toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Vamos falar sobre o Rony Weasley?

Rony Weasley pode não ser o mais inteligente da turma, ou quem lideraria a Armada de Dumbledore, nem o mais perito no quesito magia. Perae, pensando bem, o que de efetivo o personagem fez para contribuir com a derrota do Voldemort, ou melhor, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado? E o que fez com que Harry Potter o considerasse de vital importância?


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Vamos falar sobre o Rony Weasley.

Desde o primeiro livro (e/ou filme, como queira, por mais que eu queira que experimente a sensação de uma boa leitura), a autora define bem o papel dos nossos três bruxos principais:

Harry Potter é O Escolhido, O Eleito, O Menino que Sobreviveu, a liderança e a esperança natural de toda a comunidade bruxa. Ele nasceu predestinado, e a previsão só veio a se cumprir a cada livro passado, que o diga o time de Quadribol da Grifinória que, tendo ele como apanhador, permaneceu invito por toda a estadia de Harry em Hogwarts. Em resumo e sem mais delongas, ele é o cara.

Hermione Granger é a melhor bruxa entre os três, a mais talentosa, a mais inteligente, aquela sangue-ruim que tem que ser duas vezes melhor do que todos por não ser agraciada com uma arvore genealógica que, com o passar do tempo, pouco nos interessam aqueles que foram, quando se faz necessário entender quem somos para saber como seremos. Ela tem como importante papel ser a voz da razão de Harry, por mais implicante que ela possa parecer.

Rony Weasley é o fiel escudeiro, não à toa o fiel segredo e, principalmente, responsável por todo o pilar emocional que nosso protagonista tem ao perceber que, pela primeira vez, possuía uma família que o amasse de verdade (lembrando que o amor tem papel fundamental na vida d’O Menino que Sobreviveu).

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Bem, até aqui estamos mais ou menos contextualizados, certo?

Dito isso, venho por meio desta lhe fazer a seguinte pergunta: tirando o xadrez bruxo, qual foi a ajuda efetiva que Rony Weasley deu ao trio para vencerem Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado?

É sério, force um pouco a memória. Sei que vai me falar das Horcrux lá do sétimo livro ou filme, mas cá entre nós, do primeiro ao sétimo é um bom intervalo de tempo, não é mesmo?

Temos os Gêmeos Weasley, ou melhor, as Gemialidades Weasley que, notoriamente, desenvolvem-se num arco à parte, com uma interessante observação sobre o quão academicamente necessitamos em sermos bons para prosperarmos. Vejam só, em pouco mais de dois anos, a loja de logros dos gêmeos comprou uma filial em Hogsmade. E tudo isso com um começo brilhante, num ato de rebeldia frente a autoritária diretora cara de sapo.

Diacho, a Gina ganha certo protagonismo na Câmara Secreta e cresce na medida que seu papel de coadjuvante lhe permite, fulminando num papel mais do que importante no Enigma do Príncipe, como o caso amoroso do Harry Potter (sim, vamos esquecer em como a J.K nos enrolou durante TRÊS livros os flertes entre Harry e Cho para terminar de uma maneira meio que...meio que...poderia ter sido melhor trabalhado, certo?).

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Bem, como apresentamos lá em cima, Rony funciona como o pilar emocional do nosso protagonista, tanto na questão de fraternidade e companheirismo, como no sentido de família, com o significado da palavra propriamente dita.

Porém, tenho a leve impressão de que fora tomado para Rony o papel do “esforçado”, aquele que não é nem de longe alguém talentoso, mas que se esforça o máximo dentro das suas limitações.

Algo que, na maioria das vezes, não vejo acontecer com tanta convicção. E não me venha falar sobre como Gilderoy Lockhart foi derrotado lá na Câmara Secreta, porque ele perdeu sozinho com aquela varinha quebrada. Olha, até nisso o Rony tem azar barra sorte.

Por contrapartida, temos um personagem que absorve bem essa ideia de “o esforçado que supera todos os seus limites”, ou vai me dizer que também não se surpreendeu com a espantosa evolução de Neville Longboton? Foi o segundo melhor aluno da Armada de Dumbledore (Hermione manda abraços) e não causa nenhuma saudade na serpente Nagini.

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Ainda por cima de tudo isso, somos “presenteados” por um personagem que passa, a grande maioria do tempo, resmungando e tretando com todo mundo. No prisioneiro de Azkaban com Harry Potter, no Enigma do Príncipe, com Hermione. Birrento, reclamão e um pouco negativo com tudo. A gente acaba até criando um asco e percebendo que temos que gostar muito dele para mantermos ao nosso lado.

Mas calma lá, antes de me xingar e dizer que nada disso faz sentido e de que apenas estou apontando a parte negativa de tudo, deixa eu tirar meu corpo fora e dizer que a grande culpada de tudo isso é a própria JK Rowling.

Explico.

Nos primeiros livros, ainda mais os dois primeiros (parecidíssimos, por sinal), a gente não sente tanto a diferença de personalidade dos personagens. Talvez um Harry maravilhado com o novo, um Rony inseguro e uma Hermione um pouco arrogante. Mas tudo isso bem de leve. Pra falar a verdade, somente Harry e Dumbledore pareciam ter suas “vozes” e personalidades definidas em relação aos demais.

E é aí que mora o problema.

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Veja bem, com o passar do tempo, temos o desenvolvimento da personalidade de todos. Cada um com a sua “voz” e cada qual com sua notável habilidade, como por exemplo, Hermione sendo excepcionalmente boa em tudo, mas admitindo que Harry é o melhor de todos em relação a Defesa Contra Artes das Trevas, tanto em talento quanto em experiência.

A gente acompanha o crescimento, literalmente falando do trio e vemos no Rony um rapaz cuja característica principal, ser alguém assustado, inseguro, pessimista (não confunda pessimismo com realismo, por favor). Note, não falei que ele não é um bom bruxo como o Neville não era desde o começo. Rony sempre agiu com um pé atrás, com receio.

Características que só funcionam bem no primeiro filme/livro, com ele superando suas “características naturais” para se sacrificar no momento seguinte no xadrez de bruxo.

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Talvez, bem talvez, essa característica, de alguém assustado e constantemente receoso, é o que dá a tônica do personagem. Se contrapor a isso e ir de cabeça para os perigos eminentes (não podemos esquecer que em todo santo livro alguém do trio quase morre) deve ser a maior virtude de Rony.

Por esse ponto de vista, podemos entender que a sua parcela efetiva para que o trio pudesse ter vencido Você-Sabe-Quem se dá mais pela sua presença como alguém disposto a ficar na linha de frente, mesmo que todos os seus sentidos gritassem o contrário e que, à sua maneira, dentro das suas limitações, faria o máximo possível.

Agora, se eu escalaria no meu time, mesmo sabendo que ele não pode ser tão bom assim?

Sim, escalaria. Pode não ser o melhor tecnicamente, talvez seja um bruxo bem mediano, mas tem seu valor. E pessoas que possuem valores estão cada vez mais difíceis de se encontrarem.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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