toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Você ainda vai para o cinema?

Não é sobre consumir o máximo de conteúdo porque é assim que nos comportamos hoje. É sobre aproveitar cada momento, desde que se levanta da cama até a hora em que os créditos subirem na tela. Ver um filme nunca se limitou a, somente, ver um filme.


watching-tv.jpg.662x0_q70_crop-scale.jpg O streaming vai acabar com a experiência do cinema?

Não poderia haver melhor resposta do que o bom e velho depende. E esse depende está muito ligado com o que você considera como experiência.

Veja meu caso.

Com uma boa memória afetiva que, creio eu, a maioria de vocês também partilham, partia todos os sábados, com meu pai, à uma locadora para alugar dois, três DVDs. Aos sábados porque a gente pegava aquela mamata de devolver só na segunda-feira, nos dando um dia a mais para assistir aos nossos filmes. O que fazia da locadora, precisamente nesse dia, um lugar bem concorrido.

A gente passava horas na locadora, vendo toso os gêneros, tocando em todas as caixinhas de DVDs, lendo as sinopses, babando pelas capas, pedindo sugestões para o dono para, enfim, voltarmos para a casa. E outra. A gente via todos os filmes numa tacada só!

Percebam que assistir ao filme sempre foi o objetivo, mas não se restringia somente a ele. O que contava muito era a experiência de sair de casa com seu pai, andarem até a locadora e se deliciarem com todas aquelas opções, enquanto batiam um bom papo.

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E é nesse ponto que quero chegar. O que a gente enxerga, necessariamente, como experiência?

Um paralelo interessante é como encaramos os jogos de vídeo games dos anos noventa e dos anos dois mil.

Antes, até por conta da limitação tecnológica, as memórias daqueles cartuchos eram mais curtas. Logo, os mesmos tinham que ser mais desafiadores, difíceis, para que a “fita rendesse”. Então tínhamos jogos relativamente curtos, lineares e que compensava com uma jogabilidade elevada, nos proporcionando o desafio como experiência dentro desse contexto.

Já nos anos 2000, ainda mais nos dias de hoje, com a mídia blue-ray, temos uma capacidade gráfica e de armazenamento muito (mas muito mesmo) superior. Assim, com uma vasta gama a se explorar, sugere-se um novo cenário: a aposta na máxima interação do jogador para com o cenário. Não é mais interessante ao jogador hardcore, aquele que curte ser desafiado. O que vale, nesse cenário, é o jogador casual, aquele que se sente particularmente desafiado a explorar todo o mapa e o que o jogo tem a oferecer.

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Percebe que, com o avanço tecnológico, no caso dos jogos, a experiência de se encarar um jogo mudou?

Caso queira estender um pouco mais esse exemplo, podemos explorar a relação livros vs livros digitais. Por mais que a segunda opção pareça (e de fato, é) mais atrativa em termos financeiro e de organização física (só imagine o quanto de quarto ou sala vai sobrar sem aquela estante gigantesca de livros), porque será que, ainda, os livros digitais não vieram para ficar?

Talvez porque eles não nos forneçam aquele cheiro de livro novo ou os rabiscos que fazemos nas páginas ou, até mesmo, o simples passar de folha. Além das mais belas capas em alto relevo que, por meio digital, não teria o mesmo efeito visual.

Vejam como a questão de experimentação de um processo conta muito. Por mais barato (ou caro) que estejam, a pergunta que fica é: o quão satisfeito você fica ao passar por todo esse processo?

É interessante observar, nesse papo, como o comportamento muda de geração a geração.

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Vamos para as baladas.

Elas sempre foram um atrativo, não só pelo fato de passar a noite fora, mas por ser um marco em nossa vida. A nossa primeira vez fora de casa. Talvez a primeira vez de um porre ou um cigarro. A ideia em si não se continha somente à balada, mas no que significava ir para a balada.

Hoje, com a vasta gama de informações que temos (principalmente em questões relativas à saúde), somada à onda de violência que nos assola cada vez mais, tal experiência não se torna tão sedutora assim.

Com isso, a nova geração prefere passar a tarde, e parte da noite, em seus programas de entretenimento, porém, com a ideia de dormir em casa.

Óbvio que não estou generalizando e que há uma boa parcela que, ainda sim, prefira as baladas por x motivos que não sejam necessariamente os que citei, mas vejam como houve um indício de mudança.

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Chamar toda a galera para assistir ao clássico de futebol no domingo ou maratonar a série que acabou de estrear no Netflix madrugada afora também é uma experiência e um meio de se socializar para algo que transcenda o meio digital (sim, parece estranho, mas essa é a nossa atual preocupação).

Porém, a minha ressalva com essa nova cultura, nova experiência em assistir a um filme, por exemplo, é o fato dela nos limitar ao nosso meio. Veja bem, por mais que essa seja uma forma de socializar, você estará fazendo isso dentro dos limites do seu convívio. Lógico que haverá uma troca, mas com as pessoas que você já conhece.

A janela de oportunidade em conhecer novas pessoas que partilham novos pensamentos se reduzem de maneira significativa, aliada ao fato de que, em tempos de pós-verdade, somos propensos (direta ou indiretamente) a conviver com aqueles que identificamos o mínimo de similaridade de pensamentos.

Aí voltamos lá para a nossa primeira pergunta: mas então, o streaming vai acabar com essa experiência?

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Acredito que ele não vá acabar de fato com ela, porém, vai transformar esse novo conceito, nos apresentando alguns ganhos, como a vasta opções de escolhas, que vão desde filmes e séries até a liberdade de decidir quando assistir, com um alto custo benefício, assim como apresenta, em minha visão, algumas perdas, como deixar cada vez mais de lado o convívio com pessoas diferentes em lugares diferentes, mas que nutrem, assim como você, a mesma paixão pelos filmes.

E o que nos resta a fazer sobre?

Se ainda prefere o bom e velho cinema, não abra mão disso. Chame os amigos e saia em uma tarde tranquila ou numa noite bonita.

Não é sobre consumir o máximo de conteúdo porque é assim que nos comportamos hoje. É sobre aproveitar cada momento, desde que se levanta da cama até a hora em que os créditos subirem na tela.

Ver um filme nunca se limitou a somente ver um filme.

E, assim torço, que nunca se limite.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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