tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

Os Amantes da Pont-Neuf, Desamparo e Fogos de Artifício

O que é o amor? Por que buscamos o amor incessantemente em nossas vidas? Qual o papel que o amor tem diante das dificuldades materiais e existenciais que enfrentamos?


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"Quelqu' un vous aime.

Si vous aimez quelqu' un, vous lui dit demain

«Le ciel est blanc».

Si c' est moi je réport

«Mais les nuages sont noires».

On saura comme ça qu' on s' aime”.

Da declaração amorosa rabiscada em lúcido desespero aos mais intangíveis momentos de realismo, “Os amantes da Pont-Neuf” é um filme que trabalha os contrastes de forma única e brilhante. O céu branco e as nuvens negras descritas no poema de Alex funcionam como indicador da direção dicotômica que o amor dos protagonistas toma, partindo do desamparo e, a partir deste, criando forças para sua reintegração nos laços obsessivos que os unem.

O que é o amor? Por que buscamos o amor incessantemente em nossas vidas? Qual o papel que o amor tem diante das dificuldades materiais e existenciais que enfrentamos?

Nascemos em estado de desamparo, no qual não sabemos ao que viemos, aonde ir, o que fazer. O desamparo é um vazio que levamos por dentro desde a nossa chegada no mundo. Segundo Heidegger, é a partir deste vazio que tomamos coragem para sair desbravando o mundo e buscarmos no outro por algum conforto, algo para completar os vazios que nos corroem.

Este filme trata, entre outras coisas, deste desamparo. Ele trata do desamparo em forma de angústia que acomete aquele que teve o seu projeto interrompido por alguma desgraça, algum infortúnio.

Temos projetos de vida e nem sempre conseguimos realizá-los como gostaríamos. Segundo Heidegger, o homem só consegue sair da condição de total angústia gerada pelo desamparo por meio de algum projeto que sirva para mascarar a falta de sentido inerente a tudo. Digo mascarar porque o sentido só é necessário enquanto força motriz de um projeto. O sentido em si não existe. Ele é sempre relativo ao impulso do sujeito que sente.

Quando, por alguma razão, a vida faz com que descortinemos as angústias que estavam escondidas sob as máscaras de projetos de vida, algo semelhante ao desamparo infantil reaparece e é aí que a história deste filme começa.

Michèle, uma artista que está ficando cega, frente ao desespero da possibilidade de jamais enxergar, passa a viver nas ruas de Paris. Uma Paris vazia, suja e escura passa a ser o território de seu desamparo. Esse é o ato simbólico da angústia interna exposta em noites sem cama, fome sem comida e vida sem existência, vida essa cujos projetos fracassaram e o vazio do desamparo é o único que resta.

Alex mora nas ruas e trabalha como cuspidor de fogo. Viciado em drogas e álcool, ele vive imerso em seu vazio até conhecer Michèle. Em Michèle ele encontra um sentido. A obsessão por ela vira seu projeto. Ele descobre a história de Michèle como quem arma um quebra-cabeça, sem jamais lhe perguntar nada.

A ponte em ruínas, mas em processo de renovação, é o próprio símbolo do momento de vida que os personagens enfrentam: uma vida que falhou, onde os desejos foram sufocados por uma realidade opressora. Eles vivem os segundos que se seguem da tempestade que os acomete antes da chegada da calmaria criadora de uma nova fase de vida.

O amor entre os dois é de natureza egoísta e obsessiva. Eles precisam um do outro para sobreviver a esta fase e se reintegrar. É um clássico exemplo de amour-fou onde o amor tem rasgos de tragédia e irreverência. Isso se nota, por exemplo, quando Alex decide esconder de Michèle que ela poderia se curar.

Com o amor, surge também o medo de perda do amor. Não se tem um sem o outro. Amar sempre implica em algum horror de perder aquilo que finalmente nos acalmou a angústia. O medo de perder Michèle o compele a atitudes egoístas e extremas, tentando queimar qualquer rastro de possibilidade de saída para Michèle. O filme alterna realismo e idealismo o tempo inteiro.

A ideia de não estarmos mais sozinhos em uma vida eternamente em construção é o que faz com que busquemos, apesar dos pesares, o amor em todas partes.

Buscamos no outro um reflexo da nossa própria vontade de dar sentido à vida. Buscamos o acolhimento de estarmos seguros em nossa permanente insegurança, pois somos seres contraditórios. E o amor, de todos, parece-me o mais louco, necessário e contraditório dos sentimentos. Pois o amor, seja ele o que for, entorpece os sentidos. E num mundo de vazios, tragédias e feiuras, nada mais acolhedor do que aqueles minutos em que dançamos, embriagados de completude junto a outro alguém, sob fogos de artifício.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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