trechos e estilhaços de uma mente que abrasa

Gonzo journalism, auto-retratos e uma reserva adequada de pensées em francês pros dias chuvosos.

Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi.

Closer (Perto Demais) - A verdade dói. Mas a verdade não mata

O hiper-realismo e a verdade nua e crua em Closer nos faz pensar - é sempre a melhor opção? E você sempre tem uma escolha antes de trair?


“Eu sei quem você é. Eu te amo. Eu amo tudo em você que dói.”

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Closer – Perto Demais (2004) de Mike Nichols foi baseado em uma peça de 1997 com o mesmo nome. O Nichols arquiteta tensões humanas, sexuais, amorosas, risadas quase brutais, entre os quatro personagens que formam a quadrilha de desgosto e mácula. A direção dele é hipnótica e 12 anos depois, é extremamente atual. Praticamente todas as falas dos personagens, os olhares, punhos cerrados, maxilares retesados são fragmentos da vida real. Não é teatral. E se, por um momento, não nos identificamos nas falas grosseiras:

“Você estragou a minha vida” diz o Dan, o ‘escritorzinho’ de obituários. “Você supera” devolve Anna, a fotógrafa Americana.

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Nós nos vimos nessas cenas nos nossos cotidianos. Eu mesma já me imaginei na imensa maioria das cenas, já identifiquei as rajadas. Quando o troglodita médico dermatologista Larry pergunta para Anna que gosto tem o sêmen do Dan, ela responde seca: “É igual o seu, mas é mais doce”

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A precisão formal de Nichols na direção é instigante e incômodo às vezes, e chegou a ser alvo das criticas na peça Carnal Knowledge em 1999 no Broadway. Mas em Closer ele juntou as peças e personagens de uma forma tão mágica, que consideramos que as qualidades e defeitos hiper-realistas deles são de fatos representações do mundo em que vivemos. Que a Anna, Jane, Dan e o Larry são extratos de pessoas, que esses diálogos realmente aconteceram, e até:

Que existem partículas desses quatro dentro de cada um de nos. A novelista e roteirista Americana Nora Ephron falava que escritores são canibais por natureza e que bastava um jantar com os amigos para que ela roubasse alguma história ou ideia para o próximo projeto. Tenho a impressão, por causa do harsh reality que é nos jogado na cara (isto é, a vida real de forma tão cavala e atrevida) que essa rudez existiu em algum momento no Tempo em alguma relação real. Nem a delicadeza da Natalie Portman consegue suavizar os diálogos fortes. Quando ela é atingida pelo carro na primeira cena, e resgatada pelo Jude Law, forma-se a moldura da damsel-in-distress, a mulherzinha que precisa de ajuda. A ajuda de um super herói moderno, um amor qualquer, o coração dela aberto.

“Porque você não mente mais? É a moeda de troca mundial” diz Dan em uma cena, as veias na testa saltando. O Larry retruca, vestindo um jaleco médico, falando que o coração “é do tamanho de um punho embrulhado de sangue!” Um bate-volta intenso, animalesco porém encoberto de razão, que ilumina a contradição do homem: desejo x moral.

Não há a mulher fraca no final como vimos no começo. A Natalie Portman (a “plain Jane”) dizendo “Eu não te amo mais.” Dan pergunta “Desde quando?” “Agora” E ela parece entender profundamente a dinâmica da relação dizendo coisas que quase parecem ensaiadas pela personagem, como se isso já foi vivido em outra época da vida dela “Você não me deixa, sou eu que te deixo” e “Porque você me traiu? Sempre tem um momento em que você tem uma escolha! Você conseguiria escolher!”

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Quando ela fala isso, nós concordamos certo? Mas depois de pensar um pouco, será? No ato mesmo da traição, ou segundos antes, quando você olha pro outro, e pensa na sua história, o que reina? A moral ou o desejo e ímpeto? Nem todos são desgovernados, e nem todos são adeptos a contar a verdade como os personagens de Closer, tão severamente.

Li em um texto sobre a verdadeira ética na ioga do B.K.S. Iyengar que “A verdade precisa ser temperada com a amabilidade social... não podemos impor aos outros a nossa verdade - e devemos sempre ter certeza de que nossas ações não violentem os demais.”

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Portanto por mais que o desejo seja de “falar mesmo” ou adornar uma peruca rosa – às vezes é melhor praticar a moralidade, amenizar a verdade e pensar nas consequências.


Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi..
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