muito, do potencial dele (em caso de dúvidas, tente assistir a trinta minutos da continuação desse filme. Ou melhor, não faça isso).

mask_2.jpg"Se valorizam o trabalho do Jim Carrey e da Cameron Diaz, faça um favor a eles e até a você mesmo. Não assista O Máscara 2. Se já assistiu, finja que nada daquilo aconteceu."

Pode ser que você me diga que O Máscara, Ace Ventura e Debi e Loide são filmes que fazem do uso desse método um preceito básico para a atuação. Não nego o fato, assim como também duvido muito que algum outro ator conseguiria trabalhar tão bem dessa maneira sem ultrapassar a linha tênue da extravagância e do esdrúxulo.

Caso queira, ainda posso citar dois exemplos bem de leve, ou não, afinal de contas, é do Jim Carrey que estamos falando, do uso do exagero para a melhora numa cena.

Bora lá?

Acho que vocês conhecem a história de cor sobre Todo Poderoso, já que temos Morgan Freeman, outro ator que você não precisa dizer nada, ele mesmo se interpreta, como Deus.

003BAL_Morgan_Freeman_003.jpg"As vezes até mesmo Deus tem uma dessas."

Então Bruce está nas cataratas do Niágara, com um chapéu de guarda chuva e crente que será promovido para atuar como âncora do canal, até que é surpreendido com a notícia de que Evan Baxter, interpretado por Steven Carell que, bem, vocês já devem saber, foi escolhido para ser o mais novo âncora do canal. Daí sobre Jim Carrey na cena, onde, cada vez que se exaltava ao lado da velha ele crescia, crescia, crescia, até que o temos gritando “Erosão! Erosão! Erosão!”.

maxresdefault.jpg"Erosão! Erosão! Erosão! Erosãããooo!!!"

É quando você percebe que, depois disso, é impossível pensar que essa cena não precisaria de tudo isso e ficaria boa apenas com suas alfinetadas irônicas.

Daí nos encontramos com Carl, aquele cara que não tem ânimo para nada, até participar de uma palestra, cuja missão é dizer “Sim” para todas as coisas. Você tem que dizer “Sim” para, literalmente, todas as coisas que lhe forem propostas.

Destaco duas cenas que, com certeza, teve aquela interação entre diretor e ator como algo do tipo “bem, vai lá e faça o que você sempre faz”.

270b9348571e7efd168669c6c781f412.jpg"Talvez não exista uma melhor forma de morrer de tédio como essa."

Temos os amigos do Carl encontrando-o morto, literalmente, de tédio no sofá. Claro, não seria exatamente dessa maneira que escolheríamos morrer, mas funciona. É aquela gag exagerada que costuma funcionar com ele atuando.

Há também a brincadeira entre Carl e o gerente do banco. Entre uma careta e outra, temos um durex na mesa e...bem, vocês já devem imaginar o que acontece ao deixar um durex ao lado dele né?

Por isso é tão interessante notarmos os efeitos e sensações que alguns atores e atrizes trazem para gente, a ponto de percorrerem essa linha tão tênue que divide a extravagância e o esdrúxulo, nos fazendo pensar em como seria aquela cena se não fosse tão extravagante, como o ator se propôs a fazer.

jim capa.jpg"Jim Carrey treinando seu overactor antes de entrar em cena."

Jim Carrey faz isso. E faz brincando.

E é por isso que tenho aquela raiva boa em vê-lo estrear qualquer filme de comédia.

Não perco um, e você também não deveria perder.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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