tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

YOLO, Wittgenstein e os acrônimos da internet

Quanto mais aumentamos nosso conhecimento linguístico e utilização dos diversos níveis dos jogos de linguagem, maior o nosso universo. Temo que, neste sentido, ao utilizar acrônimos como forma de expressão, estamos encolhendo o nosso universo dia após dia, ao invés de expandir e transcendê-lo. A linguagem é um representação daquilo que vai dentro de nós. Daquilo que somos, pensamos, vivemos. Um signo linguístico que não é capaz de transcender aquilo que representa, não é um signo, é uma forma sem conteúdo.


ID-10036312.jpg

Gosto de me imaginar em outros tempos. Não sou daquelas saudosistas que veem o passado sempre melhor que o futuro. Acho que há coisas maravilhosas nas novas descobertas científicas e aguardo ansiosamente o momento em que estudos em genéticas nos permitam viver uns 200 anos com saúde.

Imagino também que seria bacana se pudéssemos tomar um café em descoladas cavernas subterrâneas em Marte com amigos especiais ( tanto alienígenas quanto terráqueos--não discrimino) e voltar a terra para dormir. Enfim, adoro imaginar um futuro sci-fi onde tenhamos expandido nossos horizontes geográficos para além do planeta azul.

Por outro lado, devo admitir, adoro o teor artístico dos anos vinte e toda sua revolução contida. Cada época tem seu brilho, seu charme. Mas, se há algo que todas as gerações têm em comum é a mania de criticar o presente e remanescer sobre o passado.

Meus avós já criticavam meus pais pelo modo volúvel e descompromissado em que viviam. Meus pais reclamavam da minha geração e minha geração reclama dos adolescentes de hoje. Será mesmo que o passado é sempre melhor que o futuro? Até que ponto não falamos coisas simplesmente porque a memória é traiçoeira e costuma embelezar aquilo que foi vivido e nunca mais voltará?

Hoje em dia a moda é criticar as máquinas, computadores, redes sociais, relacionamentos líquidos etc. Acho interessante como falamos que estamos mais individualistas do que nunca, mas não conseguimos parar de olhar para o perfil dos outros no facebook e emitir todo tipo de opinião e juízo de valor a respeito dos outros. Penso que, pelo contrário, estamos cada vez mais preocupados em criticar a vida dos outros.

Não que no passado não fôssemos. Afinal, o que faziam as pessoas antigamente penduradas em suas janelas fofocando e criticando a vida alheia? A internet só expandiu este universo. Agora tem-se mais acesso à informações e o outro que antes era mais inacessível, agora está a um clique de virar seu amigo ou inimigo. O mais provável é que o ser humano seja fofoqueiro, crítico e intrometido por natureza.

Agora, se tem algo que eu não suporto na nossa era, é essa moda pós twitter de acrônimos e hashtags intermináveis. Aí aparece aquele meu lado que adora uma frase bem escrita, bem à moda antiga. Sempre que se fala neste assunto, sôo como uma senhorinha com saudade de namorar de mãos dadas no banco da praça. Afinal, eu tampouco estou imune a este traço de sempre criticar as novas gerações.

ID-100174871.jpg

Outro dia recebi uma mensagem que terminava com um YOLO. Pensei: WTF??! Sério, pensei em acrônimo também. Essa moda é terrivelmente contagiosa até para quem, como eu, só sabe WTF e SQN. Mas continuei boiando no YOLO. Contactei o amigo Google e descobri que YOLO significa "you only live once" ( Você só vive uma vez).

Penso que no futuro a lingua escrita se reduzirá às primeiras letras do que queremos dizer. Será que pensamos assim tão igual que não podemos nem mesmo criar nossas próprias frases de maneira autêntica?

wittgenstein.jpg

Wittgenstein dizia: "o limite da minha linguagem é o limite do meu mundo". Quanto mais aumentamos nosso conhecimento linguístico e utilização dos diversos níveis dos jogos de linguagem, maior o nosso universo. Temo que, neste sentido, ao utilizar acrônimos como forma de expressão, estamos encolhendo o nosso universo dia após dia, ao invés de expandir e transcendê-lo. A linguagem é um representação daquilo que vai dentro de nós. Daquilo que somos, pensamos, vivemos. Um signo linguístico que não é capaz de transcender aquilo que representa, não é um signo, é uma forma sem conteúdo.

Participar de um jogo de linguagem implica na possibilidade de brincar com os signos linguísticos e com a linguagem em si. As diferentes possibilidades semânticas são parte importantíssima deste jogo de linguagem. O que ocorre quando não há disparidade alguma na interpretação do discurso é uma linguagem fascista, onde não tem-se liberdade de criar e sair do script delimitado pela natureza seca dos acrônimos. Nosso mundo, por conseguinte, está cada vez menor. E nossa liberdade, tolhida pelos clichês dos acrônimos.

Hoje em dia, se quero que você venha a minha festa porque estou com saudade e adoraria poder contar com sua indispensável companhia, te mando uma mensagem bem rápida a qual digito com uma habilidade absurda com as mini letrinhas do teclado: Festa! BYOB RSVP ASAP

Tradução para quem não nasceu com um cabo usb no umbigo : Festa! Bring your own bottle ,répondez s´il vous plaît, as soon as possible. (Festa! Traga sua própria bebida, confirme por favor o mais rápido possível)

Com o tempo estamos nos robotizando e não humanizando os robôs como muitos temem. Estamos, aos poucos, criando uma linguagem HTML para nos comunicarmos. Se seguirmos assim, a linguagem futura será uma matrioska de códigos cada vez menores, cada vez mais complexos e cada vez mais rasos.

Abaixo listo alguns acrônimos que encontrei na internet:

COBOL Completely over and beyond obvious logic

Exatamente o que acho dos acrônimos.

IANAC I am not a crook

Pergunto-me a frequência com que esta frase foi/será utilizada para justificar a necessidade de um acrônimo??!!

IHYUWIM I hope you understand what I mean

Bem...entenderia melhor se não houvesse quinhentas letras juntas sem sentido algum

IHA I hate acronysms

Um acronismo para detestar acronismos. Típico!

IKYBYUWYTISBINSYRTWYHINWIM I Know You Believe You Understand What You Think I Said, But I'm Not Sure You Realize That What You Heard Is Not What I Meant

Ok, essa é complicada até na versão frase. Por que não dizer, simplesmente, "não foi isso que eu quis dizer" ??!! Manual de redação urgente para quem criou esse acrônimo.

IMCDO In My Conceited Dogmatic Opinion

Esse pode ser bem prático em época de eleição

IMHBCO In My Humble But Correct Opinion

Este também

IOTTMCO Intuitively Obvious To The Most Casual Observer

Tudo que os acrônimos não são


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Fernanda Moura