Emerson Teixeira Lima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

Joaquin Phoenix e o seu duplo

Phoenix é amante do caos e, sem muita morosidade, consegue colocar em prática alguns pensamentos do Artaud ao reinventar-se de maneira insana, extraindo todas as suas forças para abraçar à transformação, envolvendo o espectador. Parece simples, mas é algo que só é possível por uma alma que aprendeu a descolorir o mundo ao seu redor, utilizando as cores roubadas para pintar um sorriso ou uma lágrima no rosto. Esse é Joaquin Phoenix; assistir o seu trabalho é morrer e encontrar esperança nas cinzas.


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Antonin Artaud, um dos maiores teóricos do teatro, sempre lutou contra o formato padrão da arte que mais lhe encantava. Exigia uma subversão individual do artista e, quando relatava as suas propostas para a transformação do teatro, era muito complicado dissociar os pensamentos da própria vida. Arte e existência caminham lado a lado, mesmo que muitos teimem em esquecer isso; Artaud considerava a arte como uma última estância, como uma linha imaginária onde, por motivos óbvios relacionados ao desprendimento, poderia ser a perfeita marcação do limite e como um ato libertador, de rebeldia, deveria ser ultrapassada. A arte superando os limites que a sua exposição traz.

A performance, nesse nível de pensamento, atinge o sentido de transgressão onde o ator se dilacera afim de encontrar o caos. O ato de mentir ser outro é como se o indivíduo conversasse com as suas profundezas emocionais, estabelecendo um vínculo entre o ser e os seus conflitos. O teatro seria uma brincadeira de “pestes”, percorrendo a inconstância da naturalidade, perturbação e insânia.

O cinema também possui a força de extrair dos atores essa performance desprendida, no entanto, apesar das ferramentas técnicas para acrescentar pontos nessa ambição, – como ângulos de filmagem, montagem, efeitos especiais etc. – é muito complicado, hoje em dia, separar o ator do seu nome. O cinema popular vende os seus filmes em base aos atores que por consequência são grandes estrelas. Isso abre espaço para interpretações superficiais que, por esse e outros motivos, ganham seguidores e rios de dinheiro.

Evidentemente há muitas exceções. Uma delas é o ator Joaquin Phoenix que, sem sombras de dúvida, é um dos nomes mais relevantes do cinema atual, principalmente pela sua inconformação com o padrão e violação do próprio nome. É um exemplo claro de um ator quebrando a sua própria imagem, se despindo, e se ausentando de brilho. Há um grande números de fãs e apreciadores que seguem o seu trabalho, mas sempre são jogados de um lado para o outro com o potencial de Joaquin em surpreender, na maioria das vezes, com papéis completamente tortos e obscuros.

Ele começou sua carreira cedo, ao lado do irmão River Phoenix – considerado um dos jovens mais talentosos de sua época – e sentiu de perto a tristeza em torno da sua precoce morte, o que o fez abdicar da sua carreira como ator. Joaquin percebeu a atuação como um perigo pela exposição, compreendeu na época “o perigo de se deixar levar”, isso pensando exclusivamente na arte como produto, pois esse fato lamentável o desconstruiu de tal maneira que ele passou a morrer para enfrentar cada personagem que interpreta.

Por insistência de amigos, Joaquin Phoenix voltou a atuar e sua carreira começou a ganhar formas em 2000, quando recebeu uma indicação ao Oscar por seu papel em “Gladiador”. No mesmo ano, começou uma parceria duradoura com o diretor James Gray – grande nome do cinema independente norte-americano – com o filme “Caminho Sem Volta”.

A sua proposta de atuação começa a ser desenhada de forma lenta, mas desde os primeiros filmes é possível observar uma série de características que o faziam uma promessa, principalmente quando relacionado com a naturalidade que ele emprega em seus personagens. Dono de uma beleza penetrante, ela vai muito além da pura estética, além de não se encaixar nos padrões de beleza, sua postura, olhar, gestos contidos chamam a atenção, sua presença é notada mesmo que em segundos e a sua entrega é constante. Phoenix renasce das cinzas a cada contato que faz, absorve as melhores coisas dos diretores que trabalha, sem perder a sua própria identidade de solitário e excêntrico.

A sua afeição pelo minimalista é encantadora, assim como o seu trabalho exala uma propriedade dominadora, parece muito fácil e sólido, como se tudo seguisse um plano perfeito. Um terrível plano desorganizado.

Em “Dogma do Amor” ele trabalha com o diretor Thomas Vinterberg, um grande nome do cinema dinamarquês, que ficou muito conhecido por criar, ao lado do Lars Von Trier, um manifesto chamado “Dogma 95”, cujo objetivo era quebrar algumas regras do cinema convencional. Esse filme é uma loucura total, o protagonista parece sugado pela falsidade e se vê preso em questões extremamente relevantes que se mesclam com a ficção científica e filosofia.

