transpirações

Sobre a arte de ter asas

Thali Bartikoski

Ser em uma busca constante por trocas. Aqui você me dá um pouco de seu precioso tempo, e eu lhe dou minhas transpirações literárias. Simples assim.

Além do olhar: sobre a poética do ver

A rua é um coração pulsante - basta sincronizar o olhar com as suas batidas. Às vezes, por sorte ou descuido, captamos preciosidades.


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Andar pelas ruas é um exercício para quem sabe ver. Não é um andar somente, mas o que gosto de chamar de um "andar poético". É coletar fragmentos para formar um todo. É empunhar uma câmera que registra imagens com precisão, ainda que estejam sempre em movimento. Às vezes, por sorte ou descuido, captamos preciosidades.

Porto Alegre, por exemplo, tem uma luz diferente: quem anda no centro histórico pode acompanhar os mosaicos e imagens dançantes que a sombra das árvores, as bailarinas que se movem com o som do vento, projetam no chão. Se você está na Casa de Cultura Mario Quintana, então o espetáculo muda de forma: quando estava em reforma o prédio tinha imensas tiras de um tecido transparente pendurado nas paredes, Essas tiras balançavam formando uma imagem fantasmagórica, linda, poética – tanto que o próprio Mario Quintana, se tivesse a chance de presenciar a cena, certamente faria um poema belo e simples inspirado nessa visão.

A rua é um coração pulsante. Basta sincronizar o olhar com as suas batidas pra sentir o seu efeito.

Então é uma rua arborizada aqui, um prédio bonito e triste ali. E as pessoas. As pessoas são sempre a melhor coisa pra se deter o olhar. Captar momentos fugidios em desfile como um aceno entre vizinhos cheio de carinho, um cachorro levando com todo o seu ímpeto a dona pra passear (ao invés de ser o contrário), um morador de rua que executa com outro uma cena teatral: nesse momento eles disputam o que parece ser uma garrafinha de água, mas suspeito por um instante que o conteúdo seja outro e rio sozinha. O homem que grita que compra “ouro e cabelo” numa esquina e outro que fala da palavra de Deus a plenos pulmões, no meio da praça. E os feirantes com as suas cores e os seus cheiros de frutas e temperos frescos. E a música! E o carnaval de rua! E o teatro de rua!

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Eu sei, é chavão. Mas numa vida de tic-tacs incessantes que parecem estar sempre cobrando algo, onde as pessoas se esbarram sem se ver e andam como se tudo que estivesse em seu caminho fosse um obstáculo a ser transposto pra se chegar a uma meta (e o prêmio sabe-se lá qual é!) convido aqui ao exercício do ver.

Olhar é fácil: você olha pro sinal pra saber se pode atravessar uma rua, olha para um ônibus pra saber se é este que deve tomar. Ver é diferente. Implica cuidado, um olhar mais demorado e cheio de boa vontade. Implica, de certa forma, em ser visto também. E, finalmente, nada mais é do que se deixar afetar. Sentir o palpitar da cidade sem medo de sucumbir a ela. E ela é extremamente generosa ao retribuir, com sensações e imagens que ficarão presas na sua retina por longo tempo, moldando o seu jeito de se referir a ela, no caso de ter que deixá-la algum dia.

E as suas histórias se multiplicarão, e seus sorrisos internos também. Pra mim é como lembrar da briga dos moradores de rua: ela sempre vai me fazer rir.

Tente pelo menos uma vez. Saia sem pressa, vasculhe, ajuste e reajuste o foco. Ande para trás pra ver de longe, e se aproxime para ver os detalhes. Experimente olhar para as pessoas com um sorriso nos olhos. É surpreendente - para você e para elas - como elas reagem. Convoque os sentidos e use-os pra valer dessa vez. Não se detenha só no belo: foque no feio, no sujo e no esnobe também. Afinal não estamos em nenhum conto de fadas. Esteja aberto para o inesperado, e mude de rua sem pensar muito. Ria do que achar engraçado. Mas acima de tudo, esteja com o coração aberto. Ajuste a pulsação.

E mais: não importa muito onde estamos, se Porto Alegre, São Paulo ou Tóquio. Com o olhar afiado a mágica acontece. Seja onde for.


Thali Bartikoski

Ser em uma busca constante por trocas. Aqui você me dá um pouco de seu precioso tempo, e eu lhe dou minhas transpirações literárias. Simples assim..
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