toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Faça desse drama sua hora

É por essas e outras que uma boa série de comédia é capaz de nos entreter com muito mais facilidade. Além de trazer leveza aos nossos dias tão corridos, ele é capaz de ensinar, aconselhar, mesmo que, para isso, tenha que falar um pouco sério.

Faça desse drama sua hora, mas não deixe de perder o sorriso por causa disso.


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Olha, se tem uma coisa que faz com que eu prefira uma boa série de comédia para maratonar, além dos jargões, gags e improvisos de cena, é a sua capacidade em explorar o tom dramático de seus personagens.

Pare um pouco para observar. É mais fácil, convincente, crível, quando uma série de comédia resolve adotar o drama em qualquer um dos seus episódios do que uma série dramática apostar numa piada ou outra em qualquer episódio.

Talvez isso se deve por vermos uma outra faceta dos nossos protagonistas que, por força do roteiro, passavam (ou passam) imunes as consequências de suas ações. Uma vez que os vemos fora da sua zona de conforto, como se aquela sensação e/ou situação não fizesse parte da sua realidade (algo que, convenhamos, não faz mesmo), nos solidarizamos com essa sua fase.

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Talvez, bem talvez, a gente entende o quão difícil é sair da zona de conforto ou como é complicada, barra, passar por uma má fase.

Dessa maneira, façamos desse drama a nossa hora e, tendo como pano de fundo a série Um Maluco no Pedaço, bora tentar entender, e nos lembrar, das vezes em que os personagens de uma série cômica saíram da sua zona de conforto e como confrontaram isso.

S01E06 "Mistake Identy" – nada melhor do que começar essa lista com um coadjuvante que por muitas vezes e que, assim como seu primo, foi um dos que mais sofreu com as constantes “saídas da zona de conforto”.

Se você não tá ligando o episódio à temporada, não se preocupe, eu te lembro. Os tios do Will vão para a casa de um amigo e, fazendo um acordo, deixam que Carlton e Will sigam depois, levando a Mercedes com eles. Durante o caminho, eles são parados por um policial, sendo acusados de roubarem o carro, afinal de contas, não preciso explicar muito, certo?

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Episódio vai, episódio vem, Carlton se nega a acreditar que foram parados simplesmente por um ato racista. Seu primo não consegue entender como Carlton consegue ser tão inocente. O mesmo, se dirige ao pai e pergunta se é normal alguém ser detido por dirigir devagar. “Foi o que me perguntei a primeira vez que fui parado.”.

Tio Phill se retira logo em seguida, enquanto seu filho ainda refletia todo o choque de realidade que acabara de receber.

S04E08 “Blood Is Thicker Than Mud” – deixa eu refrescar a cabeça de vocês antes de começarmos essa. Will e Carlton participam de uma república assim que entram para a faculdade. Um dos líderes de lá trata os dois de maneira diferente, devido a origem de cada um. Por compartilhar a mesma origem pobre de Will, o cara desdenha de Carlton, por acreditar que o mesmo “não passa pelo que ele passa”.

Daí temos nosso jovem coadjuvante deixando de lado sua faceta abobada e mostrando que esse tipo de discurso era ouvido muito pela sua família.

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Entendemos, com o diálogo do Carlton que, apesar das diferenças de classes sociais, ambos não deixavam de ser negros, o que faz com que ambos ainda passem pelos mesmos tipos de problemas.

S04E24 “Papa’s Got a Brand New Escuse” – não poderíamos deixar de fora o que, em minha opinião, é um dos, senão o episódio mais forte dramaticamente de toda a série. Finalmente o pai do Will decide entrar em sua vida. Gosto especialmente desse episódio por demonstrar o quanto tio Phill toma para si o papel de pai, mesmo que, para isso, tenha que brigar com o sobrinho e tomar para si o papel de “vilão”, uma vez que tenta preservar seu sobrinho do pai que resolveu voltar. No final do episódio temos uma sutil homenagem a relação entre Will e Phill com o presente que o primeiro havia comprado a seu pai, ou melhor, ao Lou.

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Entendemos as perspectivas de vida do Will e o porque dele tentar ser independente em todas as suas ações, assim como entendemos o duro processo que Phill passa em criar o sobrinho como se fosse seu filho.

Talvez aqui cabe a máxima “pai/mãe é quem cria”.

S05E15 “Bullets Over Bel-Air” – nesse episódio temos, definitivamente, a quebra do espelho da ilusão de Carlton Banks e da carecterística de irmão mais velho desenvolvida pelo Will.

Quando os dois vão sacar dinheiro num caixa eletrônico, acabam sendo assaltados e, logo em seguida, Will leva um tiro protegendo seu primo.

Há de se destacar o afrontamento entre Phill e Carlton, onde o segundo, pela primeira vez na vida, se mostra descrente de tudo aquilo que entendeu como “justiça e caminho certo a se seguir”.

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Não há como não destacar a última cena, em que Will percebe que Carlton está armado e implora para que o mesmo deixe a arma com ele.

O choro do Will ao final da cena é marcante. Podemos interpretar como uma descarga emocional que o mesmo ainda carrega após o assalto, o medo de ter corrido o risco de ficar paraplégico, a raiva que nutre pelo a assaltante e, o mais importante de tudo, o medo e perder o irmão mais novo para a violência presente no mundo.

S06E24 “I, Done: Parte 2” – season finale de toda a série. Com os filhos crescendo e tomando seu rumo, a família Banks não vê mais a necessidade de morarem numa mansão, dessa forma, cada um vai para um canto. Hillary com a Ashley e Geoffrey, Phillip e Vivia e os primos Will e Carlton.

As duas partes do episódio “I, Done” mostra a tentativa do Will de mostrar seu valor à família, mesmo que, para isso, tenha que mentir.

Claro que no final tudo dá certo, mas escolhi esse episódio justamente pela sutileza na despedida entre Will e seu tio Phill.

Will diz que entrou para essa família como um parente distante e hoje ele se sente parte de uma família que nunca teve, tendo irmão e irmãs.

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Ele pede que, quando todos tiverem separados e o tio Phill resolver ligar para os filhos num domingo, não se esquecer dele. Seu tio afirma que ele é seu filho também.

Cortando para a última cena, amos se abraçam e, ao final, Phill, despede-se dizendo “domingo”. As vezes somos ganhos mais pelas sutilezas das ações do que pelas declarações exacerbadas.

É por essas e outras que uma boa série de comédia é capaz de nos entreter com muito mais facilidade. Além de trazer leveza aos nossos dias tão corridos, ele é capaz de ensinar, aconselhar, mesmo que, para isso, tenha que falar um pouco sério.

Faça desse drama sua hora, mas não deixe de perder o sorriso por causa disso.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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