trechos e estilhaços de uma mente que abrasa

Gonzo journalism, auto-retratos e uma reserva adequada de pensées em francês pros dias chuvosos.

Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi.

Cultura do Estupro: você deu ou não deu permissão?

Sabe aquele abraço apertado que ficou estranho? Você olha mesmo para o sexo oposto ou sente medo? As mulheres gostam de ser elogiadas?


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O termo Cultura do Estupro tem sido usado desde os anos 1970 para apontar comportamentos sutis que relativizam a violência contra a mulher. A palavra “cultura” reforça que esses comportamentos não são normais ou padrões, e que existe a esperança de serem mudados.

As feministas pegam por vários viés: o assédio, o desrespeito ao “não” e a objetivação da mulher. Na questão do assédio, você, mulher (e também homem!) já sentiu. Um olhar que já te fez sentir estranho. Aquele olhar que roubou a sua intimidade, que roubou a sua inocência. Os pensamentos, os minutos do seu dia. Vocês sabem do que eu estou falando. Mas, aí vem o questionamento. Existem vários tipos de olhares, e é complicadíssimo categorizar um “olhar”. Um simples olhar pode entrar numa questão sociocultural. Você gostaria se um mendigo te olhasse daquele jeito? Não? Por que não? Um homem bonito? Mulher bonita? Brad Pitt? Sim? Por quê? Como ser humano, seria melhor você se questionar sempre, porque o olhar em si é subjetivo.

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Antes de fazer qualquer julgamento sobre uma pessoa, é melhor seguir o conselho do Delfos (da filosofia grega) “Conhece a ti mesmo”, porque se existe uma possibilidade que você se sinta lisonjeada dentro desse olhar, você não pode acusá-lo de nada, nem pode olhar feio nem retrucar. Mas, existem vários lados. Há homens que são muito inadequados, que ficam só olhando pras coxas, pros seios, descaradamente, existe até a frase “poxa, os meus olhos estão no meu rosto, não no peito”.

Sabe aquele abraço apertado do colega do trabalho – será você concedeu permissão? Por que você se sentiu mal depois? A joutjout, uma vídeo blogger bem famosa fala desse tal sentimento de assédio que depois, que você poderia chamar de abuso. O “fiu fiu” na rua. Porque ele acha que tem o direito de fazer isso? Eu já indiquei alguma intimidade pro lado dele? Eu acho que todo mundo tem o direito de manifestar esses sentimentos em voz alta. Para os seres humanos de hoje em dia que estão sempre no Facebook, o simples ato de ser chamado para uma conversa é diferente, é importante expor o seu ponto de vista de uma maneira não agressiva, respeitosa e perguntar: é isso mesmo? Isso está rolando? A maior parte das vezes, ele quer uma coisa muito diferente do que você está pensando. São raras as vezes que duas pessoas estão em sincronicidade. As vezes a pessoa nem percebe que está sendo tão inadequada. Você pode ajudar uma pessoa nos comportamentos do dia-dia, e o que realmente importa é essa troca de informações: você vai se sentir melhor.

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Tem várias questões em jogo. Estamos numa sociedade nem tanto pós-moderna, mas numa sociedade líquida, como diz o Bauman, em que infelizmente, se eu tirar um nude e mandar pro paquera do Happn ou do Tinder, pode viralizar, mas o simples ato de mandar – isso é conceder permissão na minha concepção. Eu já larguei mão da minha foto e dividi com o outro, a minha imagem está exposta – e eu acho que é isso que está acontecendo nas ruas. Num mundo ideal, poderia confiar em todo mundo! Mas não posso!

Teoricamente podemos falar sobre tudo né? Prezamos pelo não julgamento, mas estamos julgando o tempo inteiro.

As mulheres também, com essa tal Cultura do Estupro tatuada na mente tendem a pensar que os homens são só isso: Vão olhar para peitos e bundas e querem dar “madeirada” (gíria funkeira du jour) mas a imensa maioria está olhando para as sutilezas também! O homens mais instruídos de hoje com todo esse comportamento das feministas mais radicais estão com um baita medo, se vocês querem saber a verdade! Pouco olham para as mulheres bonitas ou interessantes no metrô, olham de formas muito discretas, nunca chegam perto, jamais sentariam do lado de uma...

(aliás, se fosse para uma paquera, vamos combinar que hoje em dia é mais fácil uma mulher chegar e dar em cima de um homem do que vice-versa não é mesmo? Já é costume)

Os homens estão com um medo de até respirar “errado” perto da mulher apoderada de um discurso radical, que vira “ah! Ele me assediou!” Uma mulher nesses casos está sempre certa! Os homens sabem disso. E são poucas mulheres que saem das entrelinhas para falar: “ela sabia o que ela estava fazendo, ela estava seduzindo, ela se veste assim porque ela gosta de chamar atenção”

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Gente, nenhuma mulher pede para ser estuprada. Vamos ser claros sobre isso. Gostam sim, de chamar atenção. Mas ninguém pede para ser estuprada.

É uma hipocrisia falar que as mulheres deveriam poder andar de biquíni nas ruas de uma das maiores cidades do Brasil sem sofrer assédio. Vivemos numa cultura machista, além disso desde sempre houve pudor com a nudez. Na Dinamarca ninguém é assediado, em Los Angeles, é raro receber um cat-call. Em New York muitas vezes é por um descendente de italiano, que também é sangue quente. Tem uma cena no Sex and the City em que a Miranda um dia cansa de tanto o pedreiro assedia-la. Uma dia, ela vira e fala “Você tem o que eu preciso? Ah é? Vamos aí então gostosão!” E o pedreiro fica assustado e recua falando “Nossa moça eu sou casado” Talvez é assim que nos mulheres deveríamos tratar os mais... sem noção.

Sendo sem noção também. O resto é na conversa.

Mas para finalizar, o verão está chegando com tudo. É crop top pra lá, shortinho pra cá. Não vamos entrar com o discurso que nos mulheres também podemos enaltecer os homens na rua. Nunca fizemos isso e é difícil mudar um comportamento tão enraizado. Mas fica a dica, ao meu ver, as mulheres que saem de sainhas no verão querem sim ser olhadas, elogiadas. Não de uma maneira rude e vulgar – mas aí a saia também não pode ser rude e vulgar.

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Vamos combinar? Que mensagem você quer passar?


Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi..
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