Soraya Rodrigues de Aragão

Psicóloga, psicotraumatologista, terapeuta sexual, Expert em Medicina Psicossomatica,e Psicologia da Saude. Escritora e palestrante.Estudante de Terapia de casal e Familia. Autora dos livros Fechamento de Ciclo e Renascimento, Supere desilusões amorosas e pertença a si mesmo, Liberte-se do Pânico e viva sem medo e Talita e o portal. Sites: www.sorayapsicologa.com e www.alquimiadavida.org.
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Ninguém é obrigado a permanecer em um relacionamento falido

Algumas situações desgastadas e soterradas estão bem debaixo do nosso nariz, esperando de nós somente uma postura de aceitação e desapego. Lembrando que os outros não são de nossa posse, de nossa propriedade e que no final das contas, quer queiramos ou não, cada um resolve o caminho que deseja seguir.


Vez ou outra escuto alguém dizer que o amor é como um cristal, depois de quebrado, não se pode colar os cacos, pois ali não existe mais a possibilidade de ser restaurado, de tornar-se o que foi um dia. No entanto, nada nesta vida pode ser igual ao que foi numa época, tampouco ninguém é obrigado a ser o mesmo a vida inteira ou permanecer numa relação falida, onde não existe respeito, companheirismo e amor. Melhor é ser sincero consigo, caminhar por novas vivências e abandonar os campos inférteis. Também não pretendo em nenhum momento ser reducionista ou classificar relacionamentos, pois estes são muito dinâmicos, complexos e únicos, mas sim fazer uma metáfora, um paralelo, uma comparação da descartabilidade e da durabilidade dos relacionamentos com o vaso de vidro e o vaso chinês.

Existe uma técnica chinesa muito antiga chamada Kintsugi ou Kintsukuroi e que consiste em reparar jarros de cerâmica com ouro. O jarro trincado, rachado ou quebrado que foi reconstituído transforma-se em uma obra de arte única, resistente e de alto valor existencial, exatamente por ter sido quebrado e reestruturado. Esta técnica é um exemplo de que em nossa vida prática, o que foi reestruturado com cuidado torna-se mais resiliente, mais forte e maduro para lidar com as vicissitudes da vida. Tantas vezes a descartabilidade é o caminho mais fácil, mas em alguns casos não é o mais acertado e isto vale também para os relacionamentos.

Relacionamentos podem trincar devido a sua complexidade, visto que relacionar-se não é um processo fácil. Somente quem se relacionou intimamente com outra pessoa sabe que a conjugalidade afetiva traz constantes desafios diários. Porém, há casos e casos. De fato, algumas posturas e comportamentos não podem ser aceitos jamais.

Nunca poderemos suportar ou fazer vista grossa em um relacionamento onde as agressões físicas e psicológicas ditam as regras, quando o desrespeito e a falta de interesse imperam, quando o amor e o cuidado de fato acabaram, quando tudo se foi tentado e investido, mas mesmo assim o amor morreu, findou, acabou. Permanecer em um relacionamento abusivo, descompensado ou em uma situação onde o vinculo afetivo não faz mais morada, é se autoenganar e enganar o outro também, pois a pior solidão é a que se vivencia a dois.

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Photo by Kelly Sikkema on Unsplash

Há casos de relacionamentos que sao fim de linha mesmo e não tem nada a ver com descartabilidade, pois já foi tentado todos os reparos possíveis. E não adianta se martirizar, querer remendar, colar os cacos, se culpar ou se vitimizar. Em alguns casos, querer permanecer no trem da viagem da situação que não existe mais, não é a melhor solução pois o caminho só tem retorno, embora não exista mais volta.

Hà situações desgastadas e soterradas que estão bem debaixo do nosso nariz, esperando de nós somente uma postura de aceitação e desapego. Lembrando que os outros não são de nossa posse, de nossa propriedade e que no final das contas, quer queiramos ou não, cada um resolve o caminho que deseja seguir.

Em contrapartida, há casos em que o relacionamento é deixado nas primeiras dificuldades, na primeira crise, nas diferenças, contratempos e incompatibilidades sem que sejam contornadas, sem que o vínculo (se ainda existir) seja discutido, elaborado, tentado, onde o relacionamento é descartado sem nenhum investimento em repará-lo para que o mesmo possa crescer estruturalmente em bases fortes, para então ultrapassamos a percepção idealizada do outro e forjando a construção de um relacionamento “real”.

Digo isto, porque na fase inicial de um relacionamento geralmente o que nos atrai no outro é o desconhecido, o misterioso, o que se tem a descobrir, o que se anseia por viver num estado de quase êxtase, onde o parceiro é percebido sem algum defeito ou qualquer outra coisa que possa “colocar por terra” este momento mágico. Mas como tudo na vida é transitório, até mesmo a fase da paixão declina. Contudo, quando houve investimento na construção de um vínculo com bases sólidas, o que nos liga ao outro é a permuta de sentimentos enraizados daquilo que de melhor se pode oferecer nesta relação.

Sabemos que a vida possui um dinamismo próprio que viabiliza constantes transformações que não podemos reter no tempo ou em nossas expectativas. Os relacionamentos passam por atualizações em que precisamos acompanhar o passo, ajustar, investir, renovar e reinventar para que se adequem às exigências daquele momento especifico. Novas mudanças passam a compor este cenário, ocorrem ajustes no dia a dia, o tempo precisa ser democratizado com outras atividades, retirando-nos as lentes cor de rosa, onde a realidade se desnuda e a interação não é mais a idealização do outro, mas uma aproximação autêntica de tudo aquilo que é vivenciado na prática numa convivência com seus defeitos e virtudes, com as alegrias e desafios que toda relação humana comporta. No entanto, tudo nesta vida depende de como foi investido, cuidado e enraizado. Diante de algumas dificuldades, muitos relacionamentos se rompem, não se colam mais; outros, embora não permaneçam intactos tornam-se ligados, fortalecidos, reinventados e renovados.

Como tem sido a construção do seu relacionamento? Como você tem investido? Como um vaso de vidro ou um vaso chinês?


Soraya Rodrigues de Aragão

Psicóloga, psicotraumatologista, terapeuta sexual, Expert em Medicina Psicossomatica,e Psicologia da Saude. Escritora e palestrante.Estudante de Terapia de casal e Familia. Autora dos livros Fechamento de Ciclo e Renascimento, Supere desilusões amorosas e pertença a si mesmo, Liberte-se do Pânico e viva sem medo e Talita e o portal. Sites: www.sorayapsicologa.com e www.alquimiadavida.org. Email: [email protected] .
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