Emerson Teixeira Lima

Emerson Teixeira Lima é formado em História, especializado em História da Arte e aplicação do audiovisual na educação. Pesquisa cinema há anos e se interessa pelas mais diversas formas de expressão artística; já escreveu, atuou e produziu peças teatrais, além de desenvolver projetos sociais que relacionam cinema, teatro e fotografia.

Mc Melody, funk e o futuro das nossas crianças

Incrível pensar que estamos vivendo uma era onde a distância está mais presente do que nunca, o homem vive no seu casulo e cuidar de um filho se tornou muito fácil: pois há, hoje, diversas formas de hipnotizá-lo.


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Onde está os adultos no funk? Ou melhor, onde está os adultos no mundo? O que será que andamos fazendo em? Mexendo no whattsapp enquanto nossas crianças… mexem no whattsapp no outro cômodo da casa?

Incrível pensar que estamos vivendo uma era onde a distância está mais presente do que nunca, o homem vive no seu casulo e cuidar de um filho se tornou muito fácil: pois há, hoje, diversas formas de hipnotizá-lo.

Já pensei ou me questionei por diversas vezes se eu seria um bom pai, até por ser abandonado pelo meu, a gente sempre acaba tendo um pouco de medo. Mas o fato é que, hoje, fico com mais medo do mundo do que da minha possível incapacidade em criar.

Tem uma palavra chamada cultura, é essencial que a família assuma esse papel inicial de transmitir o conhecimento. É óbvio que cada uma está inserida em um contexto e o saber nunca será o mesmo em todas as crianças, porém é preciso fazer o mínimo de esforço para que “fugas” como a internet sejam menos impactante na vida do ser em formação do que atualmente é. O Brasil vive uma carência de informação, tudo é muito caro, o entretenimento é luxo, existe muita preguiça em procurar coisas novas. A pena é que esse último fator é o que mais separa o brasileiro do conhecimento, o comodismo é um perigo.

Eu não estou falando exclusivamente das escolas, até porque todos sabem que a educação no Brasil é outra discussão complicada – e falo isso como professor de crianças e jovens de escolas públicas – existe um conhecimento crucial durante a formação que se chama experiência. Não sou daqueles que vivem dizendo aos ventos que o “meu tempo era melhor”, mas sem dúvida posso me lamentar que no meu tempo éramos mais livres.

A violência proíbe a criança de brincar na rua, existe uma onda grande de estupro, a mulher é tratada cada vez mais como objeto, enfim, está realmente difícil a situação do ser que, milagrosamente, continua respirando um ar repleto de vírus.

Esses e outros fatores fazem com que cada vez mais crianças e adultos se desenvolvam em meio a uma série de repetições e desinteresses, estamos todos sufocados com a monotonia e rotina. O encontro se torna frívolo, restando aos bates papos virtuais preencherem as nossas necessidades de elogios e sorrisos o que, por sua vez, podem ser traduzidas por emoticons. E esses bichinhos falam exatamente aquilo que queríamos não é mesmo? O homem está se auto-privando de desabafar o que sente. E o sentir se tornou arma para fracos.

Parte 2 – Exposição na internet e funk

Gente, o que vou falar aqui é muito sério, você que acompanha o Cronologia do Acaso, sabe que jamais divulgaríamos ou falaríamos algo a toa, por favor, usem esse episódio como alerta, você, criador de conteúdo na internet, que escreve textos reflexivos, ajude nesse aviso.

Como uma pesquisa para esse episódio, eu fui atrás de alguns cantores, casos e vídeos de funk. Na verdade, o que eu encontrei atualmente no gênero musical é 90% produzido por crianças. O pior e mais perigoso é que existem adultos por trás delas, guiando-as, ensinando o caminho da exposição, distribuindo-as como se fosse garotos e garotas de programa. E tem gente que consome, que fica silenciosamente esperando a próxima criança rebolando, pronunciando vulgaridades que não cabe em sua boca inocente.

Antes vamos voltar um pouco e falar sobre o funk:

O funk é um gênero musical que teve inicio, basicamente, nos anos 60. Teve inspirações de diversos outros gêneros e criou-se musicas dançantes, que exploravam um lado muito espirituoso de, principalmente, uma classe inferior diante as imposições da sociedade.

Eu costumo usar bastante jazz e blues nas edições do podcast Cronologia do Acaso, sou fã de nomes como Miles Davis, John Coltrane, Nina Simone, Tom Waits etc. Já fui ignorante o suficiente em afirmar que as músicas que eu gostava eram melhores do que os dos outros. Hoje me entendo como uma pessoa que navega por entre estilos, tenho as minhas preferências mas tento não ter preconceito com nada.

