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Sobre a vida em suas vertentes

Élida Reira

Dialoga com o vento e a chuva e os pede retribuição de afeto

Dat So La Lee e a Arte Degikup

Sobre a arte e a mulher indígena.


Fatos sobre a vida de Dat So La Lee é um mistério. Não existe precisão na data de nascimento de Dat So La Lee uma artista indígena norte america que provavelmente nasceu em meados de 1800 e faleceu em 1925. Dat So La Lee era pertencente a tribo Washoe (também conhecida por Washo). Sabe-se que ela viveu pela região de Carson Valley e na Sierra Nevadas.

A organização dos Washoe não tinha cacique ou lideres e sua sobrevivência era baseada no sustento através de sementes, peixes e a caça de alguns animais como coelhos selvagens e veados. Os Washoes não cultivavam a terra e também não adquiriam cavalos para viagens. Viviam na maior parte do tempo em paz com as tribos vizinhas, como Pomo, Maidu e Paiutes que viviam na região que posteriormente se tornou o Estado de Nevada. Das quatro principais tribos de Nevada ( Paiutes do Norte, Paiutes do Sul, Shosone e Washoe) os Washoe eram a menor tribo em quantidade numérica. Todas as tribos negociavam entre elas e os Washoe refinaram seu talento na tecelagem dos baldes incorporando métodos e complexidade de outras tribos. As mulheres washoe faziam baldes simples e sem adorno para colocar os itens da coleta e usar durante o processo de cozimento dos alimentos. Aos poucos como em todas as tribos indígenas, é provável que Dat So La Lee assistiu a chegada dos brancos e a destruição da cultura dos Washoe. Os washoe se tornaram serventes da população branca nas cidades em desenvolvimento e nas zonas rurais. Eles lavavam as roupas, cozinhavam, cuidavam das crianças brancas e ajudavam até na terra. Tudo era feito em troca por comida, pois os índios já não podiam obter comida por eles mesmos. Como todas as garotas Washoe, Dat So La Lee aprendeu a complexidade de tecer baldes. Porém, quando os brancos levaram o ferro para as comunidades indígenas, muitas deixaram de produzir os baldes porque não viam mais sentido em produzir algo que duraria alguns anos sendo que podiam utilizar um que duraria quase para sempre. Poucas mulheres continuaram produzindo os baldes e muitas esqueceram seu talento.

Dat So La Lee trabalhou na região de Carson Valley lavando roupas e cuidando de filhos de residentes brancos. Mas, diferentemente de suas contemporâneas ela continuou produzindo os baldes. No final dos anos 1800, Dat So La Lee casou-se com Assu e teve dois filhos que não viveram até a fase adulta. Assu faleceu e há especulações que ela tenha se casado novamente, mas pouco se sabe sobre isso. Por volta de 1888 ela se casou com o artesão de setas Charley Keyser, que era miscigenado e também tinha origem Washoe, vinte e quatro anos mais novo que ela. Nessa mesma época ela mudou seu nome para Louisa Keyser. O terceiro nome em sua vida. Quando nasceu, ela recebeu o nome de Dabuda, provavelmente dado pelo pai. Ela não tinha conhecimento sobre o nome da mãe e é possível que sua mãe tenha morrido durante o parto.

19542130_118023524755.jpgPor volta de 1985 Dat So La Lee estava trabalhando como lavadeira para Abram e Amy Cohn, donos de uma loja de roupa chamada The emporium em Carson City. Os Cohn compravam baldes das tribos indígenas localizadas nas regiões sudeste e na Califórnia para vender ao lado de chapéus, botas e anáguas. Quando Abram viu o talento de sua lavadeira ele começou a incentivá-la a produzir mais baldes e lavar menos roupas, visando a possibilidade de enriquecimento nas custas de Dat So La Lee. Abram fez uma proposta para Dat So La Lee: Em troca da produção exclusiva dos baldes, somente para sua loja, Abram daria a Dat So La Lee e Charley uma casa, comida, roupas e assistência médica. Dat So La Lee e Charley aceitaram a oferta de Abram e uma aura de mistérios passou a cobrir a vida de Dat So La Lee. A partir desse momento os Cohns começaram a criar mitos e fatos fictícios sobre a vida de Dat So La Lee no intuito de seduzir e atrair clientes para a sua loja. Amy escreveu vários contos mitológicos sobre a vida e a arte de Dat So La Lee. Dat So La Lee criou o estilo Degikup que era uma combinação dos estilos de tecelagem dos washoe e dos índios pomo.A palavra degikup se refere a “pequena borda em forma de boca”. Todo o processo de preparação do material para a tecelagem dos baldes, que envolvia galhos de salgueiro, raiz de samambaia, casca vermelha para colorir seus designs, demoravam dias para secar, depois eram desfiados e enrolados antes de curar. Por último, eles eram cortados em tiras estreitas antes de começar o processo de tecelagem. Os designs eram criados por Dat So La Lee. Ela era criadora e inovadora da arte Degikup. Ela geralmente usava o mesmo design em diferentes baldes. Alguns baldes demoravam mais de um ano para ficarem prontos. Depois de 1900, sua arte ganhou popularidade e outras tecelãs começaram a copiar o seu trabalho. Eles começaram a tecer para satisfazer a demanda por baldes atrativos e vendáveis, deixaram de reproduzir os modelos antigos e adicionaram cor para tornar os baldes mais atraentes para os compradores. Hoje, o degikup é considerado um dos mais colecionados entre os baldes indígenas, tem altíssimo valor.

