tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

O turista acidental, Perdas e a ilusão de Segurança

Quem perde tudo, deve enfrentar a realidade de que por mais que se planeje, por mais que queiramos controlar nossas vidas, ela não é nossa para controlar. A vida, às vezes, pertence às circunstâncias que se instalam ainda que nossas escolhas verguem por outra direção. Algumas circunstâncias podem ser escolhidas, os acidentes não. Esta é justamente a natureza dos acidentes. Eles carecem, por definicão, de escolha.


Um acidente é algo inesperado. Algo que por mais que calculemos as probabilidades, sai do nosso controle. Um carro que atravessa a pista sem pisca-pisca, o sorriso que alguém nos rouba no meio de uma briga, um tombo no meio da escada. Acidente é algo que foge a nossa intencionalidade, a nossa sensação interna de segurança.

Afinal, o que é segurança? Um percurso com mapa? Uma viagem onde visitamos sempre os mesmo lugares? Segurança e evitar o que é diferente são a mesma coisa?

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O turista, por definição é alguém que não pertence aonde está. É um estranho, um explorador que desconhece o mundo a sua volta. Ser turista é viver descobrindo rincões ainda não visitados.

Há turistas que escolhem passear pela vida, abertos ao desconhecido sem necessidade de saber o que vão encontrar. Há também o turista que adora explorar o desconhecido, desde que munido de um mapa indicando todas as direções. Há ainda o turista que se atira, conhece tudo a sua volta mas desconhece a si mesmo. São cidadãos do mundo e turistas de si mesmos. Mas neste texto trataremos dos turistas acidentais. Aqueles que nunca quiseram sair de casa e desbravar o mundo, porém seu mundo interno foi quebrado por alguma circunstância alheia a sua vontade.

ID-10084349.jpg O turista acidental não tem saída. Ou ele aperta suas lembranças e inseguranças na mala e sai para desbravar o mundo a sua volta, ou seu mundo interno, já quebrado não fornecerá o oxigênio necessário para sua sobrevivência. Então a casa- que antes era a salvação diante de um mundo tenebroso e novo- passa a ser o veneno, o acidente.

Muitas vezes me pergunto o que faria se perdesse àqueles que mais amo. Me mataria também? Morreria em vida perambulando como um morto-vivo na bolha da lembrança? A vida seguiria, dizem. Mas como?

A vida é um acidente que nos leva a lugares terríveis, às vezes. Outros muito bons também, não resta dúvida. Mas viver é cercar-se de incertezas, de improbabilidades que se atiram em nossa cara, mesmo quando não são bem quistas.

Quem perde tudo, deve enfrentar a realidade de que por mais que se planeje, por mais que queiramos controlar nossas vidas, ela não é nossa para controlar. A vida, às vezes, pertence às circunstâncias que se instalam ainda que nossas escolhas verguem por outra direção. Algumas circunstâncias podem ser escolhidas, os acidentes não. Esta é justamente a natureza dos acidentes. Eles carecem, por definicão, de escolha.

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Em O Turista Acidental, o personagem vivido por Willliam Hurt, vive uma perda tão profunda e intensa que altera a maneira como ele vê a si mesmo e, consequentemente, o mundo a seu redor. Situações traumáticas podem trazer a tona problemas escondidos e enterrados, como que se vasculhassem a alma pelo vazio fingido; pelo nada mascarado de vida.

Uma perda é uma viagem onde nunca chega-se ao destino final. São seqüências de escalas onde o destino, seu porto seguro, está bem longe. Há que fazer de um ambiente desconhecido a sua nova morada, mesmo contra a sua vontade.

Uma perda é uma cisão que leva a outros caminhos antes jamais navegados. Os escombros são o que há de mais real e tangível em um coração que se quebra, um ente que se foi. E é aí que a verdadeira essência da vida é revelada. Aquilo que nos abre, nem que seja pela força de uma tragédia. 

Viver uma grande perda transforma Macon em um turista para si mesmo. Todas as certezas que ele antes tinha após a morte do filho e a separação de sua mulher, dão lugar a dúvidas e a incertezas. Não sobrou nada além da dor e um mundo interno a descortinar.

Tem momentos na vida em que a vida se desfaz como um mar que desemboca em vários rios e a corrente nos carrega a força em alguma direção. E lá neste novo rio temos a oportunidade de ressignificar nossa relação com nós mesmos e, por conseguinte, com o mundo ao redor. No caso de Macon, é através de sua relação com Muriel, uma mulher espontânea que se nutre de incertezas, que ele consegue se reconstruir e gostar novamente de si mesmo neste seu novo e incerto modo de ser.

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Macon descobre com Muriel que a única certeza possível é de não termos nunca certeza de nada. Deste modo, a incerteza, a falta de planejamento, a espontaneidade, passam a ser para ele, fonte de segurança e tranquilidade.

Há várias maneiras de viver e há pessoas que escolhem um formato de vida e permanecem nele o resto dos seus dias e o conseguem fazê-lo sem grandes acidentes. Afinal, nós também somos acidentes e não temos formato. O não-acidente é também um acidente que pode muito bem acontecer.

Mas para aqueles que se atiram ou são atirados no desconhecido que é viver resta a esperança de que, ao enfrentar o medo do desconhecido, nasça também a possibilidade de reinventar-se. Ainda que, mesmo reinventados, levem consigo sempre a memória e dor daquilo que se foi. Porque dor não se apaga. Perda não se completa. Mas a vida se refaz.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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