toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

A rua é nóis!

Ele rima para quem veio de onde veio. São para aquelas pessoas que a sua voz entoa e elas sabem muito bem disso. Compreendem cada verso cheio de intimidade que as gírias trazem. De uma maneira ou outra eles sentem que estão sendo representados e por isso não são somente a sua plateia. Eles compartilham o palco.


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Uma das características que mais me marcaram com as músicas do Charlie Brown Jr era em como as suas letras eram compostas de uma maneira tão particular. De um jeito falado, repleto de gírias, com o escritório na praia e sempre na área, você saberia muito bem diferenciar uma letra que o Chorão compunha com a de qualquer outro artista. Tinha uma assinatura dele.

“Eles querem que alguém que vem de onde nois vem seja mais humilde, baixa a cabeça, nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda. Eu quero é que eles se...! Nunca deu nada pra nois, nunca lembrou de nois”

Por que me refiro ao Chorão nessa história de rap? Porque foi a exata maneira que encontrei oara definir como Emicida conta a sua história para a gente. Ele é seu mano, parceiro, truta, brother. Aquele carinha da rua debaixo da sua que te encontra todas as vezes que jogam bola. Emicida é rueiro e das ruas vem a sua assinatura, afinal de contas, já dizia o mesmo, a rua é nóiz.

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“Quem costuma vir de onde eu sou, às vezes não tem motivos pra seguir. Então levanta e anda, vai, levanta e anda”

E é de lá, dos pés descalços, do peito sem camisa por conta do calor, dos chinelos nas mãos para correr mais rápido do que a molecada. Das letras nos intervalos de aula, daquele garoto miúdo que, introvertido do jeito que foi, mal sabia que cantaria para milhões.

Da introversão veio os versos da sua melodia. As rinhas de rap que o digam. Porque todo mundo tem que começar por um começo, não é mesmo? Quem era o mano Emicida na fila da rinha lá na São Bento? Hoje sabemos quem é. Por isso é muito importante termos a consciência de quem foi.

“Nossas mãos se encaixam certo, peço um anjo que me acompanhe. Em tudo eu via a voz de minha mãe, em tudo eu via nóis. A sós nesse mundo incerto, peço um anjo que me acompanhe. Em tudo eu via a voz de minha mãe, em tudo eu via nóis”

A rua ensinou, foi o trilho na vida do magricela. Mas a Dona Jacira foi o seu trem. Pelo menos a responsável por toda a mecânica e arquitetura, de modo que garantisse que seu garoto seguisse, ao seu tempo, o trilho por ele escolhido.

Então Emicida vem do jeito dele. Rimando da maneira em que vive. Ele rima para quem veio de onde veio. São para aquelas pessoas que a sua voz entoa e elas sabem muito bem disso. Compreendem cada verso cheio de intimidade que as gírias trazem. De uma maneira ou outra eles sentem que estão sendo representados e por isso não são somente a sua plateia.

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Eles compartilham o palco.

“As pessoas são como palavras, só tem sentido de junto das outras. Foi sono, foi rima, hoje é fato pra palco. Eu e você juntos somos nóis. Nóis que ninguém desata. A rua é nóis!”

Todos fazem parte do palco e é isso que Emicida nos traz e nos empurra pra frente. Afinal de contas, tem um carinha que veio aqui do Jaçanã e deu certo batalhando. E quanto a nós, porque não?


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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