Inclusive, o Jazz exerceu grande influência no começo do Funk. Vindo para o Brasil, o funk sempre foi muito interessante musicalmente, pois se tratava de um gênero cujo padrão é realmente ser simples. Então dava destaque às composições e certamente se tornava uma grande oportunidade para pessoas pobres, algumas vezes moradores de favelas ou simplesmente pessoas com pouca oportunidade, fazerem suas músicas e criar a sua arte.

Com essa liberdade, é evidente que iríamos cair na problematização da sexualidade, musicas com apelo sexual, algumas surgindo como representações do coito, enfim, é o que acontece. O sexo está presente em diversas outras músicas e composições, nos mais variados gêneros musicais. Esse não é o problema.

O problema começa, ao meu ver, quando a mulher é exposta e tratada de forma inferior. Quando o funk começou a ser uma arma de exposição e vulgaridade, mulheres invadindo a TV e mostrando suas lindas bundas para crianças de todo o país que, consecutivamente, tentavam imitá-las. Mas essa é uma questão pessoal, apesar de achar algumas moças bonitas, o que elas representam no funk jamais faz jus a importância e caráter que, acredito, todas têm.

O tempo passou e certamente foi se agravando essa situação. Com o aumento das drogas, lavagem de dinheiro e inerência do homem perante a tecnologia que se espalhava rapidamente no começo dos anos 2000, ficou claro que as novas gerações já nascem inundadas em um mar de sexualidade exposta de forma precária, cultura banalizada, vulgaridade e, o pior, sabem que é possível se expor de forma semelhante na internet e ai começa o desastre total.

Parte 3 – Mc Melody

A internet está cansada de fazer piadas com a pobre Melody, não vou aqui tratá-la mal, muito menos chamá-la de idiota. Eu vejo e entendo a menina como vítima, ela tem uma clara expectativa de alcançar o sucesso, de certa forma está alcançando, mas está fazendo isso de um jeito terrível. O seu caso exemplifica toda essa questão das crianças, as transformações do mundo e o funk.

Mc Melody já falou em diversas entrevistas que estuda música com o seu pai, o cantor Mc Belinho. Quando eu ouvi isso, me partiu o coração. Sério. Dá para sentir a admiração que a menina tem para com o seu pai, para ela sem dúvida ele é o melhor musico do mundo – e, se focarmos apenas no seu olhar, ela tem razão – ela está certa em fazer isso, muitos teriam inveja de possuir uma figura masculina que representa todo esse orgulho na filha.

O porém é que Mc Belinho não é um bom musico e não está empresariando uma artista, mas sim uma bonequinha que vai morrer com a primeira luz de realidade. Ele manipula a sua filha – não sei se de forma intencional ou motivado, também, pela sua própria ignorância – e a motiva a fazer sucesso de forma ridícula e despreparada. As pessoas não dão risada com a Melody, dão risada dela.

Quais serão os impactos de toda essa exposição no seu futuro? O que se transformará esse orgulho do pai quando a maturidade atingir o seu cérebro e perceber tamanho interesse? Ou melhor, será que tudo isso realmente acontece ou a burrice no país cega o ser humano pela vida inteira?

A menina dá gritos, fala que é falsete e todos dão risadas disso, vira moda, vira música. Mais da metade dos que aplaudem ela, nem ao menos sabem o que é um falsete.

Vivemos em dias complicados para se entender, me sinto constantemente um peixe fora da água. Tento fazer a diferença dentro do que eu posso, mas como professor e estando inserido nessa realidade, percebo o quanto essa “cultura frágil” interfere na criação das crianças e, unido-se a isso, a internet é extremamente perigosa.

Guie as crianças, por favor. Você que é pai, mãe, irmão, tio, avô, se dediquem para fazer a diferença. Eu sou um adepto da ideia de John Locke e sua explicação da “tabula rasa”. Para mim todo ser humano é uma folha em branco, um vazio que será preenchido com suas experiências e cuidados exteriores, portanto a criança está sempre pronta para ser moldada, como uma linda obra de arte. Evite a exposição descontrolada, use e abuse da arte e, principalmente, dê muito amor às crianças. Elas só precisam ser escutadas e levadas a sérios, pequenos momentos de liberdade e desabafo total, onde nenhum compromisso ou tarefa seja mais importante que o seu sorriso.

Se, por algum motivo, eu não ter mais tempo para trabalhar tanto, estudar tanto, ler tanto ou escrever tanto, pode ter certeza que eu vou estar ocupado demais tentando ser o melhor pai do mundo.


Emerson Teixeira Lima

Emerson Teixeira Lima é formado em História, especializado em História da Arte e aplicação do audiovisual na educação. Pesquisa cinema há anos e se interessa pelas mais diversas formas de expressão artística; já escreveu, atuou e produziu peças teatrais, além de desenvolver projetos sociais que relacionam cinema, teatro e fotografia..
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