Emerson Teixeira Lima

Emerson Teixeira Lima é formado em História, especializado em História da Arte e aplicação do audiovisual na educação. Pesquisa cinema há anos e se interessa pelas mais diversas formas de expressão artística; já escreveu, atuou e produziu peças teatrais, além de desenvolver projetos sociais que relacionam cinema, teatro e fotografia.

O homem como reflexo do lobo

De todos os animais, o lobo é um dos raros que representam coisas bem distintas, todas com a mesma força e repleta de significados. Em uma primeira camada, ele representa, em diversas culturas, o bem, por estar diretamente ligado com a força, agilidade e inteligência. Por outro lado, é sabido que há muito tempo o lobo tem sido atribuído ou mencionado como um ser envolvido com o mal. O interessante é que o que transforma ele nessa rede de diversas possibilidades é justamente as suas virtudes, ora, é difícil confiar nos estrategistas.


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“Espírito de Lobo” é o novo filme do diretor Jean-Jacques Annaud que, na maioria dos seus trabalhos, se dedicou a investigar a história da humanidade; obras como “O Nome da Rosa” e A “Guerra do Fogo” ultrapassaram a sua importância no audiovisual e atingiram diretamente a educação.

Em seu mais recente filme ele acompanha o jovem Chen Zhen, em plena década de 60, na China, que é enviado para viver com os nômades do interior da Mongólia. Em prol aos estudos e, ao mesmo tempo, terá a oportunidade de ensinar as crianças do local. Com a experiência ele têm a possibilidade de refletir sobre as diversas condições de vida e, principalmente, as similaridades que o homem possui com os lobos, uma metáfora para a sobrevivência, estratégia e força.

O filme é uma perfeita mistura das obras da Byambasuren Davaa, principalmente o “Caverna do Cachorro Amarelo” e, também, o filme da Islândia “Cavalos e Homens“. Isso porque nos mostra a vida dos nômades, algo que a diretora mongol faz com extrema competência nos seus documentários, inclusive com uma sensibilidade bem parecida; e se assemelha com “Cavalos e Homens” na sua contemplação do animal como forma de estabelecer uma conexão com o homem. Há ainda uma dedicação em discutir, nas entrelinhas, a natureza como uma força projetada no respeito para com todos os seres vivos.

Como a narrativa se apoia na naturalidade, há diversos intervalos de silêncio para a reflexão. O longa parece querer propor ao espectador, constantemente, uma viagem ousada. Adentrando uma forma de vida completamente diferente, onde o cultivo e o contato com a terra representam uma obrigação e o avanço intelectual é a aceitação dessa condição.

O protagonista chega ao interior com a oportunidade de ensinar, mas o faz em poucos momentos. Rapidamente a sua arrogância de menino estudado da cidade grande dá lugar a um tímido aprendiz, olhando o seu redor com muito fascínio por sentir vida em cada grama e sentir amor em cada lobo, mesmo que o animal represente a força, sobrevivência e morte, Chen Zhen os enxerga como seres superiores, deuses da inteligência, e existe um quê de milagre nessa percepção.

De todos os animais, o lobo é um dos raros que representam coisas bem distintas, todas com a mesma força e repleta de significados. Em uma primeira camada, ele representa, em diversas culturas, o bem, por estar diretamente ligado com a força, agilidade e inteligência. Por outro lado, é sabido que há muito tempo o lobo tem sido atribuído ou mencionado como um ser envolvido com o mal. O interessante é que o que transforma ele nessa rede de diversas possibilidades é justamente as suas virtudes, ora, é difícil confiar nos estrategistas.

Essa ideia de poder, unido com inúmeras outras características do lobo – como por exemplo o fato dos casais permanecerem juntos a sua vida inteira, ou seja, estruturação da família – nos faz compreendermos o porquê da grandiosidade do filme, resgatar todos esses conceitos e estabelecer uma conexão entre todos os personagens e dilemas, com isso, criar uma ponte com quem assiste, é realmente algo maravilhoso. Com um visual hipnotizante, ressaltando sempre as cores e a grandiosidade da paisagem – que envolve os personagens, culminando em uma cena que o protagonista adentra uma pequena caverna para pegar um filhote de lobo que se escondia dentro – é fácil creditar “Espírito de Lobo” como um ensaio sobre a fé, da forma mais pura que existe, contemplando o real, compreendendo que a caça e, consecutivamente, a morte, fazem parte da vida.

É citado ao longo Gengis Khan, que estudou estratégia com os lobos. E tem muita relevância essa observação, pois o filme fala de movimentos. Os jovens embarcam para uma jornada no interior, os lobos se locomovem para sobreviver, os nômades transitam para criar, enfim, existe uma sincronia a ser registrada, de forma tão carinhosa e orgânica, como o vento.

Esse desenvolvimento aprazível nos lembra da virtude em estar diante a vida, lembrando que sobreviver e viver são coisas bem diferentes mas, assim como os lobos, a dicotomia pode entrar em comunhão, mesmo que por um breve instante.

Resgata ainda cenas de verdadeiras batalhas, homem enfrentando os animais, a natureza e o seu próprio medo. Assistir filmes como “Espírito de Lobos” é entregar-se à um ritual, onde só apreciam aqueles que se doam por completo. Não à toa o diretor abusa dos closes nos lobos, como uma forma de nos aproximar do perigo, ou até mesmo estabelecer uma conexão com os deuses. Lembrando que em diversas culturas indígenas, os lobos também sempre foram a representação da magia na terra.

Shaofeng Feng dá ao seu personagem, Chen Zhen, uma doçura estonteante, a cada olhar demonstra uma humildade, reduzindo-se a um servo da vida, atônito diante a grandiosidade da natureza.

O filme têm como maior mérito essa intenção de transformar o simples e visual em poesia, exaltando aquilo que não se olha, de uma forma que não se sente. Brincando com o improvável e desmistificando a ingenuidade. Somos seres primatas primando pela singularidade, caminhando em direção a morte, mas, nem por isso, esquecendo de fazer uma épica jornada a caminho de uma explicação.


Emerson Teixeira Lima

Emerson Teixeira Lima é formado em História, especializado em História da Arte e aplicação do audiovisual na educação. Pesquisa cinema há anos e se interessa pelas mais diversas formas de expressão artística; já escreveu, atuou e produziu peças teatrais, além de desenvolver projetos sociais que relacionam cinema, teatro e fotografia..
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