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Sobre a vida em suas vertentes

Élida Reira

Dialoga com o vento e a chuva e os pede retribuição de afeto

O amor na análise de Shulamith Firestone

Ainda circula por aí a ideia de que o amor acontece como algo mágico. Recusam-se a aceitar que no amor, também há padrões culturais e sociais. Sim, existe o conceito de classe e hierarquia no amor.


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Chimamanda Adichie escreveu: "história única cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se única história."

Embora essa reflexão sobre esteriótipos seja aplicável a muitos outros assuntos, é também cabível na perspectiva do amor. E para mostrar uma outra história sobre o amor: uma análise, lúcida, forte e válida, feita por Shulamith Firestone.

Shulamith Firestone, em seu livro A Dialética do Sexo, escrito na década de 70, dedicou um capítulo para a análise do amor, onde ela explica como o amor tem um significado político, principalmente para a manutenção de poder entre os sexos. Ela afirma:

"o amor nunca foi compreendido, embora possa ter sido amplamente experimentado e essa experiência comunicado. Existem motivos para essa falta de análise: As mulheres e o amor são escoras. Examinem-se eles, e a verdadeira estrutura da cultura ficará ameaçada."

A cultura e a estrutura política do amor, continuam tão enraizadas e inquestionáveis, que as relações homoafetivas também reproduzem a mesma lógica enquadrada na cultura masculina (machismo). (Grifo da autora)

O fato de que seres humanos precisam de amor, por sua função enriquecedora, serviu para o fortalecimento de fatores sociais e econômicos dentro da perspectiva do amor, que continuam sendo ignorados. São esses fatores, a base da cultura do romance.

Shulamith Firestone ainda afirma que o amor é o nervo da cultura masculina e é, o ponto fraco de todo homem que tenta provar sua virilidade. O amor dentro do contexto político e cultural que ela aponta, começa num estranho encanto que ela define como inveja, ressentimento e autocontrole, que pode ser compreendido como impor-se ou dominar. "A independência do outro origina desejos (leia-se: um desafio); a admiração (inveja) do outro torna-se um desejo de incorporar (possuir) suas qualidades (...) O amor é a abertura final para o outro ( ou a rendição ao seu domínio) (...) Assim o amor é o auge do egoísmo."

Porém ela não considera o egoísmo totalmente ruim e afirma que: " Um pouco de egoísmo saudável pode ser uma mudança restauradora. O amor entre dois iguais seria um enriquecimento, cada um expandindo a si mesmo, através do outro. Em vez de só, fechado na cela de si mesmo, exclusivamente com sua própria experiência e seu ponto de vista, o indivíduo poderia participar da existência do outro - Uma janela extra para o mundo. Esse é o motivo da satisfação que os amantes bem sucedidos experimentam. Eles estão temporariamente libertos do fardo do isolamento que todo indivíduo carrega."

O processo do amor não está errado e sim sua política e seu contexto de poder desigual, que coloca o amor na nossa sociedade atual como "uma formação reativa, um ciclo de inveja, hostilidade e possessividade. Entende que o amor é precedido de uma insatisfação consigo mesmo, de uma ânsia de alguma coisa melhor, gerada por uma discrepância entre o ego e o ego ideal; que a satisfação que o amor produz deve-se à resolução dessa tensão pela substituição do outro, no lugar do nosso próprio ego ideal; e finalmente, que o amor murcha, 'porque o outro não pode, mais do que você, viver à altura do seu elevado ego ideal, sendo a crítica tão severa, quanto mais altos forem os graus de exigência sobre si mesmo'."

Para Firestone, o amor é muito mais simples, porém corrompido e dificultado por uma estrutura desigual de poder. Os efeitos destrutivos do amor só ocorrem num contexto de desigualdade. Ela ainda afirma que, poder e amor, não se casam.


Élida Reira

Dialoga com o vento e a chuva e os pede retribuição de afeto.
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