Os próximos filmes escolhidos são “Johnny & June” e “Os Donos da Noite”. No primeiro ele interpreta um dos maiores nomes da música mundial, Johnny Cash, explorando a sua habilidade vocal e criatividade ao criar uma versão própria de um ícone, o que certamente traz enormes responsabilidades. O personagem parece perfeito para um ator acostumado com a rebeldia; ele consegue ir do sonhador até o completamente consumido pelo sucesso e amor em questão de segundos, inclusive é uma transição que acontece de forma tênue. Outra obra relevante é “Os Donos da Noite”, mais uma parceria com o James Gray e que também traz consigo essa quebra de identidade, onde um personagem precisa decidir qual lado seguir; sua atuação é magistral, começa transmitindo uma segurança inquebrável e vai, aos poucos, se rendendo diante de uma maldição familiar.

Pronto! com os exemplos citados acima compreendemos que, além da vida pessoal, Phoenix aprendera com sua arte expressiva que a transformação é inerente ao ser e, para atingir a perfeita metamorfose, é preciso sucumbir à trajetória. Não existe segurança sem medo; esperança sem humildade; desejo sem o sucesso; infinitas versões de si, todas, sem exceção, sendo corrompidas.

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“Traídos pelo Destino” é um conto de muitas vidas sendo encontradas por meio de um evento específico. Dois atores se destacam muito nessa obra: Jennifer Connelly e Joaquin Phoenix, Grace e Ethan, respectivamente. Grace, desde o começo, não consegue agir dada as circunstâncias catastróficas que acontecem em sua vida, portanto, a força de equilíbrio precisa ser do Ethan, o pai. Novamente há uma transição clara entre o controle emocional e a loucura total, a cena em que as emoções explodem é de cair o queixo e, se melhor dirigida, poderia certamente credenciar o ator para mais uma vaga entre os indicados ao Oscar, pela terceira vez.

É válido ressaltar um documentário narrado por Joaquin chamado “Terráqueos”, de 2007. Esse documentário é um alerta sobre as condições que os animais enfrentam, o consumo desenfreado, enfim, é uma ode ao vegetarianismo. O ator é vegano, participa de uma série de grupos sociais e é abertamente a favor dos animais.

Fechando a primeira parte, a terceira parceria do ator com o James Gray aconteceu em “Amantes”, de 2009. Esse filme aborda um homem que se vê preso em duas possibilidades distintas, duas mulheres e duas histórias. É uma obra nada romântica que preza pela realidade, dando mais valor às pretensões e desejos individuais do que criar uma relação bonita e perfeita, onde os interesses de todos estão em comunhão.

Na divulgação de “Amantes” aconteceu algo que marcaria a quebra, literal, do ator: a entrevista com o David Letterman. Na verdade a entrevista é uma extensão de uma proposta artística, quase vanguardista, de criar um vínculo direto entre a arte performática e o arquétipo criado pela fama, incluindo todas as maravilhas que ela dá ao artista e todas as dores.

Joaquin ficou barbudo, engordou e anunciou a aposentadoria da carreira de ator para, em sequência, se entregar ao hip hop. Sua figura na entrevista provoca o entrevistador e a platéia, a sua postura incomoda. As poucas palavras, esquecimento das coisas mais básicas sobre o seu recente trabalho e, principalmente, indiferença para com o seu próprio nome também são pontos interessantes.

Na verdade, esse evento único e corajoso era para promover um falso documentário, cuja pretensão era usar a imagem do ator como uma ponte para o seu rompimento. I’m Still Here, dirigido pelo Casey Affleck, trazia a intimidade de Joaquin, bem como a sua loucura cotidiana. É a jornada de um homem especial, forçado a ser comum, se entregando ao âmago do ódio pela realidade. O artista quando atinge a antipatia pela realidade se vê obrigado a se refugiar na sua criação, algo que Phoenix faz com elegância. Em contraponto, sempre quando aparece “de cara limpa” em entrevistas ou raras participações em festivais e premiações, ele sempre é estranho, soa um pouco constrangido e agressivo, talvez porque a realidade é o lar que ele recusa constantemente. O único personagem que Joaquin Phoenix não sabe interpretar é ele mesmo, com todos os seus demônios.

Algo grandioso acontece em I’m Still Here. A coragem que todos os envolvidos tiveram em enfrentar a indústria, criando suas regras e deixando-os a deriva em meio as reais intenções por traz da mentira, é monstruosa. O artista que atinge a fama, principalmente hoje em dia, deve explicações diariamente para todos, seja as produtoras ou jornalistas, portanto o documentário é apresentado como tal, mas funciona como um portal místico de purificação, onde o indivíduo é capaz de se ausentar de luzes e atenções, principalmente atitudes padronizadas para manter a ordem, e se ater ao projeto corporal e emocional de viver uma outra história, lidando com a atuação como um refúgio da normalidade, brincando com o caos como se fosse uma boneca de porcelana, sem medo de quebrar pois já conhece ou sente o seu limite.

