todo ouvidos

Todo ouvidos

Letícia Barroso

Na amplitude, um grão de areia que não sabe pra onde vai. Gosto de explorar, sou curiosa do bem, gosto de conhecimento, mas sou preguiçosa também. Amo música, mas não tenho talento, nasci pras artes, pra escrita e pro novo.

Seu guarda perdoe minha ignorância.

Esse não é um texto de ódio, não é um texto de amor. É um texto de quebra. Uma pequena amostra de como estereótipos podem ser mudados em poucos minutos. Esta é a história contada por mim, pelo guarda e um cantor.


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Policiais civis. Policiais militares. Policiais municipais. Cargos que sempre me deram calafrios. Um nó na garganta a cada ronda que fazia no jornal que trabalhava e recebia a má vontade de noventa por cento dos policiais. Não vamos dar informação, não somos obrigados, eu ouvia. As ligações se tornaram atos desesperados pela notícia. O má recebimento dos servidores me fez adquirir aquela generalização de sempre. O policial, o coxinha. O guarda, aquele que vai falar algo sem sentido ou priorizar a classe dominante.

Mal sabia eu, e mal pude acreditar que após cinco anos sem trabalhar em veículos de comunicação, minha visão sobre eles mudaria. Lembro que, estava eu numa palestra de um dos meus cantores favoritos quando a única pergunta foi feita por um guarda municipal. Isso, por um guarda municipal fardado. Com todo meu esteriótipo enraizado e meu pensamento engessado, já fui achando que viria uma batatada daquelas. Enfim.

Entre os gritos de ÔÔ potência de um cara vestido de cowboy e a voz marcante do mediador, surgiu a pergunta. O guarda levanta a mão e o mediador brinca: você vai usar da autoridade para perguntar? O público ri, meio que no desespero, acho que por levar em consideração o atual cenário político.

Já logo pensei: Lá vem. Mas, como dois mil e dezoito continua sendo o ano do senta lá, Letícia, esse guarda trouxe a tona todos os pensamentos de que guardas são gente como a gente, tem filhos, família e uma opinião, que pode ser boa, claro, assim como a minha e a sua. Comecei a ouvir, julguei por um momento. A pergunta começou estranha e eu previ vaias. Mas elas não aconteceram.

Surpresa com a atitude do policial, percebi que ele era tão fã daquele cantor quanto eu. Percebi que ele era ainda mais. Percebi que ele sabia de boa parte de sua trajetória artística. Percebi que o que no fundo, no fundo o que aquele guarda queria era demonstrar sua insatisfação com os crimes de ódio.

O guarda, numa mistura de emoção e talvez nervosismo, se aproximou do palco em que estava o cantor e fez uma pergunta acerca da arte. Este cara fez uma pergunta inimaginável, que para um guarda criticar o não uso do olho por olho, dente por dente pode ser uma má saída. O guarda me surpreendeu. Ele, com toda sua coragem, demonstrou que entendia mais da violência do que eu e você. Que entendia de ódio, e que pensava sobre ele.

O guarda, ali, vigiado por olhares de julgamento, de pessoas de esquerda, como eu, deu um show de compaixão e sabedoria. Em poucas palavras, eu, o mediador, o cantor e o público quebramos todos os estereótipos e os pensamentos vazios sobre aquele homem, que assim como outros tinha acabado de sair do trabalho interessado em participar de um evento literário.

Então, obrigada, seu guarda. Obrigada por mostrar que sua fala é livre e nós também.


Letícia Barroso

Na amplitude, um grão de areia que não sabe pra onde vai. Gosto de explorar, sou curiosa do bem, gosto de conhecimento, mas sou preguiçosa também. Amo música, mas não tenho talento, nasci pras artes, pra escrita e pro novo..
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