tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

O Espectador

Quando vemos uma peça ou assistimos um filme, ainda que estejamos imóveis em nossos assentos, modificamos ou somos de algum modo modificados pelo que estamos vendo? Quanto de nós vai naquilo que vemos e interpretamos? Existe arte sem um espectador que imbua de significado o que está sendo visto?


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Um dos filmes que mais marcou minha adolescência foi A Sociedade dos Poetas Mortos. Lembro-me com certa nostalgia de finalmente encontrar em um filme , tanta poesia, humanidade e sensibilidade artística juntas. Naquele tempo, na decadência dos meus 13 anos, eu ainda frequentava a escola. Sofria calada e escrevia poesias em qualquer pedaço de papel que encontrava. A vida eram reticências.

Foram tempos difíceis. Tempos de guerra entre mim e eu mesma; entre mim e um mundo quadrado que teimava em me deformar. Vivenciava e participava junto com os personagens do filme das reuniões da sociedade dos poetas mortos de forma tão inteira que, por primeira vez , me (re)conhecia. A menina meio zumbi que vagueava para a escola sem rumo, pasmem, ganhava vida assistindo a um filme. Posso dizer com tranquilidade que vivi, de fato, minha adolescência em filmes, nos diversos livros que lia, nas poesias e não na vida ativa do dia a dia.

Hoje, graças a neurociência, sabemos que existem neurônios em nossos cérebros, chamados neurônios espelho que são ativados tanto quando fazemos algo, quanto quando observamos o mesmo ato feito por outrém.

De acordo com estudos, a resposta dos neurônios é um pouco menor durante a observação, mas não de forma significativa. Esses neurônios funcionam e atuam na intencionalidade dos objetivos de outras pessoas . Eles interpretam o que estão vendo nos dando a capacidade de deduzir o que outros possam estar pensando, sentindo. Tudo isso, claro, a partir de nossas próprias percepções. A única maneira de inferir comportamento, é espelhando no outro nossa própria forma de agir em situação semelhante. Mas entao você me pergunta, o que tem isso a ver com os filmes que vemos, os livros que lemos, os sons que ouvimos?

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Sentadinhos no cinema, comendo nossa pipoca, modificamos o filme que vemos através do modo como o interpretamos? Alguns dizem que no teatro sim, já que o outro está ali no palco de corpo presente podendo trocar olhares, sons em tempo real, sensações etc., mas no cinema não. Afinal, o filme já está gravado e os diálogos, bem como as cenas, não mudam. Será?

Eis que recentemente resolvi rever meu filme favorito de outrora, Sociedade dos Poetas Mortos. Qual não foi a minha surpresa ao não me emocionar tanto com a história. Ainda achei um bom filme, mas sinceramente, não teve o mesmo impacto que antes tinha. Não encontrei a profundidade antes percebida em cada fala, em cada cena. Fiquei um tanto desapontada. O que mudou? O filme? Eu?

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Para mim, não necessariamente um nem outro mudaram em si, senão a relação intrínseca entre eu e o filme. Vejo nossa relação com a arte como uma via de mão dupla. A arte está ali e seu objetivo é o de tentar transmitir algo. Porém, cabe a nós, espectadores, em meio a esta relação, definir o que é este algo que a arte está transmitindo. Ou seja, o espectador é o próprio significado. Este significado pode variar de acordo com muitas coisas, entre elas a hora do dia, se você está sozinho ou acompanhado, o momento de vida e até alguma expectativa prévia ou não. Qualquer coisa pode ou não ser um fator a determinar nossa percepção de algo.

No caso específico do Sociedade dos Poetas Mortos, o mais provável é que o contexto aonde estou inserida, ou seja, o meu ponto de referência, seja outro. Mais ou menos como quando no filme o professor pede aos alunos que subam nas mesas para ver as coisas sob um outro ângulo. A sala de aula vista de cima imediatamente tem um outro aspecto, as janelas com a altura alcançada pela mesa, transformam-se quase em portas, possibilitando assim, com o simples esticar de uma perna, escapar de toda uma realidade sufocante.

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Nossos ângulos mudam, se reconstituem em outras formas, e com isso modificamos o que vemos a cada instante. O filme que eu via, definitivamente não é o mesmo filme que eu vi, nem será o mesmo que verei no futuro, se um dia o fizer . E muito possivelmente, nenhum deles foi o filme concebido pelo diretor, pelo autor ou por outros espectadores.

Afinal, o espectador ainda que passivo, vivencia e interpreta o que está vendo a cada instante. A arte é vivida tanto pelo artista que a faz quando pelo espectador, que também modifica o que está vendo. Simplesmente são movimentos distintos. O artista puxa de dentro para fora enquanto o espectador puxa de fora para dentro. Embora o artista seja, ele também, sempre, seu próprio espectador, ressignificando-se, em cada re-leitura de sua obra.

Talvez a arte da vida seja como os quadros nos museus que, ainda que cheios de cor, necessitem de olhos que as façam brilhar e encontrar significados em si mesmo, dentro do outro.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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