tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

A Comilança e o Contra-Instinto

O prazer não é uma busca eterna. O prazer são aqueles segundos onde não desejamos. São os momentos onde os desejos foram, momentaneamente, saciados dando lugar a outros desejos. São os segundos que seguem o coito, o deleite após uma refeição deliciosa. Em uma sociedade onde quer-se mais e mais, não há limites. Ninguém sabe onde e quando parar. Vive-se uma orgia de objetos mascarando nosso instinto de saber quando estamos satisfeitos.


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Comer é ligar-se ao mais sensorial. Comer é degustar o prazer fino de sabores e odores que se misturam em texturas nos diferentes cantos da boca. Comer algo por prazer é mais que simplesmente alimentar nossa carne e fortificar os ossos. Comer é símbolo da vida. Daquilo que tomamos da natureza e transformamos em pratos, molhos e outras delícias. Cozinhar é alquimia. Comer é pura mágica dos sentidos.

Nossos sentidos são também instintos. São ferramentas para a melhor sobrevivência de nossa espécie. Querer comer pode ser tanto um instinto quanto um desejo. O desejo e a vontade podem ou não ser consequências de nossos instintos de alimentarmo-nos para sobreviver. Mas sabemos que o prazer também é instinto animal. Ele também se nutre da ideia contra-instintiva de infinito.

O prazer, muitas vezes, é como uma estrela de Hollywood que busca durar para sempre no brilho dos holofotes e se desmancha ao perceber que sua luz apagou, seu brilho enegreceu.

O prazer é movido por instintos, mas quando levado à suas profundezas, acaba gerando um contra-instinto. Sobrevivência é instinto. Aquele que não busca sua sobrevivência -gosto de dizer- atua por contra-instinto. Quando se leva algo a seu lado mais extremo, perfura-se sua base, chegando-se assim ao oposto do que se queria.

Se comer é instinto e prazer, a comilança é contra-instinto e desprazer.

A Comilança é deixar civilizar-se tanto e de tal sorte que, seus mecanismos de satisfação já não funcionam. A satisfação só existe enquanto vontade incorporada de querer mais e mais. O desejo não pela saciedade de uma sede e sim por um vazio que não preenche é o que está no cerne deste filme de Marco Ferreri de 1973.

Uma crítica à burguesia? Sim. Mas além disso uma crítica a nossa maneira fútil e perversa de buscar o prazer nas lacunas da labuta diária. O desejo é, afinal, parte intrínseca de tudo que fazemos. Desde o desejo de levantar da cama, até o desejo de viajar, de beber, de transar, de comer.

Projetamos nossos desejos em matéria como forma de alcança-los nem que seja por um instante.

Quando o desejo deixa de ser projeção e passa a ser refém da matéria e busca somente nas coisas materiais sua recompensa, o prazer é cada vez mais intangível. Pois o prazer, ele é intangível por natureza. Materializá-lo é viver num de teatro de prazeres, onde os objetos se mascaram de sentimentos.

O prazer não é uma busca eterna. O prazer são aqueles segundos onde não desejamos. São os momentos onde os desejos foram, momentaneamente, saciados dando lugar a outros desejos. São os segundos que seguem o coito, o deleite após uma refeição deliciosa. Mas esta sensação de prazer consumado, ao contrário do que alguns pensam, inexiste no momento em que estamos buscando o prazer. Enquanto saciamos nossos desejos eles são o prazer que ainda busca. Ele ainda não é prazer em sua totalidade. O prazer em si acontece somente imediatamente depois. Mas para isso, é necessário saber reconhecer o ápice e terminar.

Em uma sociedade onde quer-se mais e mais, não há limites. Ninguém sabe onde e quando parar. Vive-se uma orgia de objetos mascarando nosso instinto de saber quando estamos satisfeitos.

Quando vivemos demasiadamente nas nossas insatisfações,nossa frustração dá vazão ao nosso lado mais podre. Aquele lado horrível que bebe até vomitar, que come até explodir. Esse é o contra-instinto da sociedade civilizada. A vontade de ter mais e mais que nos invade e nos domina até não restar outro desejo senão o excesso até a morte.

Somos carne no jardim. Apodrecendo nossas potencialidades na ânsia pelo (des)prazer infinito da saciedade eterna.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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