toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Criolo e o rabisco direto na alma

Ele rabisca direto do coração, à sua maneira, porque o Criolo tem o dom de fazer da música uma conversa, entendendo como é a nossa correria de todo o santo dia.


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Sentado numa calçada, com aquele tempo característico da cidade de São Paulo, jogando dominó de uma maneira muito simples, de barba malfeita e uma jaqueta do Corinthians. Essa pessoa conversa com você sobre as coisas mais fantásticas e simples da vida ao seu jeito. Calmo, manso e, mesmo em tempos de revolta com o descaso do dia a dia, o rosto permanece sereno.

Criolo é simples.

“E aliás, cá pra nós, até o mais desandado dá um tempo na função, quando percebe que é amado. E as pessoas se olham e não se falam, se esbarram na rua e se maltratam. Usam a desculpa de que nem Cristo agradou. Falô! Cê vai querer mesmo se comparar com o Senhor? As pessoas não são más, mano, elas só estão perdidas. Ainda há tempo."

Lembre como a maioria de nós o conhecemos. Ele estava ali, numa padaria, com o cabelo raspado e a barba feita e, de súbito, pediu para um amigo ligar a câmera porque sentia que “um verso estava vindo”. Logo descobrimos a versão das ruas para Cálice, do Chico Buarque.

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É ele por natureza. Antigamente Criolo Doido, mas que serenou e se tornou apenas Criolo, por vocação de oferecer algo a mais, mesmo quando se convenceu de que não haveria mais o que contribuir para o rap na sua quebrada.

Portas se fecham para que outras portas possam se abrir e tivemos a sorte desse rapaz realizar esses dois movimentos. Fechou e abriu a porta.

Por ele e por nós.

Não espere dele uma linguagem rebuscada, com vocábulos extensos e seguindo todos os padrões da normal culta da língua portuguesa em cada verso. Ele rabisca direto do coração, à sua maneira, porque o Criolo tem o dom de fazer da música uma conversa, entendendo como é a nossa correria de todo o santo dia.

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“Às 4 da manhã ele acordou, tomou café sem pão e foi a rua, pôr o bloco pra desfilar. Atravessou o morro e, do outro lado da nação, ficou com medo ao ver que seu bloco talvez não pudesse agradar. As contas a pagar, fila pra pegar, senha pra rasgar, fantasia...”

Escutar suas músicas é a mesma coisa que conversar com alguém que, em qualquer lugar, enquanto as pessoas transitam, indo e vindo de quaisquer lugares que sejam, e os carros partem, cada vez mais numerosos, de todos os cantos para todos os cantos, vai te contar tudo aquilo que precisava ouvir, da maneira que precisava ouvir.

E ele vai falar tudo, como num bom papo. Falará como sofre, como há de se ter fé que dê tudo certo no final das contas, falará sobre o trabalho, sobre a correria, o amadurecimento, a falta de amor e a esperança de que é questão de tempo para nos reencontrarmos (deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar, não é mesmo?)

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“Eu não quero viver assim, mastigar desilusão. Este abismo social requer atenção. Foco, força e fé, já falou meu irmão, meninos mimados não podem reger a nação.”

Ele transita do rap para o samba, os dois ritmos musicais que mais acompanham nossa brasilidade e batalha diária, dizendo que o que diferencia os seus versos é o ritmo do pandeiro e cavaquinho ou do dj e beatbox.

Criolo é simples. E o simples é oposto do fácil. Porque é difícil rabiscar em cheio o coração, a mente e a alma. E ele faz tudo isso com maestria.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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