toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Didico, o Imperador

Adriano parece ter me ensinado o que deve ser levado dessa vida. De terno ou chinelo, não importa. Seja e se sinta feliz, rodeado daqueles que ama e que te amam. E que Deus perdoe essas pessoas ruins. Vida longa ao Didico, o Imperador.


11.jpg Desde que me conheço por gente, e de tabela como brasileiro, o futebol sempre fez (e faz) parte da minha vida. E quando falo do futebol, não me limito a “vinte dois homens correndo atrás de uma bola”. É algo maior que isso. Na verdade, o jogo em si é só um detalhe daquilo tudo que esse esporte representa.

Não é só futebol.

E esse esporte é uma das maiores escolas da vida.

Nas quadras, no campo, areia. Na rua da sua casa. O futebol é o assunto que liga qualquer pessoa em qualquer lugar, em qualquer momento. Mesmo que a outra fale que não goste, o assunto foi puxado.

É na rua, com os pés descalços e o sol forte que você faz amizades com todas aquelas crianças. Lá na rua, todos são iguais. Independentemente da cor e do credo, o mais importante são os pés. Pequeno, grande, médio. Não importa. Você sabe que todo dia estará em um time diferente e aceitar a todos que esteja do seu lado, desde o ruim de bola até aquele que você sabe que se daria muito bem nos gramados dos times profissionais.

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O futebol te proporciona o primeiro sonho de infância. Com a bola maior que seu tronco, garoto ainda, com o uniforme dado como presente pelos seus pais, você se permite sonhar que, daqui a quantos anos forem necessários, será um jogador de futebol.

Esse esporte une as famílias e faz o assunto render no almoço de domingo. É a língua universal. Jogue uma partida com alguém do outro lado do planeta e ambos estarão se entendendo melhor do que nunca, sem precisar falar uma palavra se quer.

Role uma bola para qualquer pessoa do mundo e ela te devolverá chutando, da maneira mais singela que o futebol permite.

Ele te ensina a perder. A entender que a vida não é tão fácil como parece e, mesmo assim, a gente tem que seguir em frente. Há algo mágico na cumplicidade do olhar de uma derrota. Você olha para o torcedor ao seu lado e ele te compreende como nenhum psicólogo faria de maneira tão rápida. Por noventa minutos, vocês passam a se conhecer como se fosse a anos e cada um entende o que está acontecendo. A semana foi difícil, eu sei, e nosso time não ajudou. Quem sabe na semana que vem?

E em meio a toda essa escola que insiste em me ensinar cada vez mais a cada dia que passa, me pego aprendendo, tardiamente, confesso, sobre o que é felicidade. O que é se sentir bem ao lado de quem você ama.

“Futebol não se aprende na escola, é por isso que o brazuca é bom de bola”

Simples assim.

Por isso me permito uma introdução um pouco mais longa para pedir desculpas ao Adriano. Me desculpe Imperador. Espero que o Didico releve o tempo que demorei para entende-lo.

Adriano se tornou tudo aquilo que todo o moleque sonha em ser. Desceu da Vila Cruzeiro para jogar no Flamengo e de lá foi para a Itália, a bela Itália, país da moda, para jogar em um time com uma das mais belas camisas do mundo, Inter de Milão. E lá, Didico, Adriano, se tornou Imperador.

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Com uma canhota diferenciada, era referenciado por todo o país. Um animal selvagem em seu mais puro estado, dizia Ibraimovich. Dinheiro, carros, roupas de marca, estabilidade para toda a família e decidindo jogos e mais jogos pela seleção brasileira, o nosso “próximo Ronaldo”, o herdeiro da “camisa nove”.

Então acontece um ponto de virada. Algo que nenhum de nós planeja. O falecimento do seu pai faz com que o Imperador voltasse a ser Didico. Dali não tinha mais nenhuma pompa de atleta, ídolo, um homem bem sucedido. Adriano voltou a ser Didico porque foi nesse momento que ele, sem chão, precisava se reencontrar.

Adriano deixou a coroa de Imperador em Milão para voltar a calçar os chinelos da Vila Cruzeiro.

“Saudosa maloca, maloca querida. Dim-dim donde nós passemos os dias feliz de nossa vida. Saudosa maloca, maloca querida Dim-dim donde nós passemos os dias feliz de nossas vidas”

Engraçado que tive dificuldade em entender isso. Como pode jogar sua carreira pro alto? Como pode não se comprometer mais aos treinos, ao seu time, a sua seleção? Porque, Adriano, você voltou para o Rio de Janeiro para nunca mais jogar em alto nível? Porque você fez isso com a gente? Você é um talento raro, bruto, e não poderia ter feito isso com a gente.

E então, porque você fez?

Demorei a entender que ele não fez isso com a gente ou por a gente. Ele fez isso por ele mesmo. Adriano, como Imperador, tinha tudo, exceto uma coisa.

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Era o filho prodígio voltando para a casa.

Por um motivo muito mais nobre do que a gente poderia imaginar.

Quando se encontrou perdido no mundo após a derrota mais dura da sua vida, ele entendeu que o futebol parecia não fazer mais sentido. E, para reencontrar o sentido de tudo aquilo que o levou para a Europa, era necessário voltar para a casa.

Adriano não deu as costas para o que ganhou. O que ele fez foi abraçar a felicidade de frente.

“Estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade. Querendo um sorriso sincero, um abraço, para aliviar meu cansaço e toda essa minha vontade”

Hoje entendo, mais do que nunca, e talvez com um pouco mais de tempo que o necessário que, dentre todas as coisas tangíveis que podemos conquistar em nossa vida, dentre todos os nossos sonhos que ultrapassam Everest de altura, dentre tudo isso, precisamos ter felicidade. E para ter a felicidade, nada mais saudável do que estar com quem você ama.

Já dizia a frase, que a verdadeira felicidade é aquele que é compartilhada, não é mesmo?

Podemos julgar suas amizades, suas escolhas, a sua carreira. Podemos tentar entender como Adriano preferiu voltar a ser Didico a continuar como Imperador. Podemos discutir qual o novo clube que o Adriano pode jogar no ano que vem.

Mas jamais podemos julgar o sorriso do seu rosto.

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E talvez tenha sido isso que o Adriano tenha me ensinado através do futebol e da maneira mais irônica possível.

Ao deixar o futebol de lado, a coisa mais importante dentre as menos importantes, deixar o glamour que conseguiu com todos os méritos, para voltar para a casa e ser feliz com as pessoas que te fazem feliz, Adriano parece ter me ensinado o que deve ser levado dessa vida.

De terno ou chinelo, não importa. Seja e se sinta feliz, rodeado daqueles que ama e que te amam.

Talvez seja pela “renúncia” ao futebol que fez de Adriano, o Imperador. Se não do mundo, da sua própria felicidade.

E que Deus perdoe essas pessoas ruins.

Vida longa ao Didico, o Imperador.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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