tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

Somos Mulheres?

Queimamos os sutiãs. Usamos calça e paletó. Votamos. Nos divorciamos. Casamos outra vez. Trabalhamos. Reivindicamos. Mas e agora? Como é, afinal, ser mulher em pleno 2015 no ocidente?


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Sabemos que o Feminismo enquanto movimento tinha como objetivo os direitos iguais entre gêneros e que teve papel fundamental na proteção dos direitos humanos da mulher e de romper com padrões estagnados de uma sociedade patriarcal, onde a mulher não possuía voz ativa.

Também sabemos que, em muitos casos, ainda há caminho(s) a ser(em) desbravado(s) neste sentido, mas toda vez que se fala ou leio pelas redes sociais sobre este assunto, a pergunta que gostaria de plantear primeiro é : o que é ser mulher? Ou seja, como determinamos a diferença de gênero?

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Simone de Beauvoir, em 1949, no livro entitulado Le Deuxième Sexe ( O Segundo Sexo) , já dizia que não nascemos mulheres e sim nos tornamos mulheres. Para ela, ser do sexo feminino e ser uma mulher são coisas inteiramente distintas e dependem das nossas escolhas. Claro que, em pleno movimento Existencialista da época quase tudo partia da ideia de escolhas e tal, mas ainda assim acho que esta frase da Beauvoir procede nos dias de hoje. Se ser do sexo feminino e ser mulher não são a mesma coisa, como sabemos que somos mulheres?Alguns podem dizer:

- Ser mulher é quem nasce com cromossomos XX

Refutação: Tome uma pessoa que nasceu em corpo de homem (sexo masculino) e que, aos 20 e poucos anos resolveu, através de cirurgias, mudar de sexo. Esta pessoa é menos mulher ou menos homem por causa disso? Suspeito que não.

- Ser mulher é ter a capacidade de gerar um filho e amá-lo incondicionalmente

Refutação: Lembram das escolhas da Beauvoir? Bom, em pleno 2015 quero pensar (estou me sentindo otimista hoje) que podemos escolher nossa relação com nosso corpo, com o mundo e tudo mais. Também podemos escolher não ser mães, ou ser e não amar incondicionalmente ninguém e, pasmem, tudo isso sem deixar de ser mulher.

- Ser mulher é não se importar com o que pensam e andar com a roupa que quiser, falar o que der na telha e dar para quem quiser

Refutação: Qualquer pessoa pode fazer isso. Não é exclusivo do gênero feminino.

Reparem que qualquer tentativa de resposta a esta pergunta sobre o que é ser mulher, quase sempre acaba sendo o oposto de qualquer ideia de igualdade entre gêneros. Afinal, definir o que é uma mulher já é em si uma maneira de reprimi-la, de fechar um quadrado sobre a ideia de mulher em si.

Moro na Suíça e algo que me chamou a atenção quando cheguei aqui é que há um maior respeito para com a mulher, no sentido de que os homens não vão sair te cantando na rua porque você está de saia curta etc. Para falar a verdade, as pessoas não se olham tanto, não se objetificam tanto, o que acho legal.

Mães de filhos pequenos geralmente não trabalham fora, e este trabalho no lar é bem visto e respeitado pela sociedade em geral. Como mães na era moderna, estamos acostumadas a nos sentirmos culpadas por não estar trabalhando fora ou por estar trabalhando e ter pouco tempo com os filhos devido a correria do dia dia.

Aqui, é inclusive mais vantajoso financeiramente para o casal, se um dos cônjuges ficar em casa com as crianças, já que há um incentivo do governo neste sentido e as taxas aumentam barbaramente quando ambos cônjuges trabalham e têm filhos.

Por outro lado, vemos ainda poucos homens suíços cumprindo esta função, o que demonstra que a sociedade suíça não é tão igualitária como alguns podem imaginar. Foi inclusive o último país da Europa, com exceção de Luxemburgo, a conceder o direito de voto às mulheres em, pasmem, 1971!

Dependendo do seu modo de ser, isso pode ser bom ou ruim. Para as mães que gostam ou precisam trabalhar fora, a situação aqui pode ser um tanto complicada no sentido de organizar os horários, mas não impossível. Ambas escolhas, porém, são amplamente respeitadas. Para mim, confesso, não precisar explicar para todos o por quê de eu não estar trabalhando fora de casa desde que o meu filho nasceu, foi um alivio.

Afinal, somos de uma geração de mulheres que se cobram tudo ao mesmo tempo. Ser mãe, mulher, ter uma carreira de sucesso, cozinhar e estar com o corpinho em dia. Não é a toa que a mulherada anda por aí se plastificando e tomando bolinha para sobreviver a mais um dia. Também não estou dizendo que é uma desculpa para fazer essas coisas.

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No fim das contas, quem está criando este estereótipo da mulher maravilha? Será que são os homens e a sempre culpada sociedade patriarcal ou somos nós que, em meio ao desespero de lutar pelos nossos direitos, decidimos provar que não somos o sexo frágil criando uma falsa ideia de perfeição?

Na minha opinião, a pergunta em pleno 2015 não deveria ser mais o que é ser uma mulher e sim de que maneira somos mulheres? Há vários modos de ser mulher e não existem moldes.

Quero, claro, que continuemos a defender o ser humano de abusos, de preconceitos, e que reivindiquemos nossos direitos. Mas hoje em dia, pelo menos para mim, já não cabe mais falar somente sobre os direitos da mulher, pois afinal nem sabemos o que é ser mulher exatamente.

Lutemos, pois, por um mundo mais leve, com mais amor e maior tolerância. Para todos. Mulheres ou não.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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