transbordar

Porque há pessoas, pensamentos e sentimentos controversos.

Erica Marques

Paraense, jornalista, louca por séries e apaixonada por filmes. Escorpiana, tenta ser meiga, acredita ser romântica e na mudança através das obras cinematográficas e da leitura.
E tem como regra da vida: "Tudo o que você faz importa".

A extensão dos Quase deuses

“Quase deuses” deve nos lembrar que nenhuma vitória deve ser desmerecida, que um desejo não deve ser melhor que outro, que nenhum sonho deve ser subjugado e que, principalmente, ninguém deve se tornar coadjuvante para outro crescer, mas que todos devem crescer juntos e de modo igualitário. Isso pode ser para alguns uma utopia, mas dentre tantas utopias, algumas estão sendo vividas por nós.


quase deuses.jpg Os personagens Vivien Thomas e Dra. Helen em uma das cenas do filme Quase Deuses. Foto: Divulgação

Quando um filme conta uma história de anos, décadas, séculos passados com o objetivo de expor um assunto importante a ser debatido e o mesmo ainda é discutido hoje em dia, só reforça aquela conhecida frase lida em vários lugares e dita por várias pessoas: a luta deve ser diária.

Something the Lord Made (2004) mostra como o preconceito ainda existe na sociedade e muitas vezes é colocado em primeiro plano, acima da excelência pessoal e profissional do ser humano.

Adaptado para o português como “Quase deuses”, o filme, autobiográfico e baseado em fatos reais, se passa em 1930 e relata a história de Vivien Thomas, o pioneiro na descoberta da cirurgia cardíaca, fato compartilhado com o Dr. Alfred Blalock. No entanto, pelo fato de Vivien ser negro, sua enorme influência nos estudos e desenvolvimento da cirurgia cardíaca não foram reconhecidos na época em que a descoberta se espalhou por vários países. Algumas vezes, nem o próprio Dr. Alfred mencionava o nome de Vivien ao falar da relevância do projeto.

Além disso, um outro ponto é discutido na história: a discriminação da mulher no campo profissional. Isso é notado em dois momentos: quando a Dra. Helen Taussig, além de ser obrigada a escutar piadas preconceituosas de médicos da instituição em que trabalha, tem seus trabalhos reconhecidos somente a partir do momento que o Dr. Alfred os assume; e quando Clara Thomas, a esposa de Vivien, é impedida de trabalhar, pois seu marido a repreende pela ausência futura na casa e na criação da filha do casal.

Neste momento é possível perceber as camadas de preconceito existente no filme: o branco se sentindo superior ao negro e o homem se sentindo superior a mulher. E assim, um preconceito se torna mais importante que o outro, uma camada de direitos retirados vai retirando o do outro e esse ciclo vai se renovando em muitos meios.

Com isso, “Quase deuses” não deve se referir apenas a Vivien Thomas, o primeiro cirurgião negro que obteve reconhecimento digno anos depois; ou ao Dr. Alfred, um médico que aparentemente não o mencionava em seus discursos com o objetivo proposital de lhe excluir ou humilhar. Mas deve ser estendido a Dra. Helen, que com seus estudos ajudou a melhorar as pesquisas relacionadas as cirurgias cardíacas; e a Clara Thomas, que com o seu apoio e paciência, ajudou Vivien a alcançar o sonho que tanto almejava.

“Quase deuses” deve nos lembrar que nenhuma vitória deve ser desmerecida, que um desejo não deve ser melhor que outro, que nenhum sonho deve ser subjugado e que, principalmente, ninguém deve se tornar coadjuvante para outro crescer, mas que todos devem crescer juntos e de modo igualitário. Isso pode ser para alguns uma utopia, mas dentre tantas utopias, algumas estão sendo vividas por nós.


Erica Marques

Paraense, jornalista, louca por séries e apaixonada por filmes. Escorpiana, tenta ser meiga, acredita ser romântica e na mudança através das obras cinematográficas e da leitura. E tem como regra da vida: "Tudo o que você faz importa"..
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