tortografias e outras traduções

Pontos de vista, vírgula e algumas reticências

Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições

Sobre tramas, personagens e nossa capacidade de voar

Poucas coisas são tão dolorosas e libertadoras quanto aquele momento em que tomamos a decisão de confiar nas próprias asas e voar. Afinal, a graça do voo está em saber deixar algo para trás, como uma raiz que se desprende do solo com a densidade do ar. Voar não é levitar. Levita quem não tem peso, não tem bagagem. Voa quem sabe espalhar as asas equilibrando o peso de uma história vivida deixando assim de sentí-lo em um só membro. O voo é o próprio peso transformado em ar.


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Na literatura, toda história tem um fio condutor. Uma linha ou várias que se interceptam e se cruzam dando assim forma ao enredo da narrativa. Um sofisticado quebra-cabeças de momentos singelos de cenas, às vezes sem sentido aparente, para chegar a um clímax onde uma junção ou uma ruptura ocorre na narrativa,levando assim a estória do seu ápice ao esperado fim.

Na vida, nem sempre a prática segue a risca a teoria. Um dos dilemas é a questão da divisão de personagens. Na literatura temos, razoavelmente claro, quem é o principal e quem são os coadjuvantes. Tal distinção é necessária dado que se algum personagem é importante não os descartamos rapidamente. Sua mera presença tem alguma relevância e dificilmente será excluída na edição final. Já as cenas extras- aquelas que enchem o tempo com conversas, ideias e lugares que não tem muita relevância na trama- são cuidadosamente colocadas pelo autor de maneira estratégica para dar mais sabor aos momentos essenciais.

O problema é, na nossa própria narrativa, como fazemos esta distinção? Todos, afinal, se acham os personagens principais de sua própria história e todos que os que conhecemos são, a princípio, personagens principais em potencial. Nunca podemos saber de antemão sua relevância.

Mais difícil ainda é saber -se somos os autores da nossa própria história- onde está o editor? Aquele que vai poder dizer "corta e refaz esse parágrafo! Está mal escrito. Esquece esse personagem aqui e foca naquele ali." A angústia da vida, às vezes, está em não poder editar, não saber que direção tomar ou quais argumentos escolher. Ainda mais desafiador é perguntar-se :sou o personagem principal da minha narrativa ou estou fazendo um papel coadjuvante na minha própria história?

Afinal, bem como atores mal escalados, podemos estar vivendo o personagem equivocado. Aquele que outros escolheram para nós, mas que nada tem a ver com o nosso papel principal interno. É possível, inclusive, que tenhamos vivido grande parte da vida sentindo como se fôssemos uma fraude. A máscara das nossas máscaras. Uma vez que não há editor nem diretor nessa peça de teatro inventada, só o próprio autor pode saber-se ou não no papel adequado.

Poucas coisas são tão dolorosas e libertadoras quanto aquele momento em que tomamos a decisão de confiar nas próprias asas e voar. Pode ser para longe ou perto, pode que nem saiamos mais que um ou dois centímetros do lugar, mas o fato é que saber-se bom o suficiente para escrever suas próprias conquistas é mais difícil do que se pode imaginar.

Alçar voo é mudar. O primeiro princípio da dinâmica ou da inércia já serve como pista desta resistência que qualquer corpo oferece frente à mudanças.Transformar-se requer arrancar a raiz do solo inerte e dar-lhe asas, impulsionando-se tanto vertical quanto horizontalmente,erguendo-se e jogando-se para a frente de forma simultânea.

A graça do voo está em saber deixar algo para trás,como uma raiz que se desprende do solo com a densidade do ar. Voar não é levitar. Levita quem não tem peso, não tem bagagem. Voa quem sabe espalhar as asas, equilibrando o peso de uma história vivida deixando, assim, de sentí-lo em um só membro. O voo é o próprio peso transformado em ar.

Portanto, como em um bom livro, é através da constância, da repetição de padrões que podemos traçar uma linha criando a trama da nossa narrativa. Se o padrão é perder-se em situações coadjuvantes, então esta é a grande trama da narrativa. O problema reside em nos perdemos nestas situações coadjuvantes por não conseguirmos perceber a trama que está secando abaixo dos próprios pés. Casulos de asas sufocados em forma de raiz, impedindo assim o voo livre de uma boa história.

Afinal, boas histórias nada mais são que tramas aladas pela própria vontade do autor em voar. Cabendo, portanto, a cada autor, definir seu papel e o dos demais, suas circunstâncias de destaque, seus blá blá blás.


Fernanda Moura

Fernanda é formada em Filosofia pela Trent University e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Amante das artes, de um bom vinho e muitas contradições.
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