tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

Reticências

Tem coisas que não merecem final. São reticências. São apenas momentos fugazes que aparentavam ser mais importantes do que verdadeiramente são. Como algumas ideias que temos e nos assombram a principio, mas em última análise eram fruto da nossa própria estupidez.


logo.jpg

Tem coisas que não merecem final. São reticências. São apenas momentos fugazes que aparentavam ser mais importantes do que verdadeiramente são. Como algumas ideias que temos e nos assombram a principio, mas em última análise eram fruto da nossa própria estupidez.Somos tolos às vezes.

Guardo pontos finais para os momentos valiosos. Aqueles que merecem destaque. As reticências, em contrapartida, são uma mera tentativa de encobrir de mistério a chatice cotidiana, como um pedaço de limão no copo de água. Disfarça. Finge que foi sem ter sido. A essência permanece inalterada. Fixa, presa nas paredes do copo de vidro, refletidas ad infinitum nos espelhos esverdeados da lua de limão.

Tem pessoas que são reticências. Personagens da sua invenção mais banal. Aparentemente brilhantes até refletir suas faces opacas no espelho dos outros. Sugam de todos o reflexo, enfraquecendo os outros à sua volta até torná-los vilões. São criaturas que mesmo imersas em cinza, veem somente o lado maniqueísta do mundo. Dissimuladas, se fazem de interessantes para esconder seu lado mais enfadonho. São aqueles personagens que o escritor começou a esboçar no caderno e desistiu por serem chatos demais. A personagem começa bem, mas ninguém aguenta chegar até o fim, pois é demasiadamente óbvia. Tudo que é repetitivo deixa de ser interessante. As reticências são também uma forma de silenciar o óbvio.

Tem situações que são reticências decrescentes. O primeiro ponto sempre parece maior que o segundo e o segundo maior que o terceiro. É a preguiça de expressar a ideia que já se foi. São os argumentos se esvaindo em distração e perdendo o seu propósito. As reticências são a saída poética da narrativa perdida.

O que foi jogado em reticências não se recupera. Faz parte do momento de um final hipotético. Reticências não são um talvez. Afinal, o talvez é uma possibilidade em aberto. As reticências são o papel amassado na lixeira. Não tem vida nas suas dobras ininteligíveis. Quem quer algo especial, pontua. Exclama. Interroga. Quem vive de superficie vive nas metades achando estar nas circunferências. Os pontos ligam-se em uma imaginária linha reta. Mas a vida... ah, esta é circular.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Fernanda Moura