transbordar

Porque há pessoas, pensamentos e sentimentos controversos.

Erica Marques

Paraense, jornalista, louca por séries e apaixonada por filmes. Escorpiana, tenta ser meiga, acredita ser romântica e na mudança através das obras cinematográficas e da leitura.
E tem como regra da vida: "Tudo o que você faz importa".

Muito mais que possessões: Cujo e os conflitos internos de seus personagens

O leitor pode até ficar na dúvida, ao final do livro, se Cujo matava aleatoriamente por ter contraído raiva ou se foi possuído pelo espírito que assombrava Tad. Mas acaba tendo certeza que as consequências das atitudes humanas são tão fortes quanto os ataques sobrenaturais.


capa cujo.jpg Edição de 2016 do livro pela Suma Letras. Foto: Divulgação

Desde quando eu conheci as obras de King percebi a intensidade em suas histórias e que o protagonismo não era centrado apenas no sobrenatural, mas nas atitudes e relações humanas. O problema a ser solucionado em seus livros nem sempre é o controle do seu poder (Carrie, A Estranha), lidar com seres que voltam do mundo dos mortos (O Cemitério) ou sobreviver a um ataque de criaturas estranhas (O Nevoeiro). A verdadeira busca em seus contos é mostrar a batalha de seus personagens contra seus demônios internos paralelo as lutas sobrenaturais.

No livro Cujo, lançado em 1981, King faz isso com maestria ao nos apresentar as famílias Trenton e Camber. Os dilemas familiares e suas questões mal resolvidas tornam-se fundamentais para o final de cada integrante.

A história inicia com as dificuldades da família principal, os Trenton. Ao se mudarem para a zona rural da cidade de Castle Rock a relação do casal Vic e Donna Trenton fica fragilizada, além do medo constante do filho deles, o pequeno Tad. A criança se sente observada todas as noites por um espírito.

A narrativa segue apresentando os problemas conjugais do mecânico Joe e da dona de casa Charity Camber. A esposa, vítima de violência doméstica, tenta encontrar meios de se divorciar e tirar o filho do ambiente tóxico em que o lar se tornou. O cachorro Cujo, um são bernardo de noventa quilos e conhecido pelo seu jeito dócil, é a principal companhia do filho do casal, o menino Brett.

O clímax inicia quando Vic viaja a trabalho após descobrir a traição de sua esposa. Durante a ausência do marido, Donna decide levar o carro para o conserto e, apesar dos pressentimentos, resolve pegar Tad e juntos vão até a oficina de Camber. Mas ao chegarem lá, se deparam com Cujo. O animal havia contraído raiva após ser mordido por um morcego raivoso e torna-se uma máquina de matar.

A partir daí é interessante notar que a angústia sentida enquanto Donna tenta sobreviver com Tad é a mesma da luta dos personagens em encontrar uma solução para seus próprios pesadelos. Seja de Charity tentando conseguir uma maneira de se separar do marido ou no esforço de Vic de descobrir uma saída para o problema pessoal e profissional que enfrenta.

Nesse momento, é bom também destacar a luta de Cujo em tentar resistir a algo que ele não entende. King nos leva para dentro da cabeça do cachorro e acompanhamos passo a passo a perda de sua docilidade.

O componente sobrenatural fica, em determinados momentos, em segundo plano. E os casos fictícios na obra tornam-se próximos do mundo real e tão doloridos quanto um ataque demoníaco.

Em Cujo, o inimigo não é apenas o são bernardo, mas o próprio homem. O impacto das agressões de Cujo são similares as das cometidas por Joe Camber e pelo amante de Donna.

O leitor pode até ficar na dúvida, ao final do livro, se Cujo matava aleatoriamente por ter contraído raiva ou se foi possuído pelo espírito que assombrava Tad. Mas acaba tendo certeza que as consequências das atitudes humanas são tão fortes quanto os ataques sobrenaturais.


Erica Marques

Paraense, jornalista, louca por séries e apaixonada por filmes. Escorpiana, tenta ser meiga, acredita ser romântica e na mudança através das obras cinematográficas e da leitura. E tem como regra da vida: "Tudo o que você faz importa"..
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