todo ouvidos

Todo ouvidos

Letícia Barroso

Na amplitude, um grão de areia que não sabe pra onde vai. Gosto de explorar, sou curiosa do bem, gosto de conhecimento, mas sou preguiçosa também. Amo música, mas não tenho talento, nasci pras artes, pra escrita e pro novo.

Poupe-me das flores

Não precisamos ser heroínas para ser gente, nem receber homenagens para sermos mulheres.


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Vamos começar por algo simples. Chá de panela. Desde os primórdios, antes do casamento, mulheres são condicionadas a terem a festa, um tanto quanto entediante e sem nexo nenhum chamada chá de panela, uma que seria para diversão e despedida de uma vida que será mudada. A atenção na festa passa a ser a nova casa e suas novas obrigações, não a mulher. Os presentes são para casa, a perguntas são sobre o gerenciamento do tempo. Cuidar de um lar, de um trabalho e de um marido não é nada fácil. Todos na festa são mulheres. Os presentes? Coisas de casa. Coisas para agradar o parceiro. Um micro-ondas, uma panela, um móvel novo. Mulher adora receber coisa de casa.

Então, já casada, ela passa a receber coisas de casa até claro, ter o primeiro filho, a atenção se volta para o bebê, já que, obviamente, toda mulher sonha em ser mãe. Mais uma vez nossa personalidade e bem-estar, são esquecidos. Esse é o papel da mulher no mundo, de acordo com o mundo.

Ainda quando crianças, precisamos nos dividir entre o coleguinha que é apaixonado por nós, entre o que puxa nosso cabelo, mas que de acordo com o professor, está só tentando chamar a atenção. Somos focadas a sermos as melhores da turma, ou rotuladas segundo a capacidade intelectual e aparência.

Sem falar no pudor. Desde criança o shortinho, a saia mais curta não pode rolar. E se a mãe da menina (porque é claro, a mãe que veste a criança), ousar vesti-la com algo mais curto está sendo irresponsável afinal, o que esperar de alguém que desde pequena veste minissaia? Não pode reclamar das consequências depois.

Quando crescemos, então, nós mulheres, somos condicionadas a lutar, se não lutarmos, ou não tivermos forças suficientes, somos tidas como fracas, por nós mesmos, muitas vezes. Mulher é tida como heroína, que compreende a tudo e a todos. Mulher não é aquela que ganha um carro do pai aos dezoito anos, é aquela que batalha para compra-lo. Mulher não é aquela que viaja sozinha, é a que espera um marido para acompanha-la.

O jeito ingênuo e pacificador é incorporado em nós desde muito pequenas. Feche a perna! Fale baixo! Não compita! Mimada! Não entenda de política! Não deixe de ir à Igreja! Não beba! E ao mesmo tempo ouvimos: fraca! Tem que dar conta da casa! Gorda, porque não se cuida? Não passou na faculdade? O pai que paga o cursinho? Tinha que ser mulher!

O espírito heroico que nos cerca, herdado por nossas mães, nos diz que temos e devemos dar conta sem reclamar de todos os encargos dados a uma mulher. O parceiro é ruim se ajuda, mas é bom demais quando divide as tarefas. Afinal, mulher sabe mais sobre como cuidar de uma casa.

Vemos comentários sobre como a mulher é boa em tudo e o quão multifuncionais somos. Mas e se não quisermos ser multifuncionais? E se quisermos passar a vida toda trabalhando, viajando ou estudando? E se não dermos a mínima para nos casarmos? E se não soubermos nada mais do que o miojo com salsicha?

Não somos obrigadas a sermos o que querem que sejamos. Não somos obrigadas a ser como as músicas nos descrevem. E muito menos obrigadas a aceitarmos flores ou chocolates por sermos aquilo que não queríamos ser.


Letícia Barroso

Na amplitude, um grão de areia que não sabe pra onde vai. Gosto de explorar, sou curiosa do bem, gosto de conhecimento, mas sou preguiçosa também. Amo música, mas não tenho talento, nasci pras artes, pra escrita e pro novo..
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