tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

A Imaturidade Autêntica

Será que amadurecemos com o passar dos anos, ou simplesmente envelhecemos? O que muda em nós com o tempo, além da pele enrugada, dos cabelos brancos e de um corpo enfraquecido? Este artigo trata da importância do ser humano saber-se finito e encarar sua mortalidade de maneira a canalizar suas angústias e medos de forma criadora e autêntica.


Desde pequena tenho a mania mórbida de pensar na morte. Penso sobre a minha própria morte e daqueles que amo com uma frequência meio absurda. Vivo no futuro. Imagino como seria a vida sem eles. Sem mim. Olho em volta como quem saiu, voltou e pôde analisar a história, os contextos sem seus personagens.

Moro fora do Brasil e sempre que volto a passeio, caminho por ruas tão conhecidas e mesmas, porém totalmente cambiadas em seus detalhes. Imagino que a morte é assim também. Uma loja diferente, outra que faliu, um sorriso que se foi. Mas as esquinas continuam iguais. Como um filme que revemos após muitos anos. O ar, os cheiros, o suor que emana de cada poro ao passear pelo centro do Rio em janeiro continua o mesmo. A morte é uma mudança enquanto a vida segue.

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Tempo é algo que me fascina e apavora na mesma medida. Por mais que eu leia a respeito, não consigo entender, de fato, a ideia de tempo. Estamos constantemente em rotação e não percebemos. Assim é o tempo para mim. Aquilo que é constante e imperceptível, mas que de alguma maneira caracteriza toda a nossa existência.

Na infância e adolescência, imaginava que quando fosse adulta seria, saberia, entenderia. Hoje aos 37 anos, ainda não sou, não sei e não entendo nada. As mudanças físicas são aparentes, como as marcas que as alegrias e as tristezas vão deixando no rosto, os cabelos que mudam de tom, o cansaço após noites mal dormidas. Estes câmbios, são fáceis de detectar. Porém, o invisível e interno não se modificou com a mesma frequência.

Claro que, dos meus 20 para cá, muita coisa mudou, mas a sensação interna de ainda ser aquela criança conhecendo o mundo, não. Com o tempo, damo-nos conta de que ninguém se sente de fato adulto. Nunca. Pelo menos ninguém com quem eu tenha conversado. Ser adulto parece ser uma construção para sentirmos como se caminhássemos em direção à algo, à uma espécie de sabedoria qualquer, sei lá. Mas o que é então a tal sabedoria, se é que ela existe?

Todos sabemos que vamos morrer, mas para mim, a única coisa que se torna mais evidente com o passar dos anos é justamente a proximidade com o fim. Qual a relação entre o nosso fim e nossa maturidade? Pois bem, a relação é justamente que, a medida que vamos vendo a linha de chegada, priorizamos as nossas ansiedades, nossas vontades. Tudo que antes vinha em um turbilhão, agora é selecionado. Afinal, sabemos não ter tanto tempo para dar vazão a tudo. As vergonhas, as inseguranças, os medos infantis continuam lá, porém agora há algo mais importante a frente: a morte iminente.

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O filósofo Martin Heidegger, em sua obra "Ser e Tempo", tratou deste assunto quando escreveu a respeito do que ele chamou de ser-para-a-morte. Em tal livro, a angústia e a possibilidade de morte, são os ingredientes para colocarem o ser em uma existência mais autêntica. Esta busca pela autenticidade, algo em baixa nesta era digital em que vivemos, parece-me ser um bom caminho para atingirmos nossa imaturidade em toda sua plenitude. Digo "imaturidade" pois já tenho entendido que o conceito de maturidade baseia-se nas rugas do corpo enquanto matéria e não em nossas experiências subjetivas. Somos, neste sentido, ao meu ver, eternamente imaturos.

Quanto mais encaramos a morte de frente, mais o medo nos enche de coragem criadora. Não criadora no sentido de todos nos transformarmos em artistas, mas no sentido de criarmos nossos momentos, antes de sermos engolidos pelo avassalador nada das vidas carimbadas e xerocadas.

Vamos morrer. Fato. Mas e agora, o que vamos fazer antes da vida contornar nossas esquinas? Antes do papel ser tirado das nossas mãos a força e deixarmos somente um rabisco de quem fomos no ar?


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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