Luísa Bem Dal Pozzo

Estudante adoradora do cinema, da literatura, do teatro e da música. Por vezes, arrisca escrever um texto carregado de sentimentalismo (quase piegas, eu diria).

13 Reasons Why e os muitos personagens em sofrimento

*** ALERTA DE SPOILER ***
13 Reasons Why tem dado o que falar desde a sua estreia. A série trata de assuntos considerados tabu na nossa sociedade de forma bastante realista, sem romantismos. O principal deles é o suicídio de uma garota, mas não vamos falar diretamente sobre ela. Vamos falar do plano de fundo: os outros personagens e suas dores.


***ALERTA DE SPOILER***

Com certeza você já ouviu ou viu alguma coisa sobre a nova série da Netflix 13 Reasons Why. Se você não assistiu, ou está assistindo, já deve ter visto alguma coisa sobre isso na internet, nas redes sociais. A série estreou dia 31 de março e estourou logo de início. As pessoas estão chocadas (e ainda bem que estão) e estão expondo seus sentimentos sobre a história e a vida real.

Para facilitar a vida de quem não conhece a produção: o enredo trata de uma garota, Hannah, que está no Ensino Médio (o popular High School) e comete suicídio. Antes de terminar com a própria vida, Hannah grava uma série de fitas – 13, para ser mais precisa – contando os motivos que a levaram a fazer o que fez. A série é realmente bastante densa, a princípio os primeiros episódios podem parecer até “leves” de certo modo, mas à medida que as fitas vão rodando, os motivos que pareciam ser somente “problemas comuns de adolescentes” vão ficando mais e mais tensos e pesados.

Bem, mas eu não estou aqui para falar diretamente do óbvio que são os 13 porquês, afinal já tá cheio de páginas na internet falando sobre isso. Eu quero falar dos outros jovens da série. Não só dos porquês de Hannah, mas dos que ficaram em segundo plano também. Aparentemente a série apresenta uma escola de alunos de classe média alta onde a maioria parece ter algum problema para ser resolvido. Certamente a história de Hannah foi a que teve o final mais trágico, mas o desenrolar da história mostra-nos outros tantos jovens com algum tipo de sofrimento, ou PROBLEMA que, se não receberem devida atenção, podem acabar tendo o mesmo desfecho da menina que se suicidou.

Certo, vamos começar.

Justin Foley: Justin parece ser, a princípio, tudo o que muitos garotos gostariam de ser. Ele é popular, joga no time do colégio, é bonito e faz sucesso com as garotas. No entanto, é só olhar um pouco mais a fundo e deixar os episódios acontecerem pra vermos que a vida dele está longe de ser perfeita. Ele vive com a mãe que é usuária de drogas e já foi detida por porte e que constantemente leva namorados grotescos para dentro de casa. A mãe parece não dar a mínima para o filho, ele chega a ser agredido fisicamente pelo namorado dela, e ela simplesmente observa a cena. Pode ser que ela aja dessa maneira por estar sob efeito de drogas, mas de qualquer forma é uma mãe ausente. Seguidamente vemos o garoto fazendo as malas e procurando algum lugar para dormir por alguns dias – frequentemente é a casa de Bryce, cujos pais são ricos e ajudam financeiramente Justin em muitos aspectos, como comprando o material escolar. O garoto que aparece duas vezes nas fitas de Hannah e que, segundo ela, foi “o começo do fim”, claramente enfrenta muitas dificuldades familiares que acabam se refletindo no seu comportamento ao longo da série. justin 2.png Justin

Jessica Davis: a primeira amiga de Hannah parece ter um comportamento um tanto quanto insano. Sem medo do perigo, a garota apresenta atitudes autodestrutivas, mesmo que não pareçam. Além de ter passado pelo acontecimento terrível relatado por Hannah, Jess enfrenta outros graves problemas, como envolvimento com álcool e outras drogas ilícitas. Ela chega ao ponto de beber até dentro da escola. Uma das cenas que mais me tocaram na história de Jessica foi a que ela tira várias garrafas começadas de bebida debaixo da cama e decide jogar o conteúdo na pia. É muito triste ver uma menina tão jovem envolver-se com álcool dessa maneira. Sem contar os outros problemas que ficam mais explícitos e evidentes na série (vamos falar só dos secundários aqui). jessica.png Jessica

