tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

Os Sonhadores

Os Sonhadores de Bertolucci são um pouco arquitetos, incessantes voyeurs, sádicos e até perversos. Mas são, sobretudo, adolescentes que sonham escapar de um mundo de guerras, fazendo suas próprias guerras interiores. Os sonhadores criam e vivem suas loucuras. Mas será que existe, de fato, loucura para quem sonha? Para quem observa através da lente do sonho, ignorando o que está ao redor, existe normalidade? Existe terra para aqueles que aprenderam a voar?


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O sonhador é um observador. Não no sentido de ser aquele que sempre presta atenção nos mínimos detalhes, como o faz um detetive ou alguém possuidor de uma mente exata e calculista. Não, o sonhador seleciona o que quer observar. Como quem escolhe uma lente de sol mais clara ou mais escura dependendo da claridade e da disposição do olhar.

O sonhador vê o que quer ver. Ele inventa a realidade. Afinal, o que é a realidade se não um amontoado de percepções daquilo que acreditamos estar vendo, sentindo, vivendo?

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Os sonhadores de Bertolucci, mostram como é possível, ao sonhar, viver as mentiras e as verdades com igual intensidade. Os sonhadores fingem como personagens de um filme. Brincam de sonhar de tal maneira que os filmes acabam sendo mais reais que a própria vida. Ocorre uma inversão do que normalmente entendemos pela ideia de arte. Os amigos Theo, Isabelle e Mathew, vivem seus sonhos, alienados na vida imitando a arte.

Geralmente falamos de como a arte imita a vida. Em Os Sonhadores, somos confrontados com a ideia da vida como imitação. A vida como repetição. A vida como um amontoado de clichês, ao melhor estilo "nada se cria, tudo se copia". A tentativa de ser diferente, geralmente esbarra na percepção, ao olhar mais atento, de que não há nada de diferente em tentar ser diferente.

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Um sonhador é um cineasta. Perambulando com uma câmera na mão, filmando a vida através do espaço circunscrito de um buraco de fechadura. Um buraco de fechadura é uma nuance, um espaço de abertura e vislumbre a vida alheia, porém limitada pelo tamanho de sua circunferência.

O cineasta é um sonhador que enxerga o que as portas fecham; o que os lábios molham e os corpos encerram.

Os sonhadores criam e vivem suas loucuras. Mas será que existe, de fato, loucura para quem sonha? Para quem observa através da lente do sonho, ignorando o que está ao redor, existe normalidade? Existe terra para aqueles que aprenderam a voar?

O sonhador, para voar, precisa fabricar suas asas oníricas, como o faz um cineasta que arquiteta suas imagens, editando assim, o sonho imaginado. Ao preencher de sonho as lacunas entre uma imagem e outra, a história ganha forma e está pronta para ser contada, vista, repetida e imitada.

Os Sonhadores de Bertolucci são um pouco arquitetos, incessantes voyeurs, sádicos e até perversos. Mas são, sobretudo, adolescentes que sonham escapar de um mundo de guerras, fazendo suas próprias guerras interiores. Uma cena marcante neste sentido é quando Mathew e Isabelle vão ao cinema sozinhos por primeira vez, e ao sair beijam-se e, embebidos em romance, não se dão conta da guerra civil que ocorre do lado de fora da sala de cinema. Somente ao sair, veem os resquícios do tumulto político que assolava as ruas de Paris. O lixo empilhado nas esquinas, tão distante e ao mesmo tempo tão perto das carícias e beijos por eles trocados em seletiva alienação.

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Há uma constância no universo onde padrões e formas se repetem de maneira misteriosa. Não sabemos a razão de tais padrões, mas uma mente afinada com a natureza sabe reconhecer as metáforas que nos circundam.

Uma mente que sabe voar, constrói sua realidade encaixando seus sonhos no mundo visível, como bem o demonstra Mathew no princípio do filme na cena do jantar com a família de Theo e Isabelle.

O problema é que o sonho alienante, o sonho alado, ele precisa também de uma conversação com a realidade compartilhada. De outro modo, o voo é curto. Não dura. As asas se quebram com a fragilidade do sonho que precisa de alicerces retirados de outras realidades.

A relação incestuosa entre os irmãos, quando vista por Isabelle através da ótica dos seus pais,é um exemplo de como as asas podem ser curtas demais para sustentar o sonho. A vergonha que ela sente ao ver-se como personagem de uma história potencialmente horrenda, a apavora. Como um roteiro que começa bem e degringola no meio do caminho, terminando sem cumprir com seu objetivo inicial. Para Isabelle, a única maneira de salvar a história e continuar voando seria dar a ela um final trágico, como um pesadelo bem no meio do sonho.

Mas o bom sonhador é aquele que sabe se deixar levar pelo sonho criador, tanto como personagem, como quanto espectador. O risco de sonhar quando somos somente personagens do sonho, é distanciarmo-nos de nós mesmos e da verdadeira história que queríamos contar. O sonho que distancia sem aproximar, não voa. Ele paira no ar, sem bússola a indicar sua direção.

Este filme de Bertolucci trata desta questão com primazia. Porque para sonhar há que se ter asas, mas também, geralmente, um local firme onde pousar.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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