toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Não fale, mostre

Narrar o que fará, causa expectativa ou, em alguns casos, não faz a pessoa esperar nada além do que disse. Portanto, se falou, que se faça bem feito. Caso contrário, escolha por mostrar o que pode fazendo.Tenho certeza que impressionará muito mais.


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Não fale, mostre. Para mostrar tudo isso, bora falar um pouco sobre o diretor Edgar Wright.

Lembro como se fosse ontem, quando ia para locadora de sábado, ficar por lá uma hora vendo as sinopses em todas as capinhas do dvd, até escolher o filme que você bateu o olho sem mais nem menos (ahhh o ritual da locadora, como faz falta nessa era de streaming, mas esse é um outro papo para uma outra hora). E, daqueles filmes que a gente pega por bater o olho, lembrando que na época a internet não era tão internet assim e, baseado em absolutamente nada, fui lá e aluguei o filme Todo Mundo Quase Morto (Shaun of Dead, não me pergunte pela tradução), do diretor Edgar Wright.

Todo Mundo Quase Morto.jpg"Está tudo ali. As estrelas, os extras dos DVD e aquela capa que chama atenção. Volta locadora, volta!"

Cara, como esse diretor é fantástico.

E muito disso porque ele não fala, ele mostra.

Então você tem o protagonista andando num plano aberto para o mercado, onde tudo parecia normal. Ou pegando um ônibus para o trabalho. E indo para o mesmo bar, nos mesmos finais de semana, com a mesma turma, fazendo as mesmas coisas. Até que um dia, por um motivo que não é importante saber, ele vai para o mercado, com a mesma “empolgação” de sempre, num plano aberto, onde todos a sua volta são zumbis!

tumblr_n6wz96chSr1tdm58lo3_1280.png"Sei que parece, mas nessa parte do filme, ninguém ainda foi infectado"

Todo Mundo Quase Morto é uma versão dele para os filmes de zumbis. Mas, mais do que isso, sua crítica se dá pelo vício do nosso hábito, nos dizendo que, no fundo, no fundo, praticamente não há diferença alguma entre a gente como somos e como seríamos em nossa versão zumbi.

Claro, tirando a parte de sobrevivermos através de órgãos humanos, mas isso é um detalhe.

Mas veja bem, ele não fala, ele mostra.

shaunofthedead.jpg"Pois bem...como explico que o protagonista é preso numa rotina?Faço alguém falar isso na cara dele ou crio um apocalipse zumbi pra mostrar que nem numa mancha de sangue por um ataque de zumbi ele repara, de tão desligado que é?"

Algo que me desanima é a questão de o filme querer ser “explicadinho” demais, como se duvidasse do nosso entendimento. Nos oferecer a janta, contar o bife em picadinho e nos dar na boca. São aqueles personagens que dizem o que estão sentindo, mas não mostram isso, como se tudo fosse um monólogo. Ou se mostra, do que adianta se a gente já passa a saber de antemão? Onde ficaria nossa expectativa. É como se o filme se preocupasse mais em justificar tudo o que faz para a gente ao invés de simplesmente fazer o que tem que ser feito..

Continuando no mesmo filme (que recomendo muito que assistam!), a gente saca qual é a mensagem que o diretor quer passar. Mesmice, mesmice e mesmice. Ao final de tudo, quando em meio a guerra pela sobrevivência, quando tudo termina bem, as coisas voltam a ser exatamente como era antes.

shaun-and-ed-end-shaun-of-the-dead.png" Nada melhor que uma partida de FIFA com seu melhor amigo, certo?"

Ele não precisa nos dizer em algum monólogo (ou com um robô te explicando tudo, num certo filme estelar) como o homem, hoje, com seu marasmo, não se difere em nada com um zumbi. Ele simplesmente retorna ao ponto inicial do filme. O homem trata tudo o que houve como uma infecção, domestica dos infectados e tudo acontece como sempre aconteceu.

A pouca evolução do personagem ao final do filme nos passa o recado que dá para mudar. É difícil vencer a infecção e não ser mordido, mas que tudo vale a pena. Da para mudar sim.

O que quero dizer, até esse momento, e veja bem, a chave está em fazer. E nunca em falar.

juLjMwU.jpg"Imagem autoexplicativa de como ficamos felizes quando a gente mostra mais do que fala"

Narrar o que fará, causa expectativa ou, em alguns casos, não faz a pessoa esperar nada além do que disse. Portanto, se falou, que se faça bem feito.

Caso contrário, escolha por mostrar o que pode fazendo.

Tenho certeza que impressionará muito mais.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
Saiba como escrever na obvious.
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