trechos e estilhaços de uma mente que abrasa

Gonzo journalism, auto-retratos e uma reserva adequada de pensées em francês pros dias chuvosos.

Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi.

Beleza Americana: a beleza de todos nós

Uma história de amor? De assassinato? Do declínio do sonho americano? Uma crítica? Porque a fórmula funcionou tão bem, e funciona até hoje. A trama multifacetada que nos puxa em várias direções e insiste: existe um quê de você nesses personagens, uma beleza americana deles em todos nós.


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“O meu nome é Lester Burnham, e em menos de um ano, estarei morto.”

É a primeira fala do filme. Sem mistério. O personagem principal morre, e anuncia o final dele na primeiríssima cena. O roteiro é do Alan Ball, projeto do Steven Spielberg, mas a direção impecável é do britânico Sam Mendes. O Mendes tem, antes de tudo, um histórico nos palcos do West End em Londres, onde aos 23 anos estava dirigindo a Dame Judi Dench.

Prestes a ser lançado em Hollywood, discutindo o primeiro filme dele, ele almoçava com o Spielberg. “Antes de me conectar com algo emocionalmente, eu o visualizo” ele explica, se referindo aos storyboards. Quem já assistiu o filme, já deve ter percebido algo especial na estética, mas são poucas as pessoas que fazem alusão as referências. Várias cenas nos fazem sentir uma espécie de “lógica ilógica” nas falas e na estética, como nas obras do Magritte.

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Mas outras, são áridas e simétricas como num quadro do americano Edward Hopper.

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Talvez o que incomoda no filme, e por consequência nos faz gostar tanto dele – é a desordem familiar. O Mendes, por ter formação clássica no teatro, fez os atores passar por um “dress rehearsal”, um ensaio formal que durou duas semanas – eles sentavam numa mesa de jantar e conversavam, como se fosse em cena. “Para não gozar antes da hora” diz ele. Os atores se familiarizaram, comunicaram maneirismos, tiveram embates naturais. É assim que se forma uma família.

Você, espectador, já se viu em cada um dos personagens criados pelo Ball, brilhante atuação do Kevin Spacey, Thora Birch ou Annette Bening. Você pôde sentir a pitada de tédio, ou a cobiça, o desejo da sedução, o preconceito, mascarando traumas. O personagem do Kevin Spacey, o Lester Burnham, passa por uma crise da meia-idade e sente desejo pela amiga da filha, uma cheerleader emblemática norte americana, Angela Hayes, que representa o sonho americano inteiro. Juventude, poder, sexo. Ele pede demissão do emprego em uma das cenas mais memoráveis sobre esse tema, dando aula de como pedir as contas depois de ter sido dilacerado pelo chefe, usado e mastigado pelo sistema. Ele começa fumar maconha e correr “pra ficar bonito pelado” e é como se “ele estivesse num coma há 30 anos e acabou de acordar.” Quem nunca sentiu isso? Esse despertar?

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A mulher dele, a Carolyn, que tem uma rotina certinha, apara a roseira perfeita pela manhã, angústia por dentro. Vemos o sofrimento nas risadas desesperadas, aflitas, que só um diretor de teatro poderia ter incluído. Conhecemo-la, a corretora perfeita, de fato quando ela se olha no espelho e diz “hoje eu vou vender essa casa” e faz uma faxina, se dedica, durante a maior parte do dia, se doando por inteira, o sorriso tipo Miss America estampado – só para desmoronar no final, agarrando as cortinas num berro quase animalesco.

Quem nunca né?

A filha Jane e a amiga Angela são a personificação do que toda mulher já passou na juventude. Essa necessidade de aprovação, essa comparação com o outro o tempo inteiro, a cobiça, a competição. As frases soltadas no carro “Ainda bem que não sou normal, não consigo pensar em nada pior, porque daí um dia eu vou vender revistas, e eu vou ser alguém na vida” e na verdade as duas competem pelo voyeurismo do vizinho, o Ricky Fitts. No final a amiga admite que embaixo de toda aquela fachada de mulherão, ela é virgem, e o personagem do Kevin Spacey a vê como ela é, uma menininha.

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O grande erro, a grande consequência, vem quando se esbanja de muita liberdade sem segurança. Igual os personagens fizeram. O Lester Burnham se isentou das responsabilidades com a filha, até ele admite isso, se doou aos seus desejos sem pudor. O Ricky Fitts e a Jane estavam num folie a deux, ou uma loucura compartilhada. A mãe nunca esteve presente, colocou as suas necessidades (que muitas vezes eram materiais) acima das necessidades da família. Mas o que é a liberdade sem a segurança? Já dizia o sociólogo Zygmunt Bauman “Segurança sem liberdade é escravidão e liberdade sem segurança é um completo caos,incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso.Então você precisa dos dois”

Uma das cenas mais marcantes do filme é quando a mãe chega em casa, depois de cometer adultério, e o Lester está no sofá bebendo uma cerveja, e ele tenta seduzi-la.

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“Lester, você vai derramar cerveja no sofá”

“E daí? É só um sofá!”

“Não é só um sofá, custou $4,000 e é feito de seda italiana! Não é só um sofá!”

(furioso) “É SÓ UM SOFÁ!”

O Sam Mendes, depois do sucesso na bilheteria declarou que o filme: “É sobre como as almas podem virar shopping centers” Pois sim, e há beleza nisso, a beleza de todos nos, do mundo inteiro. Um comportamento humano inequívoco que se repete, desde os pré-socráticos. O importante é como não perder o seu eu de vista, e não deixar os seus desejos tomarem conta da sua vida.


Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi..
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