toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Aceite e se adapte

Era só seguir direitinho o que estava no livro. Porém, assim que o filme terminou, eu fiquei meio “méh...poderia ter sido diferente”. A sensação é agridoce. Sabe aquele gostei mas não gostei? E eu me perguntava o porque disso, mesmo sabendo que se tratava de uma adaptação e todas as outras coisas. Foi quando eu percebi que, na verdade, o errado nessa história sou eu.


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Hoje, mais do que nunca, com um pouco mais de apelo, vimos uma leva de produções cinematográficas baseadas em livros e quadrinhos. Obviamente, com uma boa ênfase na segunda opção.

Daí você procura ler o livro ANTES dos filme ou simplesmente lê porque, em algum momento da sua vida aquele livro te chamou atenção na estante da loja e, ao assistir o filme que basearam a sua história, você olha para os lados com uma cara de “méh...poderia ter sido um pouco diferente” ou, na pior das hipóteses, “eles mudaram todo o livro”.

Tá, te entendo. Te entendo mesmo. Porque isso aconteceu muito comigo e custou para entender, por mais simples que seja. Filmes baseados em livros não foram feitos para o público do livro.

Doeu, certo? E ainda com um “q” de injustiça. Oras, como é que pode, um filme inteiro feito por conta do livro não ser voltado para os leitores? Mas que infernos de apropriação é essa?

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Então, meu caro, é o seguinte. A diferença essencial, e que faz com que tenhamos algumas adaptações na história (seja recorte, adições ou até mesmo mudanças) é a simples questão do público que se conversa.

E isso faz uma puta diferença.

Ainda mais em termos narrativo, se levarmos em conta a questão do ritmo e em como o filme tem que se virar para introduzir um personagem, cena ou contexto dentro de uma película de 120 minutos sem cansar o espectador e/ou parecer confuso demais.

Nada melhor do que usar como exemplo aquele livro e filme que me fez pensar nisso. Não que nada do que foi dito, até agora, seja algo espetacular e que a gente nunca houvesse parado para pensar. Na verdade, foi aquele filme que parei e pensei “bem, compreendo, de verdade mesmo”.

Bora falar um pouquinho sobre O Lado Bom da Vida.

Sem mais delongas, a sinopse do livro:

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“Pat Peoples, um ex-professor de história na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele “lugar ruim”, Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um 'tempo separados'.

Tentando recompor o quebra-cabeças de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com seu pai se recusando a falar com ele, sua esposa negando-se a aceitar revê-lo e seus amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora um viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida.

À medida que seu passado aos poucos ressurge em sua memória, Pat começa a entender que 'é melhor ser gentil que ter razão' e faz dessa convicção sua meta. Tendo a seu lado o excêntrico (mas competente) psiquiatra Dr. Patel e Tiffany, a irmã viúva de seu melhor amigo, Pat descobrirá que nem todos os finais são felizes, mas que sempre vale a pena tentar mais uma vez. Um livro comovente sobre um homem que acredita na felicidade, no amor e na esperança.”

Um dos pontos que mais enalteço no livro do Mattew Quick é em como ele oferece uma dinâmica à rotina do Pat, que, num primeiro instante, parece ser metodicamente repetitiva, mas, com a narrativa, torna-se algo diferente, dia após dia. O autor nos fornece os olhos de Pat e entendemos todos os seus questionamentos e como cada dia, para o protagonista, era um dia diferente.

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Dito isso, sabia que existia um filme e, porque não assisti-lo, não é mesmo? A empolgação não poderia ser maior, Jennifer Lawrence (vencedora do Oscar justamente com a personagem desse filme), Bradley Cooper, Robert de Niro, Chris Tucker!

Não havia como errar. Não havia mesmo. Era só seguir direitinho o que estava no livro. Porém, assim que o filme terminou, eu fiquei meio “méh...poderia ter sido diferente”.

A sensação é agridoce.

Sabe aquele gostei mas não gostei? E eu me perguntava o porque disso, mesmo sabendo que se tratava de uma adaptação e todas as outras coisas. Foi quando eu percebi que, na verdade, o errado nessa história sou eu.

Sim, meu caro e minha cara, somos culpados. Claro que isso não isenta o filme de ser bom ou ruim dentro daquilo que se propõe. Mas não podemos pautar seus erros e acertos de acordo com o livro, por mais que ele tenha bebido da fonte por lá. Até mesmo pelo simples raciocínio que devemos seguir: o público do cinema é o público do cinema. Nem mais nem menos inteligente ou interessante.

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Um público que vai pra assistir ao filme sem o conhecimento prévio dos fatos, porque é disso que se trata a adaptação: o cinema apresenta uma história para o seu público e nada além disso. Ela está lá, do zero, sendo desenvolvido de acordo com os moldes da película, com diversas tomadas de decisões para aumentar ou diminuir o ritmo, para comprimir ou estender uma subtrama mas, principalmente, para que o público do cinema consiga compreender a história, julgando seus valores como faz com qualquer outro filme.

Então eu volto a ver o Lado Bom da Vida (desculpe o trocadilho) sem aquelas amarras do tipo “hmmm não estava no livro”, “isso não está certo”, “faltou desenvolver mais” e, não é que o filme é tudo isso mesmo, que fez com que a Jennifer Lawrence fosse merecedora do Oscar?

Parece um exercício de compreensão muito besta, até mesmo meio bobo, mas, o quanto mais cedo a gente encarar uma adaptação como uma adaptação de fato, menos dor de cabeça e mais divertimento teremos, não é mesmo?

Afinal de contas, a a história completa eu já tenho nos livros.

Se me derem licença, vou ver se assisto ao Senhor dos Anéis, já que nunca li nenhum livro do Tolkien.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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