toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Ei Zack Snyder, bora trocar uma ideia?

O visual é excelente. Os efeitos especiais, nem se discute. Porém, faltou algo, um pequeno detalhe: entender os personagens da trama. É Zack Snyder, talvez, indiretamente, meu conterrâneo José Padilha tenha feito um Batman v Superman mais plausível e próximo do cânone dos personagens com o Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro. Quer dar uma olhada?


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Bem, não é segredo a ninguém, pelo menos daqueles que me conhecem, que sempre fui mais adepto aos heróis da DC aos da Marvel. Acredito que os heróis da editora são mais icônicos e, suas histórias, mais marcantes. Talvez seja por isso que tenho algumas ressalvas quanto ao seu mais recente filme, Batman v Superman.

Claro que curti de modo geral, afinal de contas, é do Batman E do Superman que estamos falando. Mas não serei ingênuo a dizer que o filme foi mil maravilhas.

Não, não foi. Bem longe disso. Se puxarmos na memória, lembrem-se que a ideia inicial era ser um Man of Steel 2, depois um Man of Steel 2 com uma breve participação do Batman, logo após se tornou o Batman v(s) Superman, para, enfim, na edição para o cinema, termos um Batman com participação do Superman.

batman-v-superman-dawn-of-justice-zack-snyder-henry-cavill.jpg"Então, você é um símbolo de esperança, certo? Então parece o mais desesperançoso possível, eles vão gostar!"

E aí temos dois problemas, que vamos culpar levemente o diretor, seu Zack Snyder.

Primeiro, o cara é fã dos quadrinhos. Ok, até aí também sou. Mas, quando você dá a alguém todos os bonequinhos que ele gosta, a pessoa geralmente quer brincar com todos de uma vez, fazer mil coisas e acaba por não fazer nada. Sonhos dentro de sonhos do Bruce/Batman ou as diversas tramas paralelas como a bala que a Lois Lane investiga, a aceitação pública do Superman, o retorno do Batman a ativa, o plano do Lex Luthor, a Mulher Maravilha.

Muita coisa, muita coisa mesmo para se falar em duas horas e meia de filme. Mas veja bem, o diretor disse que o filme tem quatro horas de duração e conseguiu levar mais meia para o blue ray, ou seja, somos apresentados a um pouco de tudo, mas nada em concreto. E é aí que temos nosso segundo problema.

snyder_nWHUbkY.jpg"Cá entre nós, o filme é sobre você. Só não sei o que fazer até a sua luta com o Superman."

O tempo, timming.

O filme perde muito tempo em apresentar tudo isso e acaba não deixando um tempo para o ápice. Veja bem, normalmente temos uma pequena introdução dos personagens, suas motivações, preparo para o ápice e o ápice, por assim dizer, para chegarmos na conclusão.

Digamos que o filme nos preparou demais para um ápice que teve menor proporção. É como dizem, a expectativa é a mãe da frustração e chegamos ao, de fato, Batman vs Superman cansados de todo aquele chove e não molha.

E o pior é que o diretor não entendeu os dois personagens.

E sabe que parece ter entendido? José Padilha.

Pode tirar o estranhamento do rosto, pois Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro é um Batman v Superman mais BvS do que o próprio Batman v Superman.

364510-970x600-1.jpeg"Seria ele o único diretor possível para essa temática do Batman v Superman?"

Vamos lá que eu explico melhor.

Temos o nosso Coronel Nascimento no papel do herói urbano, aquele que está próximo das pessoas e entende o que acontece no dia a dia, mais do que ninguém. Ele normalmente não segue as regras e tem uma visão particular de justiça, mesmo tendo como foco ajudar a todos.

Do outro lado temos o Fraga, o “cara dos direitos humanos” o “esquerdista” (se acalmem, não estamos falando de política, e sim como o Nascimento se referia a ele) que também se importa com a sociedade e procura solucionar todas as questões com sua visão de justiça, mesmo que para isso tenha que seguir as leis e condutas morais da sociedade que está inserido.

Para completar, o Fraga é casado com a ex do Nascimento. Pronto. Temos um resquício do que estaria pela frente, já com a ligação íntima que ambos possuem (mulher e filho).

Fotos+em+Alta3.jpg"Eis nosso Batman mais realista que o outro Batman. Ou não?"

Com o passar do filme, ambos encaram o mesmo vilão (e não, o Rocha está longe de ser o verdadeiro vilão daqui): a milícia do Rio de Janeiro.

É justamente nessa hora que está a chave do filme e em como o Padilha entendeu o Batman e o Superman com mais clareza que o Zack Snyder: como ambos encaram a justiça.

Enquanto o diretor heroico nos mostrou um Batman próximo da aposentadoria, badass e marca seus inimigos e um Superman amargurado e tentando encontrar seu lugar na Terra, o Padilha nos mostra uma visão mais aproximada sobre os dois.

Nascimento, o nosso Batman, tem uma visão mais linear sobre os problemas a serem resolvidos. É mais prático, metódico e não poupa esforços para alcançar seus objetivos, sem um badass de certa forma.

19951972.jpg"Ele pode não ter o porte do Superman, mas ao menos não possui uma cara de desânimo com toda a situação."

Fraga, o Superman, tem uma visão mais abrangente sobre os problemas a serem resolvidos. Devido a isso, Fraga tenta resolver os problemas de acordo com a ética, moral e lei apresentadas pela sociedade a qual está inserido.

Mas o Nascimento, assim como o Batman, entende que precisa da bússola moral do Fraga, o nosso Superman, para que ele possa alcançar seus objetivos. Assim como o Fraga entende que há ocasiões que a lei não significa justiça, e necessita do peito que somente o Nascimento possui para alcançar seus objetivos.

Ambos se completam.

A cena em que o Nascimento vai até o hospital entregar a gravação das conversas dos traficantes sobre não terem solicitados as armas da UPP para o Fraga e o mesmo ter entendido o que precisa ser feito, demonstra a dinâmica da dupla.

Esse foi o “Salve Marta” do filme. Dessa vez, com o “salve Rafael”, já que o mesmo, que possuí uma ligação íntima com os dois, sofreu um atentado.

tropa-de-elite-2-01-g.jpg"Aqui está toda a ideia do "Save, Martha!" (bem) melhor trabalhado."

Viu como, até mesmo, um “Salve Marta”, se bem elaborado, como foi o “Salve Rafael”, funcionaria e faria muito mais sentido para que o Batman e o Superman se unissem de maneira mais crível, como o filme se propôs a ser, desde o início?

Podemos entender, com o filme Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro que, a baixa repercussão do filme Batman v Superman se deu, não só pela falta de estrutura narrativa do filme, mas sim pela falta de entendimento dos protagonistas, pelo seu diretor.

Talvez, a solução cinematográfica para a DC, não é concorrer com a Marvel, muito longe disso.

Talvez o melhor caminho seja entender os personagens que tem em mãos, respeitando sua história e seu significado, afinal de contas, estamos falando da editora que detém o Superman e o Batman.

O Batman e o Superman, pô!

Como diria uma professora minha, é entender para atender. Talvez se entender para atender.

Simples assim.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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