travessia

Sobre a vida em suas vertentes

Élida Reira

Dialoga com o vento e a chuva e os pede retribuição de afeto

Carta Terapia

Carta de uma mulher para a amante de seu par.


Aquele bilhete que você escreveu, foi golpe de espada e eu não precisava. Naquele dia, saí da estação num estado imaginário de felicidade onde havia balões coloridos e cantorias. Ler seu bilhete, escureceu meu sol.

Aquele cheiro de desinfetante que estava no ar, ainda sufoca minha memória com a crueldade que você me feriu. Quando entrei porta a dentro, nem sequer sabia da sua existência.

Querida! Assim me referi a você, por ver em ti, meu semelhante: Mulher!

Quando você me feriu, eu sei que já estava premeditado. Eu não queria que sua dor fosse transformada em lanças em minha direção, mas entendo que você foi ferida antes. Eu gostaria que você não tivesse jogado as regras do machismo, mas foi assim que você aprendeu a jogar, e eu não podia te julgar por isso.

Você partiu meu coração e nos pedaços não coube raiva, apenas dor e empatia. O êxtase da dor passou e eu já queria chamar você de filha da puta, vaca usar todas aquelas expressões que em nada é coerente com a nossa condição de mulher. Eu pensei, por muitos vezes em te retribuir com outro bilhete, mas percebi que ainda estava em processo de cura e esse desejo era apenas o lado obscuro da dor. Me perguntei por muitas vezes, como deixei você me ferir, sem reagir?

Era eu que estava em um relacionamento, onde eu achava que a lealdade era presente. E você surgiu com a intenção de destruir tudo. Eu percebi a sua crueldade naquele bilhete e também as razões que te levaram a escrever. Eu sei como a rejeição dói. Eu realmente sei.

Querida, porque deixamos os homens serem essas barreiras ou bombas entre nós? Porque ainda acreditamos em tantos mitos e “verdades” impostas?

Eu sei que você o queria. Porém ele não se entregou e eu era o obstáculo que você queria destruir. Felizmente, não deu certo. Mais forte eu fiquei. Eu jamais agradecerei você ou qualquer outra pessoa por ter me ferido, mas também não faria guerra contigo ou com qualquer outra mulher por um homem.

Eu nunca acreditei em contos de fadas, mas quando a vida nos coloca nas situações que fogem as regras dessa sociedade, a parte mais difícil é ir contra ela, porque não importa a decisão que tomamos, para que lado decidimos ir, tudo está desfavorável a nós mulheres. Você me colocou numa escuridão. Mas… quando a greta da porta abriu e a luz entrou, eu pude ver como eu estava diferente.

Querida, quem tem manual para o amor, é porque nunca o vivenciou.

Eu te desejo amor! Amor que não tenha nada de puritano, que não se encaixe em nada do que dizem por aí sobre ele. Amor que venha da sua profundidade e que seja apenas seu, não em possessividade. Que ele brote de ti e por isso o pertença.


Élida Reira

Dialoga com o vento e a chuva e os pede retribuição de afeto.
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