toca a fita

Um mixtape de música, filmes, livros e cotidiano

Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo.

Como nossos pais

Sobre Poe Dameron, a general Amilyn Holdo e como somos tão jovens e impulsivos. Precisamos ouvir um pouco mais nossos pais, avós. Admire a sabedoria e experiência. Para que possamos ensinar, é necessário, antes de tudo, aprender. E esse primeiro passo já é um excelente início.


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Já até imagino o que vai falar, e olha, não te culpo por isso. Pareço a sua mãe ou seu pai apontando o dedo para dar um sermão. Ainda mais hoje, que estamos crescidos para admitir isso. Então aqui vai, tudo bem?

Seus pais estão certos.

Simples assim.

E não pense que estão certos por conta de algum tipo de autoridade que o cargo de pai ou mãe podem lhe dar. Eles estão certos porque possuem algo que a gente ainda está colhendo, pouco a pouco.

Nossos pais possuem a tal experiência.

Pulamos para Star Wars.

O oitavo nos surpreendeu por ir na contramão de algumas (de muitas) expectativas. Claro, você pode achar que ir na contramão de algumas expectativas possa ser algo bom ou ruim, mas vamos lembrar alguns pontos.

Star-Wars-8-Mark-Hamill-Daisy-Ridley-Wrap.jpg"Cara, te juro que já vi essa cena em algum lugar..."

A jovem Rey não foi para o lado negro da força e muito menos o Kylo Ren se arrependeu ou mostrou alguma coisa que indicasse a sua saga para a redenção, como seu avô.

Luke se deixou levar por alguns segundos pelo lado negro, mas não se tornou o vilão que todos argumentavam que seria, por conta da ordem dos personagens nos cartazes de divulgação.

E a melhor coisa de todas, a General Leia usou a Força! Contextualizando tudo o que vivemos, e o que a General viveu, fora das telinhas, não havia como essa cena ser linda demais para ser descrita em palavras.

Com todos esses aspectos, teve um ponto bem específico que me chamou a atenção, e que também foi na contramão das nossas expectativas. Até mesmo pela nossa cultura ou por aquilo que os filmes ocidentais nos cansam de mostrar: as pessoas mais velhas não se resumem a velhos e retrógrados. Cada uma, à sua maneira, são sábias.

Isso faz total diferença e nos ensina que ainda somos jovens, tão jovens.

E com isso, vamos focar na juventude teimosa de Poe Dameron.

poe.jpg"E então BB-8, melhor eu começar a escutar os outros, né?"

Dentre todas as mensagens que esse episódio nos passou, seja com o fardo de ser um mestre, a questão do meio termo entre o lado da luz ou negro da força, ressentimentos e fardos por escolhas, uma das teclas mais batidas foi a diferença entre ser um herói e fazer um ato de heroísmo.

A grande sacada sobre ser herói e fazer algo heroico é em como se dá valor ao que lhe é atribuído e ao que esperam de ti. Poe Dameron é um exímio piloto que tinha, como missão, destruir uma grande nave do Império 2.0, liderando uma equipe isso. No decorrer da missão, ao entender que seria praticamente impossível, o personagem é colocado em uma encruzilhada, uma escolha de Sofia por assim dizer: completar a missão ou recuar e salvar o máximo de vidas.

Com isso entramos em duas vertentes: até onde os fins justificam os meios e até onde faremos algo em prol do bem maior? Será que ser herói é cumprir um objetivo que lhe foi atribuído, independente do que aconteça ou o ato heroico é notar que, em ultima instância, uma vida é sempre algo que valha a pena salvar?

Amilyn-Holdo-The-Last-Jedi-Featured-10182017.jpg"Tô com raiva de mim por ter sentido raiva de você hahaha"

O mais interessante é que ficamos ao lado do Poe Dameron. E, confesso, fiquei com muita raiva da General Amilyn Holdo. Aquela prepotente! Só porque é mais velha acha que sabe de tudo! Olhe só pra nós, para o Poe. Nós sabemos o que fazemos, sabemos sobre tudo e sobre todos. Pois é...lembra do começo do texto? Então, é nesse ponto em que tomamos uma invertida bonita de Star Wars Episódio 8. Como a gente conversou lá em cima, tomamos uma rasteira. Não só a gente, mas a maioria dos filmes que nos fazem crer que velhice significa retrógrado e não experiência e sabedoria. Baita diferença, não?

Ou vai me dizer que não achou ruim, assim como o Poe, quando a Amilyn batia em retirada se negando ao enfrentamento e combate, como uma boa general da resistência, herança da Leia, deveria fazer?

E olha, como batemos cabeça com ela e toda a sua “coisa de gente velha teimosa” que não nos escuta, a “juventude e voz da razão”.

Talvez por isso tenha sido necessário aquela cena muda. Foram dez segundos de um maravilhoso ato heroico em puro silêncio. Porque essa é a sutil diferença entre experiência e impulsividade.

A experiência faz mais do que fala. A experiência escuta, compreende. Diferente de nós, enérgicos, que berramos a todos os cantos o que deve ser feito, Mas não fazemos e quando tal, metemos os pés pelas mãos.

Simples assim. Direto e reto, como aquela bronca que tomamos somente com um olhar de quem sabe o que está fazendo.

landscape-1495796608-poe-prince-leia-star-wars.jpg"Nada melhor do que estar ao lado de uma pessoa sábia, simples assim"

Então, quando o Finn tenta ser o herói, Poe Dameron finalmente entende. Como todo jovem, precisou apanhar, ter o dedo apontado e sofrer por simplesmente não escutar os mais sábios. Ele, como a gente, preferiu o caminho mais difícil, aquele caminho que até funciona, mas que não é tão essencial assim para a nossa formação.

Poe Dameron pede para Finn voltar, esquecer essa baboseira de ser herói e se importar com aquilo que realmente interessa: as vidas que ainda estão ao seu lado.

Grande diferença do piloto no início e final do filme, certo?

Grande diferença do espectador que se deixa aprender por outros professores que não seja o Yoda.

Admire a experiência e sabedoria dos mais velhos. Para que possamos ensinar, é necessário, antes de tudo, aprender. E esse primeiro passo já é um excelente início.


Rafael Moreno

Aquele clima despretensioso dos filmes dos anos oitenta, com uma dose de Tarantino e uma boa trilha sonora ao fundo..
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