Luísa Bem Dal Pozzo

Espaço pra compartilhar críticas, dicas, comentários e listas de filmes. Criado por uma amante de Pedro Almodóvar, Yorgos Lanthimos e terror.

“Meu Pai”: o quebra-cabeça da lucidez


the father 1.jpg Olivia Colman e Anthony Hopkins. | Foto: Divulgação

Pense agora, sem demora, no que mais lhe assusta. Provavelmente alguns vão pensar em adoecer, perder a lucidez, ou ainda em envelhecer. De fato, todas estas questões são, em algum nível, assustadoras. “Meu Pai”, vencedor de dois Oscar, dirigido pelo francês Florian Zeller, traz um retrato do envelhecimento e da perda da consciência de uma maneira sensível, mas perturbadora.

the father 3.jpg Olivia Colman e Anthony Hopkins. | Foto: Divulgação

Anthony (Anthony Hopkins), um homem idoso, procura encontrar-se em uma realidade que parece cada vez mais fragmentada e sem sentido. Na luta para aprender a lidar com esta situação, sua filha Anne (Olivia Colman), que está de mudança para o exterior, busca o auxílio de cuidadoras, que são frequentemente rechaçadas pelo pai. A premissa do longa é bastante simples, o brilhantismo está no conjunto impecável de atuações, direção, montagem e direção de arte. Acompanhamos a história pela perspectiva do próprio Anthony, que, em decorrência da perda de memória, perde a capacidade de orientação, não conseguindo mais distinguir dias, lugares e pessoas. Apesar de ter plena capacidade de elaborar e comunicar suas ideias, ter uma doença que destrói as memórias afeta o personagem, fazendo com que seu humor oscile constantemente. Como público, somos colocados em meio ao labirinto físico e mental no qual se transformou a vida do protagonista. Para fortalecer a sensação de desorientação, o diretor aposta na direção de arte e na montagem: as alterações do cenário, dos personagens e de suas funções, as conversas e cenas se repetindo, deixam o espectador confuso, tenso e sem saber no que e em quem acreditar. Por vezes chegamos a duvidar até do caráter da filha, questionando se ela não estaria manipulando o próprio pai.

A confusão gerada, no entanto, além de proposital, é uma escolha muito inteligente que demonstra um domínio minucioso do roteiro. Florian Zeller, autor da peça de teatro que originou o filme, e Christopher Hampton ganharam o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. “Meu Pai” é um texto que certamente se beneficiou (e muito) da adaptação cinematográfica. Muitas decisões criativas que engrandecem a experiência só são possíveis no cinema, como é o caso das inúmeras mudanças no cenário, e dos closes nos olhares perdidos e exaustos. Zeller também faz uso de alguns simbolismos muito interessantes que enriquecem de maneira singela a narrativa: a pintura da filha falecida que some ao longo do filme; e o relógio de pulso que o protagonista perde e insiste, incansavelmente, em encontrar e manter consigo, como se fosse um amuleto que o conecta com a realidade.

The-Father-4.png Anthony Hopkins. | Foto: Divulgação

Além de muito bem produzido e dirigido, o longa se destaca ainda mais por duas atuações brilhantes. Olivia Colman oferece uma performance extremamente comovente. Sem a necessidade de cenas ou falas apelativas, ela traduz com perfeição toda dor e cansaço de ter de lidar com o pai doente, e a insegurança de não saber se está fazendo o melhor que pode. O veterano Anthony Hopkins entrega, aos 84 anos, uma interpretação memorável, - na minha opinião, a melhor de sua carreira – e foi reconhecido no Oscar, levando o prêmio de Melhor Ator. Nosso eterno Hannibal Lecter está simplesmente espetacular. Hopkins traduz no olhar perdido de quem não tem a menor ideia do que está acontecendo, e nas repetições de falas, o comportamento de alguém completamente desnorteado e desconectado da realidade. É forte, tocante e sensível ao mesmo tempo. Isso tudo sem falar da avassaladora cena final.

“Meu Pai” é um quebra-cabeças que às vezes parece ter peças erradas que não se encaixam. Complexo como a mente humana. Certamente o longa se beneficia de uma segunda assistida (e terceira, quarta…). Assim como “Amor” (2012), “Meu Pai” trata do envelhecimento de maneira brutal, assustadora e muito comovente. O filme vencedor de dois Oscar está disponível para aluguel digital no YouTube e no Belas Artes À La Carte. É um espetáculo que precisa ser assistido.


Luísa Bem Dal Pozzo

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