Alex Standall: bem, Alex aparece nas fitas de Hannah por uma atitude imbecil e infantil, mas não é sobre isso que quero falar. Quero falar sobre o garoto magrelo e cheio de estilo filho de policial que só responde seu pai com “Sim, senhor”. Não que tratar os pais com respeito seja ruim, muito pelo contrário. Mas a atitude do garoto demonstra um certo afastamento, como se a família não representasse, de fato, um apoio, uma base, mas apenas uma autoridade. Além disso, é evidente que Alex é um garoto sensitivo, percebemos ele se culpando a série inteira pelo que aconteceu. Até seus problemas gástricos podem, provavelmente, ter alguma relação com a carga emocional que ele carrega. Tanto é que ele acaba por ter um final quase tão trágico e terrível quanto o de Hannah. alex.png Alex

Tyler Down: o fotógrafo que todos acham esquisitão. Além de sofrer bullying constantemente durante a série, sendo empurrado nos corredores ou trancado nos banheiros, Tyler parece realmente um jovem perturbado. Ele é bastante sozinho e passa seu tempo fotografando pessoas escondido. Seu final também é bastante perturbador e sombrio, e deixa uma dúvida suspensa. Ele aparece *SPOILER* arrumando um arsenal de armas. Será que temos aí uma possível continuação? tyler.png Tyler

Zach Dempsey: o garoto perfeito e que, no fundo, tem um bom coração. Zach é bonito, inteligente, popular, joga no time de basquete e é de família rica. O que poderia dar errado? Uma mãe pra lá de superprotetora e que acha que seu filho é o melhor do mundo (ok, típico de mães, mas não dessa maneira doentia). A mãe de Zach coloca o filho num patamar muito mais alto do que qualquer outro estudante. Esse instinto de superproteger e superestimar o filho fazem com que ele desconheça a negação. Apesar de, aparentemente, ser um bom menino, a pressão materna para que ele sempre seja melhor torna-o um tanto quanto arrogante e sem saber lidar com a derrota. zach.png Zach

Courtney Crimson: Courtney é filha adotiva de um casal de gays. A situação dela já começa sensível ali. Além do possível peso de ser adotada, provavelmente o caso se agrava quando consideramos o preconceito que perdura na sociedade até hoje: a homofobia. A garota, em dado momento, justifica seu medo de assumir sua sexualidade. Ela diz sentir medo do que as pessoas podem pensar e falar. Coisas do tipo "ela tem pais gays, é por isso que ela é assim", como que atribuindo uma culpa - que não existe! - aos seus pais. Por isso, Courtney é uma menina que vive de aparências e raramente expõe seus sentimentos. No entanto, em função disso tudo, é visível que ela passa por um difícil conflito interno. courtney.png Courtney

Clay Jensen: o filho que toda mãe gostaria de ter. Estudioso, boas notas na escola, educado, alguns amigos, não envolvido com drogas. Ok, Clay tinha uma vida que parecida normal para e aceitável para um jovem. No entanto, percebemos que o rapaz quietinho também tinha seus problemas. Às vezes ser quieto demais, bom demais, pode ser um problema também. É visível sua dificuldade de comunicação e interação com os pais. Tudo parece forçado, nada é muito natural. Clay parece não conseguir expressar seus sentimentos e emoções para os outros. Ele não consegue dizer a Hannah que está apaixonado por ela, não consegue dizer aos pais que ele está passando por estresse emocional, e escuta as fitas com muita dificuldade (risos à parte), não consegue lidar com seus sentimentos. Preste atenção nas pessoas muito quietas, as mentes delas podem ser as mais barulhentas. clay.png Clay

