trechos e estilhaços de uma mente que abrasa

Gonzo journalism, auto-retratos e uma reserva adequada de pensées em francês pros dias chuvosos.

Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi.

André Gide, Franz Kafka e a prosa eremita

Muitos escritores tem uma agitação constante na prosa quando se refere ao outro. É porque o escritor sofre no estado de solidão, e acaba se fundindo com a fantasia, mas continua nesse estilo de prosa eremita, onde tudo é uma mescla do sujeito-objeto.


Retrato do Andre Gide pelo artista Théo van Rysselberghe

O André Gide e o Franz Kafka são os dois escritores que mais tem me influenciado esse ano. Eles personificam o escritor que é por definição, um escritor do coração: e sendo assim, é solitário. Sabe quando um filme ou uma comida tem um retorno triunfal na sua vida? Para mim esses dois foram assim: o revival de 2016! E quando eu entro nesses processos (sem a obviedade da piada pronta-literária-kafkiano de “O Processo”) eu acabado me deliciando nos livros menos importantes, menos famosos. Não é todo mundo que sabe que o André Gide escreveu ensaios sobre o Oscar Wilde, ou para a esposa Madeleine. Nem que o Kafka escreveu para uma mulher chamada Milena. Mas são nesses livretos que eu encontrei a alma do escritor mesmo, a ananque (palavra grega que significa força, resistência). São nesses livros, de não ficção, que o escritor desenvolve um estilo muito particular de escrever sobre uma pessoa, tão particular que pode até se dizer que ele está escrevendo sobre ele mesmo as vezes. Assim que se define, na minha concepção, a prosa eremita. Não é um simples monólogo interno. É onde o sujeito se funde com o outro, e se perde muitas vezes, para o bem ou para o mal. Ok, psicanalistas de plantão! Tenho certeza que vocês poderão me dar uma aula sobre o que de fato eu estou descrevendo, e me dar termos técnicos, mas acho que não preciso complicar. O escritor está tão perdido no isolamento, com o pensamento sobre o outro, que ele se funde. Na escrita dele, sai assim: ele vê o outro em tudo. Aliás, quantas músicas já não foram escritas sobre isso?

Para fazer uma análise justa, é necessário conhecer um pouco da história do sujeito. O que sabemos da história do Gide é que ele teve vários amantes (boy lovers) em Algiers, quando ele morou lá com o Oscar Wilde. Tanto é que ele escreveu o romance homoerótico escandaloso Coridon logo depois dessa experiência. E o casamento dele com a Madeleine sofreu. Eu sempre me pego pensando muito nesse casamento com a Madeleine, que em alguns textos ele a referencia como Emanuelle, para proteger a identidade dela. A Madeleine era a prima de primeiro grau do Gide, e ele se casou com ela, muitos especulam, como uma fachada. Mas depois de ler Madeleine, uma espécie de diário dedicado inteiramente a ela, e umas cartas, há de ter razão que ele a amava profundamente. Encontramos nessa prosa um escritor sincero por que ele diz “que são nos atos mais sinceros que são os menos calculados” mas como estamos percebendo – o Gide é sincero! E lendo sobre esse relacionamento quase tóxico com a Madeleine, ela aceitou esse homem, e ele é quase um poèt maudit. Ele se dá bem na melancolia e na desgraça, é assim que ele se sai melhor na prosa. Nessa carta, ele pede desculpa, mas ela nunca leu, ela nunca respondeu. Mas a memória desse coração dilacerado e essa alma vibrante, querendo e pedindo para ser reconhecida pelo amor que viveu!

O Gide não trava as palavras, especialmente nos Ensaios sobre o Oscar Wilde. Ele começa o trabalho assim, citando um gigante literário, o William Thackeray “ele tinha o dom dos grandes homens: o sucesso” e o Gide nos coloca na cena. Aliás ele nos lança na cena. Ele nos lança do nosso Boeing de pensamentos (sem paraquedas!) dentro do ano 1891, fala que as peças do Wilde ainda chocam, mas o homem em si... o homem em si está em decadência. É o final da vida dele. E ele abre esse livro, “Oscar Wilde”, com uma frase enigmática “Eu acho que Wilde só me causou danos” - isso é espetacular. É o Gide que está em decadência. Eu consigo sentir o rancor ecoando pelas palavras.

Para o Kafka não é diferente. Nos mini-ensaios, que são uma mescla de aforismos com historinhas para adultos – parecem sonhos às vezes – ele descreve uma sociedade de idiotas, ou um cachorro, e entendemos perfeitamente que ele se identifica. Quem leu Metamorfose? A empatia que o Kafka sente pelo outro é o que define o sofrimento dele.

Franz Kafka por Robert Crumb

Nas cartas a Milena, o Kafka fala “como é fácil escrever uma carta, as infinitas possibilidades de conversar com fantasmas! Eu te conto a verdade absoluta nessas cartas... e em consequência acabo descobrindo mais verdades.” A Milena traduziu uma das obras do Kafka, que foi publicado em Praga e foi assim que eles começaram a correspondência. Durante dois anos eles só tiveram dois encontros, ela estava casado com outro homem, e ele estava tentando sair de um noivado arranjado pelo pai (ó como ele odiava o pai!). Nas cartas, o Kafka pinta uma imagem bem sombria dele mesmo – ele angustia profundamente que ela não responde, cria verso após verso imaginando onde ela está, e descreve um processo artístico muito emblemático: ele quer escrever sobre outra coisa, mas ele não consegue. Se ela respondeu, como a Madeleine, nunca vamos ler essas cartas, foram todas destruídas. Mas o importante é que com as palavras, e o sentimento que foi transmitido pela honestidade.

O poder do Kafka está nas descrições detalhadas, sonoras – ecoa o Gide nesse aspecto – esse mundo particular do escritor é onde reside a riqueza, mas é onde reside a dor também. Eles estão sempre em conflito, então eles escrevem para o outro, num ato que para mim torna o sofrimento real, as palavras provam a existência de todos os sentimentos! É como se o escritor escrevesse e gritasse "tome as minhas palavras! Essa é a minha verdade! Eu me vejo em você! E você é o mundo, então eu te vejo everywhere!”

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Os escritores eremitas não param por aí, o que eu falei da música no parágrafo lá em cima é real! Eu sigo muitos poetas americanos e ingleses (jovens!) no Instagram com influências claras do T.S Eliot e do Dylan Thomas, que desbravam esse constante estado de solidão, desmoronam a prosa eremita na web ou no papel ou no suporte que for! Eu gosto muito de duas frases do Jean Paul Sartre, ele falava que “o inferno são os outros” e a minha angústia é sempre por causa do outro. Mas ele também pergunta "Somos capazes de diminuir ou dissipar nossa angústia? O certo é que não a poderíamos suprimir, uma vez que nossa angústia somos nós mesmos."

Mas aí já é papo pra psicanálise.

Obras Citadas

André Gide: Oscar Wilde, 1910.

André Gide: Et Nunc Manet in Te - (Madeleine) - 1951

Franz Kafka: The complete stories – 1995

Franz Kafka: Letters to Milena - 1990


Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi..
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