toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Quando você percebe que menos é mais

Foi com o livro Clube da Luta que enxerguei uma nova maneira de se escrever. Quer dizer, basicamente é a mesma, coisa. Um punhado de palavras, personagens, motivações, narrativas e por ae vai. Daí o Chuck Palahniuk vem e me dá um soco narrativo bem no meio da cara. O que acontece a seguir é como se fosse naqueles desenhos, onde a lâmpada acende acima da cabeça do personagem.


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Durante todo o artigo, vira e mexe você vai encontrar uma de um filme ou série. Mas foca no minimalismo que ela leva. Esse é o nosso papo.

Foi com o livro Clube da Luta que enxerguei uma nova maneira de se escrever. Quer dizer, basicamente é a mesma, coisa. Um punhado de palavras, personagens, motivações, narrativas e por ae vai.

Daí o Chuck Palahniuk vem e me dá um soco narrativo bem no meio da cara. O que acontece a seguir é como se fosse naqueles desenhos, onde a lâmpada acende acima da cabeça do personagem.

Eu poderia ter utilizado a palavra epifania? Poderia, mas a ilustração de um cartoon me parece muito melhor.

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Por fim, a escrita minimalista veio para ficar, ao menos pra mim.

Talvez eu te convença, ou talvez não, que a melhor coisa na escrita minimalista é que ela está intimamente ligada com os nossos trejeitos e maneiras de querer enxergar o mundo. Quer ver só?

Ao escrever, faça de tudo para que o leitor te acompanhe na história, não entregue nada de mão beijada. Esqueça todas as definições de características físicas dos seus personagens. Deixe que o leitor defina, por si só, se o personagem é alto, baixo, magro, gordo, branco, negro, amarelo, pardo e por ae vai.

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Assim como na vida, onde é bem melhor você acreditar nas pessoas pelos seus atos e não por suas palavras, jamais escreva, de forma literal, o que seu personagem sente pelo outro. Ao invés de “Robson percebeu que a Ana estava chateada com ele por ter se atrasado na festa de aniversário da sua mãe” experimente algo como: “Todas as vezes que Robson voltava com a Ana de algum passeio, ela pedi que parasse em alguma locadora para alugar dois filmes, sempre um de comédia e outro de ação. Dessa vez, assim que retornavam do aniversário da sua mãe, Ana preferiu adotar o silêncio no caminho inteiro da volta, preferindo ignorar a locadora.”.

Tá vendo que, no primeiro exemplo, você entrega logo de cara os sentimentos da personagem, deixando o leitor ciente, mas não participativo? Agora veja o segundo exemplo e observe como você convida o leitor a participar e compreender a atitude tomada pela Ana. Então se lembre disso sempre, atitudes sempre serão mais importantes do que as palavras.

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E outra, procure não quebrar a dinâmica da história. Não inicie qualquer ação já indicando, logo de cara, a situação. Tente esquecer coisas do tipo “Por estar atrasada, Maria tem certeza que vai ganhar, pelo menos, uns dez pontos na carteira.”. Desse modo, parece que você está tentando justificar sua história para o leitor, tentando fazer com que ele acredite.

Tente pensar em algo mais ou menos do tipo “Ela cortava os carros como se estivesse naqueles filmes de ação do Vin Diesel. Por isso, cada semáforo fechado que ela pegava, durava toda uma eternidade. Maria repete para si mesma que a primeira coisa que fará assim que voltar do trabalho é tirar a função soneca do despertador do seu celular.”. Bem mais ilustrativo, certo?

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Ao escrever e, não só na escrita, acontece muito em filmes também, procure evitar se justificar para o leitor, como ocorreu no primeiro caso. Você quebra todo o ritmo e sequencia da história. Uma vez que ele tem ciência de que a Maria está atrasada, toda informação depois disso não servirá de muita coisa. Por isso, largue de mão essa preocupação e chame o leitor para esse rolê que está contando.

Na grande maioria das vezes, menos é mais. E olha, bem mais. Bem mais mesmo. Frases que vão bem a calhar são aquelas mais curtas possíveis. Não se preocupe com a quantidade de linhas num parágrafo.

As vezes uma linha é o necessário, a história fica mais ágil e a sensação de leveza é maior.

Menos é mais.

Verdade.

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Ahhh, e não se esqueça, desapegue dos detalhes e dis excessos. É sério. Imagine limpando seu quarto a cada quinzena. Você sempre vai encontrar algo para se jogar fora. Por isso, antes de apresentar algum adorno ou descrever algo, se isso não estiver ligado necessariamente com a história para que o leitor possa compreender, pense duas vezes nessa necessidade e, se por um instante achar que foi algo a mais, esqueça isso e jogue fora.

Não precisa descrever cenários, personagens ou contextualizar a cena. Deixe essa parte para o leitor, faça com que ele caminhe do seu lado, e não atrás de você. Dê a ele o poder do julgamento.

Temos, também, as cenas de transição. Olha, joga isso fora também e, antes que me pergunte por que, estamos falando de escrita minimalista, certo? Menos é sempre mais.

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Não que essas cenas não devam ocorrer, mas sempre procure perguntar a si mesmo a importância de escrever como foi o trajeto do personagem de sua casa ao trabalho sendo que o foco seria o trabalho? Pula essa parte no próximo capitulo ou no próximo parágrafo. Casa e trabalho. Pronto, acabou. Não precisa se preocupar em dizer como ele foi, pula para cena seguinte, como em esquetes de seriados.

Meu professor, Chuck Palahniuk, disse que seu professor (olha a fofoca) lhe contou que uma boa história deveria ter, no máximo, sete ou oito páginas e ele tratou de transformar isso numa regra. Não é a primeira regra do Clube da Luta, mas é uma regra. E tomei para mim.

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Mas há um macete para esses capítulos tão curtos. Faça de cada capítulo uma história fechada, um mini conto, de modo que o leitor consiga entender que há um começo, meio e fim nesse capítulo, sem precisar de dois ou três para entender a mensagem que você quer passar.

Assim, seu produto final se torna um grande mosaico de contos fechados que, juntos, se transformam numa história maior.

Talvez seja pela sua semelhança com a realidade e pelo paradoxo de algo tão minimalista se parecer com algo tão complexo, que esse tipo de escrita me fascina. Está tudo lá e, de certa forma, aqui também. Ou por aí, ou na primeira esquina que cruzar ou caminhada que fizer.

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Lembre-se, menos é mais, surpreenda os outros pelas suas atitudes, faça com que participem de sua história ao invés de tentar justifica-la. Dê a mão ao e ande ao lado das pessoas ao invés de puxá-las. Feche cada capítulo com uma história.

Começo.

Meio.

E fim.

E faça isso no próximo. E no próximo. E no próximo. Até você ver que seu mosaico está se formando até algo maior.

Posso estar falando da escrita ou da nossa vivência.

Aí que está a beleza da coisa.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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