Embora Abram tenha ganhado credito por ter estabilizado Dat So La Lee como uma grande artesã, foi Amy quem criou as histórias sobre ela e sobre cada balde, dando a eles significados, embora não houvesse nenhum. Muitas vezes, Dat So La Lee, sentava para tecer em frente The Emporium e as pessoas ficavam a assisti-la. O Jornal de Carson City anunciou a complexidade de cada degikup feito por ela. Os Cohns procuraram escrever Dat So La Lee como um produto da era, antes da chegada dos brancos e da destruição e miséria que os Washoe estavam expostos. tentavam esconder a todo custo a situação dos índios, por acreditarem que os brancos não queriam ver a realidade e sim a imagem de uma antiga inocente donzela artesã e para dar mais credibilidade a história eles mudaram sua data de nascimento, dando a ela uns dez anos a mais, para afirmar que ela era velha o suficiente para ser a primeira Washeo a ter visto e encontrado o explorador John C. Fremont - O primeiro branco a ter visto a tribo em 1984. Os Cohns levaram credito por dar visibilidade a arte de Dat So La Lee e fazê-la reconhecida entre os colecionados do mundo inteiro. Em 1900, Amy visando aumentar a sua clientela decidiu levar Dat So La Lee para outras cidades e expor seus baldes. Dat So La Lee chamava a atenção onde passava. Amy e Dat So La Lee gastaram muito tempo juntas. Elas viajaram extensivamente na companhia uma da outra e é possível que elas tenham compartilhado muitos momentos íntimos. Dat So La Lee confeccionou uma coleção de mini baldes e deu à Amy. Dat So La Lee foi ganhando fama ao passar dos anos e o tamanho dos seus baldes também cresceram. IMG_9160.JPG

Abram aumentou os preços dos baldes e poucos foram vendidos. Então, os Cohns espalharam um boato que Dat So La Lee estava ficando cega com o intuito, mais uma vez, de valorizar o trabalho de Dat So La Lee. A maior venda aconteceu em 1914, quando um industrialista da Pensilvânia, comprou um dos baldes por dois mil dólares. Abram tentou arrecadar fundos para a abertura de um museu com os trabalhos de Dat So La Lee, mas não conseguiu arrecadar fundos e o museu nunca foi concretizado.

As viagens que eles faziam para divulgar o trabalho de Dat So La lee e os elogios que ela recebiam os encorajaram para viajar para o leste em busca de mais clientes. Durante a St. Louis Industrial Exposition em 1919, Dat So La Lee estava no palco vestida com uma roupa simples e com o lenço sobre a cabeça. Ela tecia um balde enquanto Amy contava aos expectadores que Dat So La Lee antes deles, era uma princesa washoe e a única pessoa que podia tecer os especiais designs. Amy relatou uma serie de mitos no palco enquanto Dat So La Lee, sentou-se ao fundo, abaixou a cabeça e nunca disse uma palavra.

Amy morreu dias depois de retornarem da exposição e um ano depois Abram casou-se novamente. A nova esposa de Abram não via razão para manter o casal Washoe em tal luxo e a vida de Dat So La Lee e Charley declinou. Não houve mais divulgação do trabalho de Dat So La Lee e as peças produzidas por ela, foram consideradas, “sem coração, sem o mesmo sentimento” dos seus baldes anteriores. Já no fim da vida, Dat So La Lee sofreu com um edema. Ela morreu em 1925 em Carson City e foi enterrada com o seu último e inacabado degikup balde. Abram morreu em 1934, com mais da metade dos baldes feitos por Dat So La Lee ainda nas prateleiras. Sua segunda esposa, não via valor nos baldes e vendou vinte deles por 1500 dólares, para o Estado de Nevada. Hoje, os baldes valem centenas de dólares cada um. Hoje, os baldes podem ser vistos no Nevada State Museum em Carson City e também No Nevada Historical Society em Reno.

REFERÊNCIA: Turner, Eric -Wise Women From Pocahontas to Sara Winnemucca, Remarkable Stories of Native American Trailblazers.


Élida Reira

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