Luísa Bem Dal Pozzo

Espaço pra compartilhar críticas, dicas, comentários e listas de filmes. Criado por uma amante de Pedro Almodóvar, Yorgos Lanthimos e terror.

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre: a potência do silêncio


Existe uma força gigantesca no silêncio que muitas vezes passa despercebida. No cinema, muito comumente vemos diálogos e cenas expositivas, quase demonstrando uma ansiedade de que o público entenda a história que está sendo contada. No entanto, às vezes surgem obras que afirmam seu sucesso justamente na potência daquilo que não é dito, como foi o caso de Elefante, de Gus Van Sant, em 2003. Em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre a diretora e roteirista Eliza Hittman também aposta no silêncio e na sutileza para contar de maneira muito sensível uma história que poderia facilmente cair em clichês e estereótipos. O longa trata de um assunto bastante polêmico, o aborto, mas também abre espaço para reflexões sobre outros temas, como abuso, diferenças sociais, relações familiares e amizade.

nunca.jpeg Sidney Flanigan em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

No filme, acompanhamos Autumn, interpretada pela estreante Sidney Flanigan, uma jovem de 17 anos, de classe média baixa que trabalha de caixa em um mercado de uma pequena cidade da Pensilvânia junto de sua prima Skylar (Talia Ryder). Certo dia, Autumn descobre que está grávida e revela à médica o desejo de abortar. Já neste momento vemos o posicionamento da médica, que condena fortemente a decisão da jovem. Autumn e sua prima Skylar decidem, então, ir para Nova York para realizar o aborto, uma vez que as leis no estado de Nova York são mais flexíveis do que as da Pensilvânia nesta questão. É nesta jornada que nós, enquanto espectadores, somos convidados a embarcar. A escolha de Hittman em acompanhar a jornada de medo, culpa, sororidade e amadurecimento e não os eventos que, teoricamente, teriam mais impacto narrativo, torna o filme mais cru, mais real e, por isso, mais forte. As duas jovens passam, por exemplo, por uma série de abusos e violências durante o filme que nunca precisam ser excessivamente explícitas para que causem impacto e desconforto. Além disso, a maneira com que a diretora decide posicionar a câmera sempre buscando a protagonista mesmo nos momentos mais triviais dá uma sensação absurda de realidade, colocando o espectador num lugar não só de testemunha, mas também de cúmplice das duas meninas.

nunca raramente 5.jpg Sidney Flanigan em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

raramente.png Sidney Flanigan em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

A solidão também é um tema latente no filme, que vai desde o distanciamento emocional familiar, até a solidão nos metrôs lotados de Nova York. O tema, aliás, utiliza muito bem a cidade de Nova York como plano de fundo. A cumplicidade das duas personagens se torna ainda mais potente quando as vemos em uma cidade caótica e barulhenta onde todos parecem imersos na própria solidão. Cumplicidade esta que dispensa diálogos, e reside na companhia, no silêncio, nos pequenos gestos, como um entrelaçar de dedos, e numa troca de olhares que parece dizer “eu estou aqui”.

nunca raramente 2.jpg Sidney Flanigan em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

nunca raramente 1.jpg Talia Ryder e Sidney Flanigan em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

É impossível deixar de destacar aqui a cena que dá título ao filme. Num completo domínio de seu trabalho, Eliza Hittman mantém a câmera estática no rosto de Autumn numa cena sem cortes de mais de cinco minutos em que a protagonista, para dar seguimento ao processo de aborto, deve responder com “nunca, raramente, às vezes ou sempre” a um questionário feito por uma assistente social. As perguntas vão ficando cada vez mais duras, até o momento em que Autumn, visivelmente em sofrimento, já não consegue mais respondê-las. O silêncio da jovem, no entanto, é brutalmente preenchido por uma atuação espetacular e dolorosa que dispensa qualquer resposta verbal. A cena completa lacunas da história de uma forma extremamente tocante, e é impossível passar ileso por ela. É um verdadeiro soco no estômago.

nunca.png Sidney Flanigan em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre definitivamente não é um filme para todos os públicos. Talvez exija um pouco mais de paciência dos espectadores mais ansiosos e acostumados às narrativas frenéticas e expositivas do cinema hollywoodiano, porém, para aqueles que se aventurarem, o filme promete ser uma grata experiência. É um filme com uma sensibilidade ímpar para tratar de temas tabus e que retrata como poucos a adolescência. Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre é um grito, um grito silencioso.

Nota: 9,5/10


Luísa Bem Dal Pozzo

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