Skye Miller: a garota das tatuagens, dos piercings e do tarô. Skye parece ser mais uma daquelas “personagens estranhas” de filmes/séries que não se importam com nada, nem com ninguém. Errado. Skye realmente traz essa primeira impressão, uma garota que não se deixa afetar pelas emoções. No entanto essa imagem começa a se desfazer logo. No episódio em que Clay pede a ela sobre sua tatuagem de um jacaré no pescoço e ela explica o porquê, vemos que ela não é tão fria e alheia aos sentimentos. Muito pelo contrário. Em diversos momentos ela parece ser bastante sensitiva no sentido de perceber diferentes estados emocionais dos outros. Além disso, em dado momento ela demonstra certo ressentimento por quando Clay passou a tratá-la com mais distanciamento. Todos esses motivos imbricados levam a um comportamento terrível: automutilação. Em um dos episódios, ela aparece com os braços cheios de cortes, e diz que é o que as pessoas fazem ao invés de se matar. Triste, né? Triste e pesado. skye.png Skye

Olivia Baker e Andy Baker: os pais de Hannah. Nada mais óbvio que estivessem nesta lista, afinal a filha deles cometeu suicídio. Contudo, os problemas deles começam ainda antes disso. Ambos são pais incríveis e fazem de tudo para ver a filha feliz; no entanto, vemos que eles passam por dificuldades financeiras que têm afetado um pouco a relação familiar entre eles. Com a chegada de uma rede de farmácias bastante forte, o pequeno comércio deles não tem como competir com os preços, e eles acabam perdendo clientela e, consequentemente, suas dívidas começam a aumentar. Eles já não conseguem pagar o aluguel e está cada vez mais difícil mantes a farmácia. Toda essa situação de estresse começa a distanciá-los da filha e eles não enxergam que ela está em perigo e precisa de ajuda. Depois da morte de Hannah, vemos claramente a decadência física e emocional do sr e da sra Baker. Ela - antes uma mulher radiante, sempre com o cabelo impecável, maquiada, roupas coloridas - passa a vestir-se sempre com roupas sóbrias, seus olhos, sua pele e seus cabelos perderam o brilho de outrora, ela parece ter envelhecido uma década. Ele, antes sempre sorridente, também perde toda a sua alegria. A cena em que eles encontram a filha morta é, sem dúvida, a que mais me impactou. A negação da mãe em enxergar a morte, pegando a filha nos braços tentando acalmá-la e dizendo que vai ficar tudo bem, e logo depois o desespero do pai ao ver aquela cena, são momentos terríveis. É uma cena muito forte e que mostra da maneira mais crua como o suicídio não deve ser romantizado, como essa é uma morte dolorosa para aquele que se vai, e para os que ficam. sr e sra baker.png Sr. e sra. Baker hannah morta.png Uma das cenas mais fortes e mais tristes da série.

Eu sei que muitos outros personagens da série mereciam estar nesta lista (senão todos), mas essa matéria foi apenas um adendo. Thirteen Reasons Why é brilhante e cruel, porém mostrou-nos a verdade nua e crua, sem romantismos, sem estigmas e quebrando vários tabus. Além de trazer um tema que há muito tempo precisava ser retratado de maneira tão real, ao que tudo indica, a série, além de conquistar muitos fãs, conseguiu fazer com que mais pessoas buscassem ajuda (o número de ligações para o CVV aumentaram em 100% desde o lançamento da série).

Se você curtiu a série, vou deixar uma indicação de um filme bastante semelhante, porém pouquíssimo conhecido e que não vi nenhuma outra página citar. O filme é “2:37” (isso mesmo) de 2006.

Deixei o link do filme no site Adoro Cinema pra quem se interessar.

Também deixei o link do CVV, caso você precise de ajuda.

2:37 http://www.adorocinema.com/filmes/filme-111432/

CVV http://cvv.org.br/index.php ou ligue para 141 ou 188 (RS).


Luísa Bem Dal Pozzo

Estudante adoradora do cinema, da literatura, do teatro e da música. Por vezes, arrisca escrever um texto carregado de sentimentalismo (quase piegas, eu diria)..
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