toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Pelo que lutamos?

A ideia de participar de um clube clandestino de luta, ou começar seu próprio clube, se fez tentador ao menos umas duas vezes na sua vida. Mas será que entendemos qual é a função do Clube da Luta, ou seríamos um dos macacos espaciais do Tyler Durden?


clube da luta capa.jpg

Já deve ter feito uns trinta minutos que batemos um bom papo e, nesse meio tempo, falamos sobre todas aquelas regras do Clube da Luta, rimos ao entender como é absolutamente fácil fazer um sabonete ou o risco que poderíamos correr de explodir nossa casa se não soubéssemos a real importância de uma laranja.

Mas, naquele breve silêncio, que funciona como um descanso desses minutos da nossa conversa, a gente para e pensa sobre tudo o que foi falado até agora.

Regras, sabonetes, laranjas.

Folheamos todo o livro mentalmente. Relemos as mais de duzentas páginas, palavra por palavra, e visitamos seu posfácio. No final das contas, a gente ainda não entende direito do que se tratou a nossa participação naquele clube em todos os finais de semana que ele funcionava.

O ponto de interrogação estampado na nossa cara não seria para menos, afinal de contas, propagamos tanto esse clube e suas regras que mal sabemos nosso papel.

Somos um pouco do Tyler Durden ou somos aqueles macacos espaciais, alocados na casa dele na Paper Street, portando, cada um, duas camisas pretas, dois pares de calças pretas, um par de coturnos pretos, dois pares de meias pretas, um casaco preto e trezentos dólares para o próprio enterro?

Não me leve a mal, também estou um pouco contrariado, mas tenho que te falar uma coisa. Talvez a única pessoa que tenha entendido o que significava participar do Clube da Luta, a ponto de sair de lá assim que esse ideal caiu por terra, tenha sido o próprio Narrador.

Há um momento na nossa vida, quer ele aconteça cedo ou tarde, que nos questionamos sobre o que nos impulsiona a estar nesse patamar que alcançamos e se, no final das contas, somos aquela cópia da cópia da cópia, com um copo de Starbucks na mão, a ser entregue para outras pessoas através de um estagiário que mal sabe se organizar.

Fight_Club_IKEA.jpgE cá estamos pensando em todas as questões que nos incomodam, enquanto nos distraímos com alguma revista ou jogo de celular

Partindo desse ponto, o Narrador e o Tyler nos surpreendem com o Clube da Luta, ainda mais quando nos dizem que o clube sempre esteve escancarado na nossa cara, e o papel dos dois só foi mostrar isso a todos.

Então, uma vez por semana, a gente se sente aliviado por cada soco que levamos no rosto. A gente procura entender o porquê disso e encontramos tudo explicado em todos os lugares. Talvez seja o confronto do nosso ID e o Superego, a nossa busca incessante por nossos instintos mais primitivos, o alívio de toda a tensão rotineira da nossa vida ou uma válvula de escape dessa sociedade consumista e egocêntrica.

Talvez seja mesmo tudo isso.

Mas, então, somos apresentados ao Projeto Desordem e Destruição. E foi nesse ponto que o Narrador pareceu compreender o que o levou para o Clube da Luta.

Não era sobre questões anarquistas, sua representação animalesca ou sua fuga da insônia. Tinha algo mais.

Aquele Clube da Luta foi a oportunidade que ele encontrou, pela primeira vez há muito tempo, em ser, genuinamente, quem queria ser. Pouco importa quem ganhava ou perdia. Não se tratava disso. Ele estava ali, sem camisa e sapatos, sendo ele mesmo, o tempo que tivesse que durar.

O clube foi seu acerto. De nada adiantou participar de demais grupos de apoio, onde também sentia a dor e a sinceridade genuína de terceiros, se a sua mentira estava refletida, a todo o momento, na presença de Marla Singer, outra farsante que participava dos grupos de apoio.

Foi quando ele e o Tyler escancararam o Clube da Luta para a gente.

Fight_Club_01.jpgNinguém falou que seria fácil ou que não iria doer nada

Um lugar onde ninguém dá a mínima para você. Não interessa a ninguém o lugar em que nasceu, onde vive, sua condição social e sua religião. Nada disso é relevante e interessante para quem está lá.

O entendimento disso nos livra de quaisquer amarras. Um lugar onde a única pessoa que você tem algo a provar é si mesmo e mais ninguém.

Talvez essa seja a grande questão que buscamos e que nos foi apresentado, literalmente, no Clube da Luta.

Não se trata de bater ou apanhar ou de vencer e perder. O fato de haver uma luta serve para indicar que esse processo de entendimento sobre si mesmo, quer você queira, quer não, é doloroso.

Veja o caso de Raymond K. Hessel, aquele jovem de vinte três anos que largou a faculdade de veterinária para trabalhar num mercado e ganhar o suficiente para viver.

Quando o Narrador apontou a arma para a sua cabeça, o Clube da Luta se fez presente. Sem aquelas oito regras, sem trocas de soco e nem nada parecido. Naquele momento em que Raymond K. Hessel era ameaçado pelo Narrador, ele se viu de frente com si mesmo, aquele que almejava ser um veterinário e, por qualquer que fosse seu motivo, desistiu.

Fight-Club-Veterinarian-Raymond-k-hessel-1024x396.jpgMal sabe ele que seu jantar terá o melhor sabor de todas as refeições que já comeu e que o dia seguinte será o mais lindo em toda a sua vida

Apesar dos métodos pouco ortodoxos do Narrador, na manhã seguinte, Raymond K. Hessel entendeu que poderia ser, novamente, quem quisesse. Até mesmo um médico veterinário. A metáfora do Clube da Luta esteve presente pra ele naquela noite.

Então, quando o Tyler Durden apresenta o que seria a evolução natural do Clube da Luta, nomeado como Projeto Desordem e Destruição, cujo mesmo é composto por normas de condutas extremamente rígidas, dentre as quais é proibido questionar qualquer ordem, o Narrador entendeu que não valeria a pena abrir mão do seu individualismo, o mesmo reconquistado a duras penas, para, novamente, ser apenas parte de um todo.

FIGHTCLB-cap2.jpgAgora é só escolher sua luta e trava-la, trocando socos ou não

Talvez esse seja a luta que travamos a todo o momento.

O entendimento de que não precisamos oferecer aquilo que a sociedade nos cobra para sermos aceitos pela mesma, e sim buscar aquilo que almejamos ser, livres de quaisquer amarras de cobrança e aprovação a todo o momento.

Essa é a parte mais difícil e a que nos faz lutarmos a todo o momento. Trocando socos ou não, estamos lá, lutando.

Caso você também comece a entender isso, assim como o Narrador também o fez, seja bem vindo ao Clube.

Aos poucos a gente vai entendendo.

E, antes que eu me esqueça, a primeira regra do Clube da Luta é que você não fala sobre o Clube da Luta.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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