tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

Terapia de bar

A terapia não é um passatempo. Não é uma caminhada no parque. Não é um anestésico para as dores da alma.


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É importante não confundir um papo entre amigos com terapia. Só porque algo nos renova, alegra ou leva a reflexão, não significa que seja terapia. O objetivo terapêutico é sim o de bem estar, mas não necessariamente o mesmo que se tem numa cervejaria entre uma piada ou outra.

Em alguns casos, o processo terapêutico pode ser bastante difícil e doloroso. Afinal, nem sempre é confortável mexer em nossas formatações internas, por assim dizer. Claro que isso vai variar de pessoa a pessoa, mas vivemos em um tempo no qual achamos que bem estar é sinônimo de felicidade. Subentende-se que está bem quem está sorrindo e saracuteando por aí, mas não é bem assim.

Penso que para algumas pessoas isso pode até proceder, mas não é assim para todos.

A terapia não é um passatempo, não é uma caminhada no parque. Não é um anestésico para as dores da alma. Bom, pelo menos não sempre. A subjetividade humana é vasta e certamente há infinitas maneiras de se relacionar com a ideia de terapia. Mas me parece reducionista ver pelas redes sociais e em conversas coisas como "minha terapia da semana" seguido de uma foto de cerveja e alguém esbanjando um sorrisão. Não que não possa ser realmente terapêutico e promover mudanças internas tomar sua cervejinha. Eu mesma adoro tomar um vinho sozinha ou com amigos na hora de refletir sobre alguma inquietude qualquer.

A terapia pressupõe uma relação de troca na qual o terapeuta deve estar atento e consciente tanto das questões mais amplas quanto dos detalhes colocados pelo outro. A inferência terapêutica, quando acontece, é de natureza diferente daquela do amigo. O amigo, por mais que tenha seu bem estar em mente, tem o olhar circunscrito pela amizade. O foco já é, por definição, limitado e, às vezes, não é tão fácil alargar o olhar.

Além disso, o terapeuta conhece sua história de vida sem as travas que podem embaralhar o olhar quando ouvimos o amigo relatar um acontecimento em que você também esteve presente, por exemplo. A percepção do amigo pode ser muito diferente da sua e, tal fato, pode bater de frente com algo que é extremamente importante na terapia: a percepção subjetiva de quem narra a própria história.

Esta narrativa -seja ela condizente com a realidade compartilhada com outros ou não- funciona como um quebra-cabeças que fornece valiosas pistas ao terapeuta a respeito da forma individual do paciente ou partilhante vivenciar o mundo. Afinal, muito do que somos está na maneira como editamos nossa própria história.

Com um amigo, fica mais difícil estabelecer esta relação, dado que muitas verdades compartilhadas podem ter sido interpretadas de maneira diferente pelos dois, provocando, assim, enormes conflitos entre eles. É aquela velha discussão do "não foi assim que isso aconteceu". Cada um tem uma versão dos fatos de acordo com sua situação espacial e psicológica no momento.

Onde nos situamos é chave para entender a raiz de alguns conflitos. O outro não ocupa o mesmo lugar que nós no espaço físico nem no mental, portanto o outro sempre terá um ângulo de visão dos fatos diferente do nosso. O terapeuta trabalhará a partir da sua versão subjetiva dos fatos, uma vez que ele não terá acesso a uma visão onisciente e onipresente da sua história de vida.

A função da terapia é a de mexer em nossa estrutura interna, ressignificando alguns aspectos quando necessário. Mas esta ressignificação normalmente vem acompanhada de muita dor, vontade de sair correndo e não ver o terapeuta nunca mais e muitas lágrimas. É como tentar retirar um band-aid que após anos em contato com a pele fundiu-se em carne. Retirá-lo não é fácil e em um bar entre uma cervejinha e outra, o mais provável é que coloquemos band-aids de outras cores em cima do mesmo ao invés de retirá-lo. Trocamos assim, algumas verdades por outras mais coloridas. Mas o problema permanece escondido, cada vez mais mascarado de falsas certezas.

Portanto, se tais certezas não incomodam, deixe-as coloridas e fantasiadas. Terapia, ao meu ver, é para mexer no que dói, não no que nos tranquiliza. Mas se após anos de terapia de bar, na volta pra casa o incômodo continuar, fique atento. Pode ser que o bar para você seja só um conforto momentâneo e não essa terapia toda que você acredita ser.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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