Emerson Teixeira Lima

Emerson Teixeira Lima é formado em História, especializado em História da Arte e aplicação do audiovisual na educação. Pesquisa cinema há anos e se interessa pelas mais diversas formas de expressão artística; já escreveu, atuou e produziu peças teatrais, além de desenvolver projetos sociais que relacionam cinema, teatro e fotografia.

Discutindo a autonomia em base a Paulo Freire

Autonomia parece significar, em uma essência filosófica do mundo moderno, uma discrepância no que diz respeito ao processo de crescimento. Começando pela infância, há uma ideia impregnada no sentido de criar a criança para si, protegendo-a da verdade de modo que o seu desenvolvimento represente tão somente um reflexo do caráter, inseguranças, medos, entre outros sentimentos da família. Em um processo de análise, mas contendo e explicitando a não generalização, o que parece é que, na contemporaneidade, apesar do conceito “autonomia” ser exigido nas melhores universidades, mercado de trabalho e outros diversos segmentos sociais na vida adulta, o indivíduo em sua base escolar e, principalmente, na educação em casa, acaba muitas vezes sendo limitado da possibilidade de se atrever, tal como nossa essência exige.


Se de um lado temos a ideia impregnada subliminarmente de que nosso voo é limitado por um teto, ou seja, que enquanto inseridos em uma realidade social, partimos da desigualdade e as conquistas permanecem estagnadas em um campo utópico, que raros são os que alcançam, de outro, no campo de interesse da criatividade, ludicidade, entre outros, somos completamente jogados à margem, como se o interesse pelas artes, seja na teoria ou produção, significasse tão somente uma perca de tempo, desemprego e afins. Não há incentivo dos dois lados, sendo o segundo ainda mais prejudicado pois, se não bastasse, é completamente deslocado em uma sociedade que corre contra o tempo para se adaptar às demandas do mercado.

A palavra “autonomia”, etimologicamente, possui origem grega, o adjetivo autos significa por si mesmo e nomos pode ser instituição, lei, convenção, ou seja, quando a lei é dada por si, quando o sujeito se orienta, torna-se independente, tem-se a ideia de que a pessoa vive sob a autonomia. É portanto uma afronta ao processo cognitivo linear, ao qual estamos sujeitos no dia a dia e que a sociedade autoritária grita afim da uniformização; ainda que na prática, se Paulo Freire quebrou paradigmas ao estabelece-la como ferramenta imprescindível para a educação, não podemos recusar a verdade escancarada de que, atualmente, incentivar a autonomia nas salas de aula parece ser ainda mais difícil, visto que se trata de um elemento que as próprias famílias não aderem como prioridade. Se não bastasse esse conflito imediato, há ainda a popularização da ignorância em se imaginar o desprendimento da perspectiva, ou seja, buscar a verdade tal como é em base à ideias dicotômicas, como se fosse doutrinação de valores. Quando Paulo Freire menciona o fato de que educar é também auxiliar a pensar certo, fatalmente ele não está dizendo que existe somente uma conclusão, mas que o caminho a se percorrer fica mais limpo ao passo que a comunicação se abre e os dois lados se enriquecem através do ensino e aprendizagem e isso se dá exclusivamente pela quebra da imagem do professor como entidade portadora de toda ciência, que se distancia enquanto ser humano para atingir uma apoteose, onde permanece seguro há três degraus acima daqueles que ensina.

Ilustrando isso de modo simples: imagine um professor que se mantém superior aos alunos que o observam com atenção de modo a receber as informações e registrar. Pense no inverso, um professor que confronta e inclui os educandos na discussão da aula, procura relacionar o conteúdo com a vivência do aluno e, por esse método de conexão entre vivência e conteúdo, aprende constantemente na tentativa-erro de se adaptar às diversas necessidades que existem em somente uma única sala de aula. Quando Paulo Freire fala que professor aprende com o aluno, é nesse sentido, há muita superficialidade, tendenciosidade e ignorância de quem teoriza sobre as ideias de Freire e descontextualiza de modo a jogá-lo na prateleira de um mero doutrinador socialista.

Pensando em educação – mas tentando não reduzir-se somente a esse caminho, pela abrangência do tema – Paulo Freire não ignora em nenhum momento os saberes fundamentais, ele somente aponta que é preciso que o fundamental não feche em si, que por essência constitua-se do senso crítico, da progressiva construção de mundo, seja exterior ou interior. E não se trata disso a vida? a sobrevivência é fundamental, para isso o indivíduo precisa do quê? profissão? qual é essa profissão, quais campos de conhecimento ele utiliza dia a dia ou necessita adquirir para se sustentar e, consecutivamente, sobreviver? mas, e ai entra o conflito filosófico, deveríamos nos preocupar somente com o fundamental? seria essa atitude uma conformidade, de que modo entenderíamos o que é, de fato, fundamental, sem nos deslocarmos para enxergá-lo sob outra perspectiva?

De fato a autonomia se atrela com a curiosidade. Uma criança ao se deparar com um mapa, o compreende não só como um instrumento de localização, representação geográfica ou análise de dados, como também vê em sua imagem e distribuição uma possibilidade de brincar, por isso crianças são as maiores cientistas do mundo, elas possuem curiosidade e enxergam pequenos detalhes ou objetos como possibilidades para imaginar além, mesmo que não se aproxime nem um pouco da realidade. Quando um professor limita a curiosidade do aluno em troca da memorização de dados, ele está tentando adaptá-lo ao mundo e ignorando fatalmente o mundo do aluno que está sendo criado a cada instante.

Na sociedade moderna, principalmente pela louvação da ignorância que estamos vivenciando, cada vez mais a autonomia se estabelece como perigo iminente. O poder começará a banalizar as expressões artísticas, criatividade, autonomia, e senso crítico, usará como justificativa o incentivo de ideologias, ao passo que configura e transforma uma outra. Todas, quando impostas, são nocivas à saúde física e mental, no entanto, é preciso deixar claro que a arte em qualquer forma de expressão é tudo o que nos resta para a revolução. Autonomia é banalizada por diversas instituições sociais, pois representa o mal da libertação, é seguro manter o homem contido em amarras, não há perigo do confronto dessa forma sendo que, de outro modo, sempre haverá. Quando se faz arte, quando se permite quebrar as cascas, toda sociedade muda de cor e as linhas que nos controlam se destacam facilmente dentre tantas outras manipulações. A poesia dói nesses filhos da puta – Paco Urondo.


Emerson Teixeira Lima

Emerson Teixeira Lima é formado em História, especializado em História da Arte e aplicação do audiovisual na educação. Pesquisa cinema há anos e se interessa pelas mais diversas formas de expressão artística; já escreveu, atuou e produziu peças teatrais, além de desenvolver projetos sociais que relacionam cinema, teatro e fotografia..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Emerson Teixeira Lima