Krissia Gomes

Zumbis, eles querem você

É interessante notar o fascínio e curiosidade que acontece vez ou outra na população e que atualmente chamamos de “modinha”, como quando seres grotescos e assustadores mudam sua essência e se transformam em algo legal. Mas e os zumbis? Como e por que eles despertam tanto fascínio?


zumbii.jpg Isso aconteceu com os vampiros e lobisomens, mas ser legal não é exatamente o estilo dos zumbis. Existem vampiros assassinos e vampiros que brilham, existem lobisomens assassinos e lobisomens sarados e existem zumbis, que são sempre zumbis (com uma pequena variação no filme Warm Bodies). As histórias de Zumbis não são muito diferentes umas das outras, normalmente esses seres aparecem com a pele putrificada, sem alguma parte do corpo, olhos esbranquiçados e letargia, a origem costuma ser a mesma também, um vírus que contamina a população e transforma as pessoas em mortos vivos. E aos sobreviventes só resta buscar a cura e lutar contra esses seres, que só “morrem” quando acertam seus cérebros. Seres cambaleantes e famintos por carne humana, sem nenhum resquício de memória de sua vida e nem de humanidade. Como os mortos vivos conseguem despertar fascínio há tantas gerações e o que os torna tão populares?

Existem diversas teorias que tentam explicar o interesse pelos zumbis, inclusive uma pesquisa recente feita por Sarah Lauro, professora da Universidade Clemson na Carolina do Sul, que indica que a moda dos zumbis pode apontar uma insatisfação da sociedade, correlacionando épocas em que ocorreram as marchas de mortos-vivos (conhecida como Zombie Walk) com períodos críticos na política americana. Se pesquisarmos mais no passado temos o livro O Estranho, de Freud que faz uma analogia entre a literatura e personagens capazes de fascinar por sua estranheza e por causar incômodo, mas que também atraem por manifestar algo obscuro que existe no inconsciente de todos, algo de familiar. Freud analisa a figura do autômato que assim como os zumbis causariam estranheza e também dúvida em relação à sua “humanidade”, seria uma versão vazia de um ser humano. Na filosofia, existe um conceito chamado zumbi filosófico, que seria um ser hipotético que não possui consciência mas tem a aparência e comportamento de um ser humano normal.

zzz.jpgZombie Walk Rio 2014

Zumbis não tem inteligência, são seres fisicamente humanos porém sem humanidade, vivem (ou morrem) em grupo, são violentos restos humanos devoradores de mente que só irão parar até o ultimo cérebro ser contaminado pelo vírus. Essa figura encanta muito mais do que assusta, mas por que isso ocorre? Seriam os zumbis uma metáfora para nossa própria sociedade?

Quantas pessoas você conhece que apenas seguem o fluxo? Mais que isso, quantos de nós fazemos exatamente a mesma coisa dia após dia, como robôs sem parar para questionar nossas atitudes? Somos seres pensantes ou apenas seres que caminham sem saber exatamente onde estamos indo?

Se prestarmos atenção conseguimos identificar os zumbis do cotidiano, aquelas pessoas cuja vida perdeu a graça, ou aquelas que simplesmente fazem exatamente o que estão programadas a fazer, ou então que estão tão fissuradas em aparelhos eletrônicos que são facilmente controlados pela mídia, sem questionamento. Pior ainda são os zumbis que querem devorar a inteligência e a capacidade alheia, minando seus sonhos e os contaminando com falta de esperança. São os que dizem que certas coisas não valem a pena serem feitas porque não fará diferença alguma, ou que não vale a pena fazer o que gosta se isso não der retorno financeiro, afinal é isso que a sociedade espera de todos. E como todo zumbi, eles não fazem consciência alguma que são assim e que isso está acontecendo.

Ser zumbi é ser previsível, é aceitar as regras e tradições que já foram impostas a eles, é segui-las tão cegamente que não conseguem perceber que quando tais regras foram criadas o mundo era diferente. Mas o zumbi não questiona, não debate, não tenta mudar nada a sua volta. Agora pense, você é um zumbi ou um sobrevivente?


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