Depois de ter engado a todos, Joaquin corria o risco de nunca mais ser chamado para nada de grande relevância, muito menos no grande cinema. Eis que surge um homem chamado Paul Thomas Anderson. PTA, como é conhecido, é um adorador de cinema e sempre se mostrou muito entregue ao independente e visceral, busca referências ocultas na história da sétima arte ou na música. Certamente assistiu e se impactou com o documentário I’m Still Here, enxergando no protagonista insano a perfeita representação de um personagem que trabalharia em “The Master”.

Em “O Mestre” não se sabe ao certo quem dá as regras. O mestre, como era de se imaginar, cria o seu seguidor mas se vê preso dentro da sua evolução, o homem racional e sua total insânia se confundem; há uma proposta primitiva, um ser rastejante sobrevivendo entre a gasolina, guerra e sexo.

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Se sabe que Paul Thomas Anderson pediu para Joaquin Phoenix assistir ao documentário-ficção “On The Bowery“, então restou ao ator criar um universo caótico dentro de si, sua figura está torta, desenfreada, animalesca e irracional, um selvagem vítima das torturas da guerra – literal ou espiritual? – que se entrega ao álcool e transa até com uma representação da mulher… Feita com as areias da praia. É um personagem complexo, que só poderia ser interpretado por alguém capaz de atingir um nível épico de entrega, sem se limitar as inseguranças que a exposição traz, principalmente em um tema como em “The Master”.

“Ela”, de Spike Jonze, também poderia ser usado como representação perfeita da versatilidade do ator em compor expressões que afastam qualquer possibilidade de crítica, nesse belíssimo filme sobre isolamento emocional e físico, ele se entrega à sensibilidade: seus movimentos são suaves, delicados e sua voz é doce. Um personagem que se apaixona por uma voz, um celular, uma maravilha que não existe em canto algum, senão, no coração, seja do protagonista ou daqueles que assistem. “Ela” representa um sentimento de carinho mútuo, também conhecido como amor.

Em “Vício Inerente”, novamente parceria com Paul Thomas Anderson, Joaquin se entrega ao divertimento, um personagem sujo, transitando por entre personagens e calçadas estranhas, vazias e acolhedoras. É uma grande brincadeira inteligente com o gênero noir e os anos 70, auge do movimento hippie – há quem diga que Phoenix começou a andar descalço após gravar esse filme, cuja experiência de filmagens foi maravilhosa, segundo ele.

Em “Homem Irracional” ele faz uma parceria com Woody Allen que já afirmou em diversas entrevistas que escolhe minuciosamente os atores com quem irá trabalhar – o que me faz imaginar como o vovô Allen reagiu assistindo “The Master” e o que o fez ter escolhido Joaquin para interpretar o seu famoso personagem alter ego professor de filosofia-existencialista-pessimista. Inclusive, algo interessante de se notar, é que a maioria dos filmes de Woody Allen, os atores que interpretam seus personagens sempre aderem características típicas do diretor, mas Joaquin se preocupa em se distanciar desse esteriótipo e cria um personagem sedutor, com uns quilinhos a mais e expressões de derrota emocional, provocadas pelo conhecimento.

É um filme que, pessoalmente, não chamou a minha atenção – principalmente por causa do terceiro ato – mas ainda assim marcou minha vida pela parceria entre um dos meus ídolos ( Woody Allen ) com o meu ator ( do grande cinema americano ) atual favorito.

Em conclusão, Joaquin Phoenix sempre se explorou de forma muito orgânica, extremamente natural e simples nas composições, sem perder a força e o impacto, o que certamente é muito complicado. Apesar de ter um nome e rosto conhecido, consegue, por meio do excelente trabalho, fazer-nos esquecer quem é, há uma relação íntima de despimento onde o salto de um personagem para o outro acontece sem artifícios ou caminhos fáceis de atuação, como uma mudança física muito grande – que não seja em base à própria expressão facial ou corporal – tudo acontece de forma mais realista possível.

Phoenix é amante do caos e, sem muita morosidade, consegue colocar em prática alguns pensamentos do Artaud ao reinventar-se de maneira insana, extraindo todas as suas forças para abraçar à transformação, envolvendo o espectador. Parece simples, mas é algo que só é possível por uma alma que aprendeu a descolorir o mundo ao seu redor, utilizando as cores roubadas para pintar um sorriso ou uma lágrima no rosto. Esse é Joaquin Phoenix; assistir o seu trabalho é morrer e encontrar esperança nas cinzas.


Emerson Teixeira Lima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência..
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